Da década de 90 até a atualidade surgiu uma nova preocupação na Academia em estudar a saúde considerando o homem, seus relacionamentos sócio-culturais, sua maneira de lidar com o mundo e consigo próprio, com sua psiquê e comportamento em seu meio.
Na busca de uma análise sobre a origem do homem, sua forma humana e suas reações diante das doenças, os estudiosos sobre o tema saúde/doença utilizaram-se da interdisciplinaridade entre as teorias produzidas nas Universidades, as pesquisas de campo, visitando famílias em domicílios, considerando suas experiências oriundas da convivência hospitalar.
A ênfase produzida pelas Ciências Sociais direcionou-se para as questões da saúde pública/coletiva destacando a pessoa, o corpo e a doença. O enfoque deste estudo, é a construção do indivíduo, do corpo e dos sentimentos ligados aos distúrbios da saúde.
A intenção de criar um conjunto de características próprias e exclusivas para uma antropologia especializada na saúde e doença não é partilhada pela maioria dos cientistas sociais, médicos e agentes da saúde.
Ao contrário da opinião fechada das Ciências Sociais na década de 70, a antropologia social, é bem vinda hoje, no campo das ciências médicas em prol da construção de soluções para sanar as demandas sociais da saúde pública.
Alguns temas destacam-se no âmbito das Instituições e na política:
Neste contexto, conta-se com a pluralidade das diversas disciplinas pensando um caminho melhor para os problemas da saúde coletiva.
A antropologia conta com a filosofia, com a sociologia, com a psicologia, com a história e, neste leque de orientações teórico-metodológicas nasce um cuidado com o ser humano, representado numa antropologia calcada em fontes nacionais e internacionais.
Na antropologia de Marcel Mauss, a atividade do pensamento coletivo é simbólica, desprezando o pensamento individual, suas representações de saúde e doença mostram por meio da dedução dos fenômenos orgânicos a crença dos indivíduos a partir de conceitos, símbolos e estruturas cristalizadas no meio em que pertencem.
As significações sociais resultam da cultura de cada povo, fortalecidas em pleno contexto situacional, local de manifestação.
De outro lado, há a possibilidade de realização de métodos quantitativos e qualitativos em pesquisas de campo envolvendo indivíduos, grupos, enfatizando os comportamentos, os motivos, as idéias, as crenças.
Esses valores traduzidos na linguagem cotidiana, não desprezam a preocupação de alguns pesquisadores frente à questão ecológica ambiental aplicada aos estudos envolvendo pessoas doentes e a grupos determinados.
A rigor, faz-se necessária a organização da investigação científica atrelada à abordagem histórica e a origem das realidades social e histórica.
Para crer num trabalho confiável etnográfico, a fonte oral vem sendo utilizada como método capaz de entender o sentido do ser doente ou saudável, reconstruindo a lógica das representações produzidas e socializadas durante a sua construção.
Modelos atuais de referência.
Os estudos de representações/significados ou símbolos e práticas da saúde e doença apontam para o entendimento cultural dos grupos analisados ultrapassando a objetividade dos estudos epidemiológicos – doença rapidamente alastrável numa população (HOUAISS, 2001:170) reconhecendo limitações em seu uso, como:
A antropologia da saúde propõe uma nova maneira de pensar e agir em relação ao corpo, a cultura e individualidade de cada ser humano, imbuída da teoria da complexidade do pensador francês Edgar Morin:
“A complexidade é uma palavra problema e não uma palavra solução. O pensamento complexo é não o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo e, por vezes mesmo, a ultrapasssá-lo. A complexidade aparece certamente onde o pensamento simplificador falha, mas integra nela tudo o que põe em ordem, clareza, distinção, precisão no conhecimento. (MORIN, 2001:22).
Cada sociedade assimila as encenações do corpo e da doença de maneira peculiar, considerando os aspectos sócio-culturais da população atendida, monitorada por saberes biomédicos.
Se entendida como fenômeno social, a doença estabelece uma relação entre as ordens biológica e social, abrangendo o indivíduo corporalmente e socialmente, dessa maneira, o papel da antropologia da saúde, é tratar a doença, superando os limites biológicos do corpo e as explicações biomédicas do homem.
Cultura e doença.
Na sociedade moderna, o papel da cultura popular, seus significantes e significados, somatizam os elementos de crenças e costumes de vários grupos, acompanhados da mídia e de uma variedade de informações responsáveis por interpretações discursivas dos médicos dedicados à causa.
O signo de estar doente é entendido como a percepção de sensações e sintomas desagradáveis:
Identificados pelo médico ou pelo paciente, representam a doença como uma construção social, traduzida e culturalmente assumida pelos simpatizantes.
Doenças como a Aids, câncer, hanseníase (lepra), tuberculose, são encaradas diferentemente por homens e mulheres de um mesmo grupo, com ou sem diagnóstico biomédico.
Nessa linha, analiticamente, o gênero construiu-se por duas vias:
Para entender a sexualidade, a compreensão do processo histórico e seu desenvolvimento no Brasil, é condição, sine qua non, bem como, a ética, a ciência e a política, componentes responsáveis pela apropriação dos valores e significados dos modelos masculino e feminino de nossa ambiência.
Novamente, a antropologia da saúde interfere nas interpretações empíricas, factuais, prontas e acabadas da construção de sujeito e objeto, norteando os estudos por meio de reflexões, apresentando as incertezas inerentes ao homem, à sociedade e a espécie.
Religião e doença.
Para acompanhar a evolução de determinado distúrbio da saúde, seguindo rigorosamente o tratamento indicado por especialista ou não (principalmente os alcoólatras e portadores de Aids; distúrbios psicológicos e abandono de parentes), o paciente nutre-se também do apoio religioso.
Nesses casos, a antropologia da saúde analisa os relatos dos informantes, estruturando um perfil responsável pelas causalidades, considerando a vivência da pessoa, sua doença e os envolvidos.
O resultado da pesquisa mostra a reação do paciente e suas ações, edificando sua identidade individual e social.
As religiões condenam em sua maioria os doentes, reforçando a idéia de culpa, afirmando, ser a doença, um castigo das ordens superiores pela ausência de compromisso de fé do enfermo para com a crença.
A enfermidade mental é estudada por meio de narrativas, depoimentos, estudos de casos de famílias ou histórias de vida contadas por familiares ou terceiros. Os pesquisadores reconstituem as informações (verídicas ou delirantes) atribuindo no final do estudo uma avaliação e um cuidado adequado à doença.
Esse método pressupõe uma forma de conhecimento prático, diferenciado do saber médico, enfatiza a capacidade de expressão e reflexão do enfermo sobre sua doença, diagnosticando o problema nas fontes patológica e biológica.
No entanto, é preciso distinguir o conhecimento erudito do popular, haja vista, o surgimento das formas de comunicação, ressocializações, aprendizagem, ou melhor, da recusa às intervenções.
A antropologia da saúde coletiva/pública articula a linguagem simbólica da doença, buscando:
A antropologia da saúde institui e viabiliza práticas entre pensamentos e ações, teorias e experiências de vida dos doentes. Organiza os símbolos e as categorias das doenças, por meio de fontes produtoras de sentido, sejam, biológicas, políticas, sociais, econômicas e culturais.
Utilizando-se do bom senso entre os paradoxos:
A antropologia da saúde/doença, procura desvendar caminhos menos convergentes e construtivismos mais eficientes, num futuro próximo.
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