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Para enfrentar este duplo desafio, a autora, professora do departamento de Ciências Sociais da PUC/MG, em primeiro lugar optou por elaborar sua pesquisa a partir de trabalho de campo em duas escolas públicas, uma, mais freqüentada por alunos de camadas médias, e outra, composta majoritariamente por estudantes das camadas populares. No entanto, ao contrário de outras pesquisas que tentam rastrear o preconceito e o racismo na infância, não se tratou aqui de estudar o material apresentado em livros didáticos e seu impacto no universo infantil, nem a interação entre estudantes e professores e outras agentes educativos. O espaço escolar, afirma Rita de Cássia logo no início de seu trabalho, serviu antes como lócus de observação do cotidiano infantil, das relações que se estabelecem entre as crianças, e de como o preconceito racial permeia e se apresenta nestas relações.
A idéia, então, foi colocar a criança no centro da análise, como sujeito ativo de interpretações e adaptações do fluxo discursivo, cultural, brasileiro acerca do racismo e da discriminação. Neste sentido, a autora empreende um esforço em entender as categorias usadas por estes entrevistados mirins nos seus próprios termos, e não a partir de deduções apriorísticas advindas do repertório adulto.
Fácil falar, mais difícil fazer. Porém Rita de Cássia é bem sucedida na tarefa, auxiliada em boa medida pela metodologia escolhida; assim, além de entrevistas em profundidade, a socióloga busca respostas das crianças através da imersão no universo lúdico: por via da utilização de jogos indutores do tema, como a apresentação de bonecos e fotos de pessoas de cores diferentes, com a sugestão de que os entrevistados construíssem histórias com eles, ou, outras vezes, indicassem profissões possíveis a cada um dos bonecos; da reprodução de situações do cotidiano a partir das quais as crianças se colocassem; e também de observação participante no dia-a-dia da escola, especialmente no recreio e em horários extra-aula. Conversas com grupos também foram bastante importantes para a construção da pesquisa, sendo marginalmente também realizadas entrevistas com professoras ou funcionários das escolas.
Cada categoria surgida nas conversas ou nas brincadeiras infantis era preenchida de significado a partir da elaboração das crianças sobre o assunto; neste sentido, a autora buscou a interpretação “nativa” dos fatos, histórias e termos verbais, numa linha muito próxima do comportamento de um antropólogo no campo – em que pese a intervenção da pesquisadora, neste caso, ser bem mais incisiva que a tradicionalmente associada ao etnógrafo.
Aliás, cabe dizer aqui que esta aproximação teórica e metodológica entre os campos da Sociologia e da Antropologia tem uma história intensa e extensa, em se tratando do estudo das relações raciais. Desde os trabalhos de Oracy Nogueira e Florestan Fernandes, nos anos 50, só para citar alguns exemplos, o esforço em compreender o objeto para além das fronteiras disciplinares tem rendido belos resultados. Mesmo mais recentemente, em que se observa maior delimitação de campos de atuação e de perspectivas teóricas entre Sociologia e Antropologia, é possível dizer que ambas têm mantido um diálogo profícuo através de pesquisas em que dados quantitativos sobre as desigualdades entre brancos, pretos e pardos são complementados com estudos de caso específicos, que auxiliam no entendimento das práticas e das representações sobre tais identidades de cor e as relações entre elas. Nesta direção, Rita de Cássia Fazzi está bastante bem acompanhada.
Mas resta ainda um outro desafio enfrentado pela autora, e que parece se expressar inclusive na diferença entre o título, mais carregado de conteúdo emocional, e o subtítulo, mais descritivo; ou seja, é preciso ir além do discurso militante e estabelecer condições propícias para a elaboração de um discurso acadêmico-científico – afinal, trata-se de uma tese. Neste ponto, a autora buscou apoio na literatura sócio-antropológica referente à área de relações raciais, focalizando sobremaneira os estudos feitos com crianças tanto internacional quanto nacionalmente. Os primeiros se baseiam fortemente em exemplos norte-americanos, enquanto que o que chama a atenção no caso das pesquisas brasileiras é sua pouca quantidade e o foco institucional – em outras palavras, as análises sobre o papel da escola, dos professores e do conteúdo didático e seu impacto sobre as crianças.
Neste ponto também Fazzi não foge de uma tradição já comum nesta área de estudos: a tendência a privilegiar a comparação, ou ao menos a estabelecer uma referência, com os Estados Unidos. Gilberto Freyre já indicava em Casa Grande e Senzala esta que seria uma marca registrada das produções teóricas, tanto aqui quanto lá; entretanto, ao longo do tempo, esta perspectiva comparativa foi sofrendo críticas, com a tentativa de incorporar outras tradições, como foi o caso de Alberto Guerreiro Ramos e sua instigante proposta de ouvir intelectuais e militantes africanos e caribenhos francófonos.
Esta ampliação do leque referencial nos anos 80 ganha o reforço teórico de um sociólogo inglês, Paul Gilroy, que sugere pensar as relações raciais em cada Estado-nação moderno também sob o enfoque dos diversos fluxos de idéias, movimentos e práticas entre os territórios que compõem a diáspora africana, e que, segundo ele, constituiriam a unidade “Atlântico negro”. Trata-se, então, de uma aproximação entre outros autores e atores, em busca de alternativas ao que já foi chamado de “imperialismo acadêmico” por Bourdieu e Wacquant (1998), em artigo provocador. Nele, estes autores apontam justamente a área de relações raciais como evidência da interação desigual entre estudiosos brasileiros e norte-americanos.
Assim, nos últimos anos, tem-se intensificado o intercâmbio com outras referências nacionais, como a África do Sul (cf. Rosa Ribeiro, 1995); ou a África lusófona (Fry, 2001; e Thomaz, 2002); além disso, tem crescido também o interesse por um maior conhecimento das formações identitárias negras em outras realidades latino-americanas, como a dos países do Cone Sul (cf. Frigerio, 2000) ou na Colômbia (por exemplo, o trabalho de Viveros Vigoya, 2003 sobre masculinidades negras em camadas populares).
Mas se na atenção enfática ao material acadêmico produzido nos Estados Unidos a autora não se destaca do viés tradicional dentro do estudo das relações raciais, o diferencial de sua pesquisa, ou seja, seu empenho em ouvir as crianças brasileiras, rende conclusões interessantes. A primeira delas diz respeito à existência, já desde tenra idade – os menores estudantes entrevistados têm sete anos -, de um pensamento pautado pela noção de “raça”, como princípio classificador humano. Esta noção, embora ainda não cristalizada, já motiva atitudes e comportamentos discriminatórios, e demonstra também já ter por base a associação entre “tipo racial” e atributos morais. Acionada a partir da diferenciação por cor, a “raça” se constitui enquanto hierarquia que dispõe em escala grupos mais e menos valorizados socialmente. É neste sentido que se pode entender, por exemplo, as respostas infantis às demandas da autora para associarem comportamentos negativos e positivos a bonecos “brancos” e “negros”: a conexão entre boneco branco e valores positivos foi maciçamente efetivada nos grupos entrevistados, tanto o de camadas médias quanto o das camadas populares. Quanto às práticas discriminatórias citadas ou efetuadas pelas crianças em relação ao grupo não-branco, a autora lista: “xingamentos ‘por causa da cor’; não gostar da cor dos ‘negros/pretos’; fazer os pretos de escravos; não aceitar os pretos e não considerar o preto como gente” (p. 187). Neste sentido, não apenas as crianças atuam dentro do âmbito de um pensamento racial, mas têm consciência dele, ou seja, quando perguntadas, demonstram saber que o grupo “negro” se encontra inferiorizado socialmente.
É neste ponto que se revela a relevância desta pesquisa para o campo dos estudos raciais brasileiros, pois, além da existência de racismo e preconceito, a autora também aponta para a especificidade da discriminação entre crianças, em primeiro lugar, e do contexto social de sua produção. Isto significa dizer, como Rita de Cássia o faz, que este pensamento racializado entre as crianças, embora consistente e denso, é também permeado de contradições e incongruências – como, aliás, acontece em outros âmbitos também, em se tratando de crianças desta idade. Nesta direção, é um pensamento passível de ser modificado com relativa facilidade, demonstrando uma certa fluidez em seus desdobramentos práticos, ou seja, apresentando-se de forma ainda assistemática, e dependendo de outras variáveis individuais para se expressar mais incisivamente.
Outro achado de pesquisa foi que este pensamento convive e dialoga com outro, antiracista, que considera recrimináveis atos e comportamentos discriminatórios em relação aos “negros/pretos”. Os argumentos aqui utilizados pelas crianças dizem respeito tanto a máximas religiosas, particularmente católicas – “os pretos também são filhos de Deus”, “Deus é que criou as cores diferentes, então está certo”, etc. – como também através do “conceito mais geral de humanidade” – “por dentro gente é tudo igual”. Estes argumentos “relativizadores do preconceito”, como os chama a autora, têm força suficiente para frearem manifestações racistas mais agressivas, assim como para criarem uma espécie de etiqueta inter-racial que supõe o racismo e a diferenciação hierárquica como temas tabu.
A pesquisadora aponta ainda que o discurso relativizador (como o chamou) é mais acionado pelas crianças de camadas médias – o que a leva a concluir que as crianças de camadas populares “estão menos aparelhadas para enfrentar o preconceito racial, apesar de terem que lidar com situações raciais estigmatizantes cotidianamente” (p. 214).
Entretanto, esta espécie de “freio relativizador” tem seus limites, tanto no sentido de que, ao impor silêncio sobre estes assuntos, impede aprofundamento da interação e mesmo auxílio aos que se sentem veladamente agredidos; como pela potência maior demonstrada pelo discurso do racismo. Como afirma a autora, em suma, “o discurso relativizador e o preconceito racial são componentes do processo de socialização das crianças, e ambos estão em processo de cristalização e de estabilização durante a infância. O discurso relativizador não tem, no entanto, força suficiente para impedir que o comportamento preconceituoso se desenvolva. Sua eficácia é reduzida diante não só da pressão das representações preconceituosas existentes na sociedade brasileira mais ampla, mas também da ausência de uma discussão sistematizada e aberta da questão racial com as crianças” (p. 213-214).
As conclusões da autora, no entanto, vão além da apresentação dos achados de pesquisa, para concentrarem carga ainda em proposições lançadas a agentes educadores, ao poder público e aos leitores em geral. Neste sentido, Rita de Cássia traz também uma bela contribuição para o debate que se desenvolve desde anos recentes no campo dos estudos raciais, e que diz respeito à necessidade – para muitos, urgência – de elaboração e efetivação de políticas focalizadas para os afrodescendentes, dada a desvantagem social a que estão relegados em várias esferas da vida social brasileira. Como primeiro passo, a pesquisadora frisa a importância de se abrir o debate sobre o tema racial com as crianças dentro e fora das escolas, com o objetivo de reforçar, de certa forma, o que culturalmente elas já revelam desde cedo: o discurso igualitário.
Este tipo de discurso, de resto, já havia sido identificado desde os anos 50 na literatura pertinente ao tema – veja-se por exemplo todo o trabalho de Oracy Nogueira, como, inclusive, lembra Rita de Cássia. O que a autora faz é retornar a ela não para afirmá-lo enquanto farsa, ou enquanto discurso vazio, mas como instrumento potencial de mudança. Assim, a pesquisadora insiste na premência de que se organizem ações dentro das escolas, com o intuito de modificar as narrativas sociais que desvalorizam “negros/pretos”. Estas ações devem começar cedo – a partir dos três anos de idade -, e devem também, ao mesmo tempo, incidir sobre a problematização da própria noção de raça. Isto porque, segundo Fazzi, enveredar pelo caminho da afirmação étnico-racial, contrapondo-o ao racismo, “pode ter como efeito o acirramento do preconceito e não a sua superação, como a experiência norte-americana parece mostrar.” (p. 217). Apenas através do enfraquecimento de sua força simbólica e do esmaecimento de seu significado, portanto, pode-se pensar na superação da desigualdade entre pessoas de cor diferente na sociedade brasileira – eis a idéia motriz de Rita de Cássia Fazzi.
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