quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DISCRIMINAÇÃO NA ACADEMIA: Professor universitário mostra como foi vítima de preconceito enquanto cursava mestrado em Santa Catarina.(*)

Por Geraldo Barboza de Oliveira Junior
“Conheci Florianópolis em 1985, durante um encontro de universitários. Encantado com a cidade decidi que um dia voltaria para ficar. Dez anos depois desembarquei no aeroporto local acompanhado de Flora, minha filha de 6 anos. Negro, professor universitário e pai solteiro proveniente de Boa Vista, Roraima, eu chegava à capital de Santa Catarina com a intenção de cursar mestrado em Antropologia Social.
COMENTÁRIOS
Ser aprovado em primeiro lugar me deixou feliz. Mas isso veio a se constituir num problema de ordem social no ambiente acadêmico. Eu já recebia o salário de professor e passei a contar com o dinheiro da bolsa de estudo. Como essas bolsas não eram suficientes para todos os aprovados, foram repassadas de acordo com a classificação dos candidatos.
Isso fez com que eu ouvisse o seguinte comentário, feito por um colega de mestrado: ‘Claro que ele precisa do dinheiro da bolsa e do salário. Viu como ele está sempre comprando roupas de frio? Deve ser pra manter as trancinhas de canecalon da negrinha que ele ganha tanto dinheiro!’ Por várias vezes ouvi frases de igual teor. Para eles, Nós não éramos iguais aos outros negros.
Em termos profissionais, a situação era bem diferente. Convidado para integrar um projeto de pesquisa sobre Territórios Negros em Santa Catarina, desenvolvido pelo Núcleo de Estudos Sobre Relações Interétnicas – NUER (UFSC) passei a viver num ambiente cercado de amigos, negros e brancos. Através dessa entidade mantive contato com o NEM – Núcleo de estudos Negros – e conheci alguns de seus programas. Fiquei cerca de um ano envolvido com a produção direta de minha dissertação.
LADO BRANCO, LADO NEGRO
Eu vivia o paradoxo de ter uma relação pouco recomendável com os colegas de mestrado e de ver minha filha ser hostilizada numa escola da rede privada. Só para citar um exemplo de como o relacionamento com outros alunos era ruim, conto o que ocorreu numa noite: um colega de mestrado telefonou para minha casa e sugeriu que minha bolsa deveria ser repassada a outro aluno. E a criatura ainda disse que não via necessidade de eu ganhar ‘tanto dinheiro’. Afirmou que eu deveria entregar o telefone, que era alugado, colocar minha filha numa escola pública e morar numa casa menor. Resumindo, ele disse com todas as letras que as pessoas antipatizavam comigo por me considerar esnobe.
Visto que minha relação tinha que Sr balizada em valores mais vinculados à cultura negra, não fiz por menos: aluguei uma casa muito maior, dispensei o aluguel do telefone, comprei um celular e me aproximei de um grupo de 30 africanos na universidade. Pude, enfim, ter a felicidade de ver minha filha à vontade, tratando dos cabelos e falando de sua própria beleza.
Mas chego à conclusão de que Florianópolis também é muito negra. Local onde a maioria da população é branca, foi lá que mais vi e ouvi bandas de blues. Na cidade há uma verdadeira adoração a Bob Marley, e os rappers se encontram todo fim de tarde num dos terminais de ônibus com seus rastafáris. Mais de 40 processos de racismo tramitam na justiça, há mais de seis entidades negras atuando e o terreiro de Pai Leco tem página na internet. Só para lembrar, há ainda o livro Negros no Sul do Brasil, de Ilka Boaventura, do qual também faço parte.
A VOLTA POR CIMA
Vivendo situações tão díspares, depois de dois anos resolvi voltar a Natal, minha cidade de origem. Não dava para esquecer o que tinha passado, mas também não podia me fixar apenas nas lembranças amargas. Decidi então formar uma entidade negra com amigos. Assim surgiu em janeiro de 2000, o Centro de Estudos, Documentação e Articulação da Cultura Negra – CEDAN-RN. Essa organização não governamental tem por meta desenvolver projetos de reconhecimento e valorização da comunidade negra. Com esse projeto social, sinto que dei a volta por cima.”
 (*) Texto publicado na Revista Raça Brazil em Junho de 2000.

  


             





             








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