Por Gláucia B. R. Mello (*)
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O livro trata da prática milenar de tradição oral do conto ressurgido como um fenômeno sociocultural pós-moderno, no contexto ocidental, aplicado à realidade social francesa. O interesse da pesquisadora recai marcadamente sobre o papel social da pessoa do novo contador de histórias e de sua prática, saídos do Movimento de Maio de 68. Ela explora os conceitos de reconto e parole conteuse, utilizados pelos contadores franceses e que lhe parecem bem definir a modalidade das suas práticas. Reconto e parole conteuse são aqui estudados como formas de reapropriação da tradição oral por parte do contador urbano e contemporâneo, atento ao interesse do seu novo público, no contexto social e tecnológico em que vivemos.
Através de seu estudo, a autora mostra que a prática do contador esteve quase desaparecida e ressurgiu “pós-modernamente” a partir dos anos 1960, no conjunto das grandes transformações culturais e ideológicas ocidentais, quando se verificou maior e mais efetiva a demanda de participação social. O enfoque da autora nesta obra recai, conforme argumenta Gloria Pondé (na orelha do livro), sobre o surgimento dos contadores com outras maneiras de relacionarem-se com os ouvintes, visando uma maior interação entre as partes. Assim, a narração oral é enriquecida por recursos midiáticos e a performance do contador extrapola a passividade do contar tradicional, agregando e adaptando elementos corporais, psicológicos e estéticos. Com este novo desempenho, esta prática espalhou-se por todo o mundo ocidental e chegou ao Brasil por volta dos anos 1980. Os novos contadores reapropriam, recuperam, reciclam uma técnica e estas operações lhes conferem identidade. A autora privilegia a função do narrador e a sua performance.
O livro apresenta cinco partes, assim intituladas: “A renovação do conto oral na França”; “Em cena... o novo contador de histórias”; “Oralidade e arte de contar”; “A performance” e “Performance em ressonância”, mais a conclusão; bibliografia; índice onomástico dos autores citados e dos contadores entrevistados.
Na primeira parte do livro, a autora apresenta o panorama do surgimento do reconto no contexto francês e a perspectiva do papel social do novo contador de histórias e sua prática, na dinâmica social de “tomada da palavra popular”, no contexto do Movimento de Maio de 68. Ela mostra que a “tomada da palavra” contribuiu decisivamente para a reabilitação do conto oral, com uma nova feição. Os novos contadores tinham, em maio de 68, entre vinte e vinte e cinco anos de idade, atuavam dentro das bibliotecas e valiam-se de livros escritos e outros suportes, com o objetivo de dessacralizar o templo do livro. Do seu trabalho empírico, a autora extrai os seus argumentos. Trata-se de espetáculos assistidos por ela e entrevistas realizadas com contadores e contadoras profissionais e amadores franceses, com idade entre 35 e 55 anos, alguns deles tendo participado, na adolescência ou na juventude, dos acontecimentos de Maio de 68. O resultado destas entrevistas demonstrou como o ressurgimento da prática de contar e a reaparição da oralidade foram decisivos para uma renovação do conto, o reconto, que permanece, no entanto, como um movimento minoritário e marginal.
Na segunda parte do livro, a reflexão recai sobre a pessoa do contador. Aqui, a autora explicita a longa pesquisa que realizou sobre os contadores e sua prática, destacando a inexistência de formação, de espaço de reflexão, de identidade e da definição do papel social do contador. Ela aborda também aspectos psicológicos dos contadores, como a solidão e a busca de soluções pessoais através dessa prática – um lado libertador, sentimento de plenitude, de preenchimento de uma ausência, partilha de emoções e experiências inesquecíveis. Ela destaca que o fator econômico concorre positivamente para o desenvolvimento desta prática no contexto urbano, já que, diferentemente do teatro e de outros espetáculos, ela prescinde de palco, iluminação, sonorização, um grupo de atores, etc. Os profissionais ou amadores do reconto ressentem-se, no entanto, do reconhecimento da sua profissão. A inexistência de uma formação institucional profissionalizante lhes outorga, no entanto, a liberdade e o desejo de construírem, à sua maneira, a sua própria identidade, através de sua prática criativa e particularizada.
A terceira parte do livro destaca a oralidade e a arte de contar. Aqui, ela releva os valores da tradição e da memória coletiva, a importância da experiência vivida e formas de transmissão, utilizadas na ritualização desta prática. A autora recorre a suportes conceituais que distinguem: contar/narrar, ler/escutar, dizer. Ela destaca um debate interessante sobre a oralidade, considerada por vezes lei do menor esforço, ao mesmo tempo em que se constitui como expressão e forma de transmissão legítimas do conhecimento em variados meios sócio-culturais. Ela explicita sumariamente algumas etapas da evolução do conto e as formas de apropriação dos contadores, ressaltando que o contador contemporâneo busca conscientemente através de sua prática distanciar-se da tradição e agregar elementos do seu tempo, marcando assim a sua identidade de contador, ao mesmo tempo em que assim determina o surgimento de um novo público e de novas práticas culturais.
A terceira parte do livro destaca a oralidade e a arte de contar. Aqui, ela releva os valores da tradição e da memória coletiva, a importância da experiência vivida e formas de transmissão, utilizadas na ritualização desta prática. A autora recorre a suportes conceituais que distinguem: contar/narrar, ler/escutar, dizer. Ela destaca um debate interessante sobre a oralidade, considerada por vezes lei do menor esforço, ao mesmo tempo em que se constitui como expressão e forma de transmissão legítimas do conhecimento em variados meios sócio-culturais. Ela explicita sumariamente algumas etapas da evolução do conto e as formas de apropriação dos contadores, ressaltando que o contador contemporâneo busca conscientemente através de sua prática distanciar-se da tradição e agregar elementos do seu tempo, marcando assim a sua identidade de contador, ao mesmo tempo em que assim determina o surgimento de um novo público e de novas práticas culturais.
A quarta parte do livro trata da performance do contador - expressões do seu corpo físico, visando uma maior interação: a participação do público. A parole conteuse é a palavra portadora de um sentido essencial, elemento da prática do contar e envolve vários elementos performáticos e estéticos do contador: gênero (o contador /a contadora); escolha do repertório (contos tradicionais /experiência de vida); teatralidade (mais ou menos aproximação); utilização de recursos técnicos (imagens, animação, etc.); a entonação da voz; autonomia e legitimidade artística (estatuto artístico).
Na quinta e última parte do seu livro, Patrini apresenta as suas análises não-conclusivas das sessões/espetáculos de contos aos quais ela assistiu e expõe sucintamente os seus métodos de análise. A autora esclarece que entrevistou vinte e oito contadores, assistiu a oitenta espetáculos e escolheu a análise de cinco deles para esta obra. Para tal, ela diz que apoiou-se no método de análise da “entrevista compreensiva”; para a seleção dos cinco espetáculos, levou em conta a performance do contador (variedade, singularidade e originalidade do material recolhido e interpretado) e considerou as cinco operações da performance: produção, transmissão, recepção, conservação e repetição. Por fim, Patrini comenta sucintamente para cada um dos cinco casos alguns elementos de análise, assim: a cumplicidade dos ouvintes, a articulação do imaginário em mensagem, a natureza arquetipal e elementos secundários do repertório, danças e gestos como palavras, imagens e representações.
Na quinta e última parte do seu livro, Patrini apresenta as suas análises não-conclusivas das sessões/espetáculos de contos aos quais ela assistiu e expõe sucintamente os seus métodos de análise. A autora esclarece que entrevistou vinte e oito contadores, assistiu a oitenta espetáculos e escolheu a análise de cinco deles para esta obra. Para tal, ela diz que apoiou-se no método de análise da “entrevista compreensiva”; para a seleção dos cinco espetáculos, levou em conta a performance do contador (variedade, singularidade e originalidade do material recolhido e interpretado) e considerou as cinco operações da performance: produção, transmissão, recepção, conservação e repetição. Por fim, Patrini comenta sucintamente para cada um dos cinco casos alguns elementos de análise, assim: a cumplicidade dos ouvintes, a articulação do imaginário em mensagem, a natureza arquetipal e elementos secundários do repertório, danças e gestos como palavras, imagens e representações.
A autora conclui em aberto, se assim for possível dizer. Antes que uma comprovação, ela finalmente evoca o percurso da construção do texto do seu livro – o testemunho de diversos imaginários sócio-culturais por via dos percursos pessoais e profissionais, repertório e formas de contar, o papel social dos contadores e sua prática. O fenômeno de renovação do conto oral representa aqui uma alternativa para a arte de contar, apresentando-se como um novo modo de transmissão oral, diverso, heterogêneo, espetacular. O estudo deste fenômeno permitiu à pesquisadora afirmar que “apesar da sofisticação da tecnologia e da mídia, o homem tem necessidade de um retorno à oralidade tradicional e do convívio e proximidade que ela pode proporcionar às pessoas”. O seu estudo é de um fenômeno essencialmente urbano, cujas sessões, conforme ela verificou, continuam a ser assistidas por bibliotecários, atores, artistas em geral, professores e outros profissionais, além de eventuais interessados. A autora lembra que o novo contador e sua prática existem em paralelo com o contador tradicional, praticante e transmissor do seu saber, pelo menos em certas regiões do Brasil. Não pense o leitor que vai encontrar ali um repertório de tradições orais ou a preocupação do “recontador” em escolher elementos do folclore ou da cultura das crenças, conforme o título do livro pode sugerir. O livro não explora o que eles contam, mas, como contam. Valorizando elementos performáticos e contextuais do ator “recontador”, o livro agregará certamente o interesse de estudiosos das artes cênicas, fonológicas, semióticas e dos eventos socioculturais.
(*) Gláucia B. R. de Mello é pesquisadora doutora, antropóloga e socióloga, colabora para esta CVA como responsável pela seção de entrevistas.
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