O Pensamento selvagem (La pensée sauvage) é um livro do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908 — 2009) publicado em 1962 pela editora Plon em Paris. Esse antropólogo, criador do método estrutural, estudou os povos ditos primitivos, contestando o racismo e a noção de primitivo, e comparou etnografias realizadas em todos os continentes. [Nota 1] Talvez a sua principal contribuição seja sua demonstrável constatação de que os chamados selvagens não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens nem primitivos, apenas operam com o pensamento mítico (magia) que em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico. [1] diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e integral para o primeiro e em níveis distintos, não aplicáveis uns aos outros no pensamento científico (Levi-Strauss o.c. p.31-32)
O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss não são simples lendas fabulosas, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição do mito, organiza três características principais: função explicativa, o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo; função organizativa, o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de identidade, de poder, etc.) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões; e, por fim, uma função compensatória, o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da natureza e da vida comunitária. [2]
O reverso do totemismo, o homem naturalizado. Ilustração de Charles Le Brun utilizada no livro
Segundo Viveiros de Castro, antes de limitar-se à uma interpretação de mitos Levi-Strauss, em alguns de seus livros, analisa as disposições universais do pensamento humano: ameríndio, europeu, asiático ou qualquer outro. Em suas palavras: O “pensamento selvagem” não é o pensamento dos “selvagens” ou dos “primitivos” (em oposição ao “pensamento ocidental”), mas o pensamento em estado selvagem, isto é, o pensamento humano em seu livre exercício, um exercício ainda não-domesticado em vista da obtenção de um rendimento. O pensamento selvagem não se opõe ao pensamento científico como duas formas ou duas lógicas mutuamente exclusivas. Sua relação é, antes, uma relação entre gênero (o pensamento selvagem) e espécie (o pensamento científico). Ambas as formas de pensamento se utilizam dos mesmos recursos cognitivos; o que as distingue é, diz Lévi-Strauss, o nível do real ao qual eles se aplicam: o nível das propriedades sensíveis (caso do pensamento selvagem), e o nível das propriedades abstratas (caso do pensamento científico).
O livro subdividido em 9 capítulos com um apêndice sobre a planta, Pansy (Pensée des champs / Viola tricolor, amor perfeito entre nós) homônima ao nome do livro em francês, Pensée sauvage, esse livro instaura uma nova perspectiva de análise dos mitos e sistemas de classificações de objetos, plantas, animais dos povos considerados primitivos. É um livro que se contrapõe segundo seu autor às clássicas definições do totemismo em etnologia. Tem com referencial o seu livro anterior “O totemismo hoje” (Le totémisme aujourd’hui. PU, Paris, 1962), as contribuições de Maurice Merleau-Ponty, a quem o livro é dedicado em memória e Jean Paul Sartre sem buscar uma oposição entre ambos conforme revela no seu prefácio da obra.
O professor brasileiro Eduardo Viveiros de Castro acredita que ao elaborar o conceito básico de" pensamento selvagem " Lévi-Strauss mostrou que a ciência, filosofia, arte, religião, mitologia, magia etc. constituem na realidade em um único eixo, que é, o conhecimento humano [4]
Assim subdivide-se o livro:
1 – A ciência do concreto
2 – A lógica das classificações totêmicas
3 – Os sistemas de transformações
4 – Totem e casta
5 – Categorias, elementos, espécies, números
6 – Universalização e particularização
7 – O indivíduo como espécie
8 – O tempo redescoberto
9 – História e dialética
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