quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Resenha do livro "Lévi-Strauss, antropologia e arte, minúsculo- incomensurável", de Dorothea Voegeli Passeti

 Por Deise Lucy Oliveira Montardo (*)


A publicação oportuna deste livro vem brindar o centenário do nascimento de Claude Lévi-Strauss, este grande intelectual que atravessou o século XX, influenciando sobre maneira todo o pensamento sobre o homem. O trabalho de Dorothea trata, principalmente, de como a arte é presença forte na vida e na obra do autor, percorrendo para tanto, a sua trajetória, buscando pinçar em relatos, entrevistas e biografias, as referências que ajudam a montar o seu pensamento sobre arte. A autora chama a atenção para o modo como Lévi-Strauss retoma certas questões no decorrer do seu trabalho, de uma maneira que mais parece um tempo que se renova, e não o tempo linear como usualmente o pensamos. Ou seja, questões que estão nos seus primeiros manuscritos são retomadas bem mais tarde, às vezes cinqüenta anos depois, com o mesmo frescor e paixão.

Dorothea nos conta que a família de Lévi-Strauss por parte de pai, foi composta de artistas, até pelo menos a terceira geração anterior. Seu pai foi pintor e dava como prêmio para o menino, quando tirava boas notas e estava por volta dos sete anos, passeios ao Louvre e audições de óperas. O intelectual revela em entrevistas que a arte foi para ele no ambiente em que foi criado, “o leite da alimentação”, tendo sido iniciado, em termos musicais, em todo o repertório do compositor Wagner. Conta que seu pai, que era fiel aos modos de pintar dos séculos XVIII e XIX, ficava desmoralizado quando, depois da primeira guerra, visitava os museus. Ao descrever para o filho os quadros cubistas, provocou no menino, então com dez anos, uma revelação: “podia-se pintar sem representar” !!! (p.24). Durante a adolescência segue com o que chamou de uma espécie de “peregrinações e devoções” em visitas a galerias onde acompanhava a obra de Picasso.

Apesar de toda a família ter sido, até então, de artistas, tinha se arruinado em termos financeiros. Apenas um tio seu havia sido bem sucedido neste campo, ao emigrar para os EUA. O futuro antropólogo então, foi dissuadido, apesar de seu grande interesse pela arte, a procurar outra profissão que lhe garantisse tranqüilidade econômica. Começou cursando direito, depois filosofia e, enfim, procurando construir a carreira de etnólogo com as vindas para o Brasil. Bem antes de pensar em ser etnólogo, no entanto, escrevia sobre Picasso e o cubismo.

Ainda adolescente descobriu Freud e a psicanálise. Dorothea chama a atenção para o fato de que, mesmo antes de descobrir a lingüística, já lhe interessou, na leitura de Freud, a descoberta de que os comportamentos mais afetivos, as operações menos racionais, são as mais significantes. Ressalto esta observação da autora porque em “O Pensamento Selvagem” quando ele faz uma comparação entre as formas de apreensão e de conhecimento na arte e na ciência, e mesmo em “O Cru e o Cozido” quando ele faz um gradiente entre a música, o mito e a fala verbal cotidiana, é em termos de variante do significado em relação ao significante que o faz, sendo que, na arte, este tem um espaço de significação maior do que na fala normal.

A autora detalha a passagem de Lévi-Strauss para a Filosofia, seus tempos de militância política e o início de sua vida como professor até surgir a oportunidade, abraçada rapidamente, de viajar ao Brasil para dar aulas na recém inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, e iniciar sua carreira de etnólogo.

No Brasil, uma das expedições que ele e Dina, sua primeira mulher, fizeram, foi ao Mato Grosso do Sul, na época Mato Grosso, onde estiveram entre os Kadiwéu. Sobre as pinturas escreveu um dos seus textos mais antigos, “Indians Cosmetics”, que publicou na revista surrealista em Nova York e no qual fala das rendas pretas que envolviam as mulheres e a sedução que estas provocavam.

Depois de suas estadias no Brasil, o pesquisador volta à Europa e é então atingido pela perseguição aos judeus na segunda guerra. Robert Lowie e Alfred Metraux, dois dos mais importantes estudiosos das sociedades indígenas da América do Sul, o convidam nesta ocasião, para ir para Nova York, atuar na New School of Social Research, através do plano de salvamento de sábios europeus da Fundação Rockfeller. Na viagem, feitas em condições precárias, ele teve a sorte de ter sido reconhecido por membros da tripulação, os mesmos de viagens anteriores, que lhe garantiram dormir em melhores condições que o restante dos passageiros. Numa das paradas reconheceu André Breton, ao qual se apresentou e daí surgiu uma ligação ente eles. Lévi-Strauss se encantou então, com o surrealismo, principalmente nos aspectos relacionados à espontaneidade e à liberdade na criação artística.

Juntando estas informações sobre seus encantamentos com estes movimentos artísticos e com as artes de outros povos, seu movimento de busca do outro, na procura da etnologia, o pesquisador reflete que havia, de certa maneira, uma busca do exótico, não do bom selvagem, pois tinha claro que os homens são homens em todos os lugares. Mas no fundo, havia um descontentamento com a sua própria sociedade e que ele buscava preencher com a tentativa de encontrar em outros lugares e outras culturas aquilo que acreditava faltar na sua. Ou buscava, pelo menos, melhor entendê-la. Lévi-Strauss funda o relativismo radical, no qual todos os sistemas culturais se equiparam. Mas, Passeti chama a atenção para o fato de que, na sua atitude, prevalece uma hierarquia de valores, um certo “primitivismo”, no qual as sociedades que estuda têm um valor positivo. E a sua admiração pela arte destes povos tem seu papel nisto, aliada, é claro, à fraternidade que reconhece neles.

Lévi-Strauss observa, nas suas experiências de campo entre os índios brasileiros, que os objetos são vivos, eles cantam, dançam, etc. Eles parecem querer falar com o pesquisador. Esta é uma discussão que está sendo levada a sério nos dias atuais, com os debates sobre perspectivismo ameríndio, pensamento no qual certos animais, plantas e objetos tem agência (ver p.ex. Viveiros de Castro 1996). Alfred Gell, antropólogo inglês deixou uma obra póstuma “Art and Agency”, onde explora justamente esta característica dos objetos de arte, que ocorre na Melanésia, aqui entre os povos indígenas e em outras partes do mundo, de forma muito marcante (1998). Nos seus escritos, Lévi-Strauss exaltava a beleza da arte indígena e, ao enfatizar a vida dos objetos estava em diálogo mais com os surrealistas do que com a etnologia vigente, mais preocupada com aspectos relacionados à organização social e ao parentesco do que com as filosofias nativas.

Em 1942, ele é apresentado ao lingüísta Roman Jakobson, quando iniciam uma amizade e trocas intelectuais sólidas e duradouras. Lingüística, fonologia, parentesco e trabalho de gabinete passam então a compor o fazer antropologia de Lévi-Strauss. Em Nova York, o autor dedica-se a mostrar que a arte indígena é arte. Percebe esta agência dos objetos, mas no texto em que trata dela “O desdobramento da representação nas artes da Ásia e da América”, esforça-se, ao falar da arte kadiweu, a analisá-la como uma deformação do rosto verdadeiro através de uma disjunção que cria uma harmonia artificial. Passeti narra suas palavras: “... representação de um indivíduo, visto de frente, através de dois perfis; simetria muito elaborada que pode empregar assimetrias de detalhe; transformação ilógica de detalhes em novos elementos; representação mais intelectual que intuitiva, predominância do esqueleto ou dos órgãos internos sobre o corpo” (p. 155). A autora dá ênfase às elaborações que faz o antropólogo para fugir do difusionismo nestes estudos. Através da análise estrutural chega à noção de representação desdobrada, na qual o artista procede a um mecanismo que lembra uma cirurgia, abrindo o objeto representado e dispondo de todas as suas partes num plano, o que ocorre em vários lugares do mundo. Abro um parêntese para comentar que o livro contém imagens belíssimas e que ajudam no entendimento da obra de Lévi-Strauss.

O fascínio do pesquisador pela arte indígena, levou-o a buscar ferramentas para entender os documentos plásticos, revelando como caminhos, além das relações entre arte e estrutura social, a análise dos mitos e das lendas. Passeti segue, desbravando o tratamento que Lévi-Strauss dá a questão das máscaras, recorrendo à psicologia e, chegando perto, aí, de alcançar o inconsciente. A autora deixa claro para os leitores o quanto o interesse dele pela arte abriu os caminhos do pensamento para a formulação de suas teorias. A autora encontra como eixo em toda esta trajetória a crítica que faz à lógica racionalista do mundo ocidental. Um dos méritos do livro é a atenção que Dorothea dá a personalidades que foram marcantes para Lévi-Strauss, como o pintor surrealista Max Ernst, por exemplo.

Ao narrar a volta do antropólogo francês à Europa, Dorothea, mais uma vez, enfatiza a admiração que desenvolveu pelas artes dos outros, que o fez, nesta volta, ver decadência em alguns aspectos de sua arte. Deste período, a autora destaca os reencontros e as amizades que Lévi-Strauss aprofunda, entre elas com o psicanalista Jacques Lacan; sua passagem pelo Museu do Homem e as respostas positivas a sua obra “Estruturas elementares do parentesco”, publicada em 1949. Dentre as últimas, destaca as dos escritores Simone de Beauveoir, que a leu para subsidiar “O segundo Sexo” e Georges Bataille, que escreveu um artigo sobre o enigma do incesto, relacionado-o com o erotismo, um dos capítulos do livro “O Erotismo”. (p. 190)

Passeti desvela em detalhes a viagem de Lévi-Strauss ao oriente e o seu encontro com o budismo, ao qual se refere como religião do não saber, e que, segundo ele, “eleva-nos até o ponto em que descobrimos a verdade sob a forma de uma exclusão mútua do ser e do conhecer” (citação de Tristes Trópicos). A autora pergunta então se seria possível aproximar essa noção budista do esforço de Lévi-Strauss em criar a antropologia estrutural. Cita então o autor para responder: “Como as crenças e as superstições se dissolvem quando observamos as relações reais entre os homens, a moral cede à história, as forma fluidas dão lugar às estruturas, e a criação, ao nada (Tristes Trópicos, p. 390). Dorothea levanta a possibilidade de localizar também no budismo a raiz de desdobramentos que aparecerão futuramente na sua obra, como a “insistência em conciliar o sensível e o inteligível ...” (p.216)

Dorothea detalha vários aspectos da obra de Lévi-Strauss no que se refere à arte, dos quais destaco aqui a sua relação com a música. Nesta parte do livro, a autora inicia contando da clausura que considerou seus vinte anos de dedicação à escrita das “Mitológicas”, na qual metáforas musicais têm papel fundamental. A obra foi dedicada a Wagner e, segundo o autor, a música inspira o próprio fio da reflexão. Neste trabalho teria realizado seu sonho de regente pois o compôs como numa partitura, distribuindo os diversos códigos: geográfico, econômico, sociológico e cosmológico, como vozes de uma orquestra, considerando suas superposições como contrapontos (pp. 296-300).

Em “O Cru e o Cozido”, Dorothéa nos lembra, ele descreve a sensação corpórea provocada pela música, tanto em termos fisiológicos, através da exploração dos ritmos orgânicos; quanto em termos culturais, pois as escalas de sons musicais variam de acordo com as culturas. Lévi-Strauss deposita na música o “supremo mistério das ciências do homem” (apud Passeti 2008: 300).

Uma interrogação que se coloca quando nos debruçamos sobre este tema se refere ao fato de que, apesar de ter usado a música para falar dos mitos ameríndios, ele o fez sempre com a música ocidental, não tratando em nenhum momento da música indígena. Com a publicação de “Olhar, escutar, ler”, esta minha perplexidade foi em parte resolvida, pois lá, Lévi-Strauss conta que fez transcrições da música Nambiquara, que pretendia publicar e que o editor perdeu em um táxi em Paris, o que o deixou traumatizado. Esta foi uma passagem que escapou a Dorothea, sem prejuízo nenhum a obra, enfatizo; apenas torna evidente que a leitura é feita por uma pesquisadora mergulhada no estudo das artes plásticas. Como Lévi-Strauss escreveu sobre estas, a autora teve muito material para explorar, tanto no que se refere à arte ocidental quanto à indígena, o que fez brilhantemente. Ela nos mostra como em Lévi-Strauss, a arte é mais que ilustração. “Ao contrário, é possível rearticular a interpenetrabilidade dessas duas formas de pensamento [a arte e a ciência] ao se perceber que qualquer arte é produto intelectual. A defesa do princípio da beleza da arte indígena implica não apenas luta contra preconceitos e juízos estéticos colonizados e colonialistas, mas sobretudo reconhecimento de que a emoção estética proporcionada por qualquer arte advém de sua carga reflexiva e intelectual. É esse o significado da aliança entre sensível e inteligível, aliança que deve preservar suas respectivas propriedades. Só assim a ciência que dialoga com a arte saberá diferenciar a beleza natural e uma obra-prima, bem como perceber que ela recria a própria natureza. Só assim, enfim, ela poderá perceber que, num nível profundo, formas do pensamento científico e artístico podem coincidir.”(p.402)

No livro, Passeti nos apresenta, ainda, uma outra faceta do intelectual, que integra também os interesses do início da sua vida com os desdobramentos tomados ao longo da sua trajetória. Ela explora o discurso polêmico do autor na Unesco, em 1971, no ano internacional de luta contra o racismo, no qual ele conclama ao abandono do antropocentrismo, reafirmando seu amor e interesse por todas as forma de vida, exaltando o budismo e criticando o humanismo ocidental herdado da Antiguidade e do Renascimento (p.321).

Finalizo realçando que a obra de Passeti nos ajuda a olhar, ver, escutar e, principalmente, admirar este grande homem e intelectual que, com seu trabalho, contribuiu inequivocamente para a estabilização da antropologia como disciplina científica.



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