domingo, 11 de novembro de 2012

Vídeo: Zé Manoel


Música: Zé manoel


ZÉ MANOEL

Jovem, simples e requintado.

Um petrolinense de 28 anos quer te provocar!

Zé Manoel é compositor, músico, pianista e apesar de jovem já coleciona elogios da crítica independente e dos amantes da genuína musica brasileira.

Com harmonia e arranjos requintados, Zé, já participou dos mais importantes festivais de música brasileira.

Seu trabalho é mais um daqueles que dispensam elogios e rótulos…

O que predomina é a simplicidade e a essência musical que nos toma aos ouvidos, acalmando a alma num inexplicado equilíbrio sensorial.

Simples e tocante.

 

Lima: Cinco coisas

Jairo Lima

  MEU PRIMEIRO ASSASSINO.

 Conheci meu primeiro assassino aí pelos nove, dez anos, isto é, antes eu já o conhecia, mas ele ainda não era assassino, e por conhecer não quero dizer que tínhamos alguma intimidade, ou que sequer nos falássemos, mas como deixar de conhecer alguém em Arcoverde, cidade pequena, magra e comprida afundada entre serras cinzentas, como não conhecer, dizia, nem que fosse só de vista até porque eu, menino sambudo, nem sonhasse de  ser amigo de um cabra com mais de trinta anos, sério, gordo, amarelado, que trabalhava na loja de disco do pai, se ocupando do mais sublime dos afazeres, de vender rumbas, boleros e fox-trotes e sambas na mais pacata das cidades, mais admiraria até, se alguém pudesse ver naquelas mãos que botavam os discos pra girar no prato, ou naquela voz suave e abaritonada que dizia a senhora quer levar ou o senhor já ouviu este, chegou ontem, quem diria que esta mão e esta voz se levantaria contra uma moça pacata, enfermeira, morena, baixinha, crente, médium vidente, sossegada, que vivia do seu suor?

Mas, coisa do destino, a moça recatada apaixonou-se pelo aveludado barítono e com ele foi-se aos matos.

Passou-se. Um dia formou-se uma pequena multidão num terreno baldio ao lado da minha casa. Saímos a ver em que dava aquela milacria e nos juntamos ao grupo que espiava o relento.

E aí, do meio do escuro,  do vento, da poeira, lá vem dois soldados trazendo meu assassino, a cara gorda avermelhada, as mãos manchadas de sangue, os olhos esbugalhados, o cabelo assanhado, passando por mim sem me ver, sem ver ninguém. Esta noite custei a dormir, com medo de alma. Ficava parado, olhando os caibros no teto, escutando o vento. Até que madornei, sonhei com uma lua redonda, ensanguentada, senti frio embaixo dos cobertores e me mijei.  Acordei no escuro, triste e molhado.

DEUS E DONA LIQUINHA

 A história com dona Liquinha se passa no circo, numa noite, e na missa, na manhã seguinte.  Dona Liquinha, ora, era uma santa, católica e apostólica beata, gordota, cara de lua cheia, olhos bovinos, bondosos, mortiços, um tanto assustados e estava no circo, onde também estava eu, ela na frente, no camarote com o marido, eu lá atrás, no poleiro, quase de frente pra ela e aí, depois do palhaço e da rumbeira,  veio o mágico.  E disse a que veio. Com gestos largos, volteando com graça quase feminina as mãos ossudas, puxou um coelho da cartola puída e descorada.

Olhei pro mágico, olhei pro coelho, olhei pra Liquinha.  E vi em seus olhos o transe,  o êxtase, turíbulos, incenso,  rosa mística, speculum justitia, causa nostrae laetitiae, ora pro nobis. Amem.

No dia seguinte, na missa, o padre transforma o pão e o vinho no corpo e sangue de Cristo. Liquinha nada. Lá, parada, na dela, balbuciando de qualquer jeito uma reza insossa, mãos postas com desmazelo, olhos entediados. Eu, do lado de fora da igreja, no vão da porta que dava para o altar, comparava : quedê olhos brilhantes e esbugalhados, quedê o sorriso doce, beatificado, quedê os langores do céu? O coelho do mágico se entronizara no coração de Liquinha, correndo com o cristo do padre.  Liquinha matara deus. Era meu segundo assassinato.

 

INTERMEZZO

 Depois que Liquinha matou deus tudo no mundo perdeu a alma. Mas eu peguei meus amigos e soprei neles uma alma inventada.  Vá lá que não eram almas de mermo. Vá lá que não assombram, nem viram almas penadas. Foi o que pude fazer. Não é nem presente, é só uma lembrancinha. Mas, em caso de morte, sempre dá pra ser usada.

 
INVARIAVELMENTE

 Em Arcoverde os meninos estudavam no colégio do padre, o Ginásio Cardeal Arcoverde. As meninas frequentavam o colégio das freiras, o Imaculada Conceição.

No domingo, nos juntávamos para a missa dos estudantes.

A gente, de terno azul marinho de tropical, suávamos sob o sol formando em fila na frente da igreja, vigiados pelo padre. As meninas, em pelotão  também formadas, exibiam seus trajes de gala sob a vigilância feroz das freiras.

Entrávamos na igreja. A gente ocupava os bancos da direita e as meninas os da esquerda, no mais absoluto silêncio. A missa começava.

La pras tantas, as meninas salmodiavam:

Cristo vence, Cristo reina,

Cristo impera sublime aclamação...

Nisso, os moleques lá de trás entoavam, em contraponto, o refrão:

Acla-ma-ção!

O padre espumava de raiva. No sermão, invariavelmente, nos chamava de canalhas. Exigia respeito, falava do cristo, da cruz, do sofrimento, da pureza de uma vida santa e regrada.

Depois, se embeiçou de  uma menina do colégio das freiras e se casou.

 
ORDÁLIA*

 Meu último assassino era um  professional respeitado, com muitas mortes nas costas, amigo da rua, compadre de minha prima Ivone, alí em pé, na salinha, mostrando cicatrizes de bala pelo corpo e se gabando de estar vivo por intercessão dos santos e poder de deus.

E os que tu matou?

Admirou-se.  Cumade, quem sou eu pra decidir causa de vida ou morte de um vivente?  Falar verdade,  só apertei o gatilho.  Quem matou foi deus.

 *Ordália é um tipo de prova judiciária usado para determinar a culpa ou a inocência do acusado cujo resultado é interpretado como um juízo divino. Também é conhecido como juízo de Deus (judicium Dei, em latim).As práticas mais comuns da ordália são as que envolvem submeter o acusado a uma prova dolorosa. Se a prova é concluída sem ferimentos ou se as feridas são rapidamente curadas, o acusado é considerado inocente. Na Europa medieval, este tipo de procedimento fundava-se na premissa de que Deus protegeria o inocente, por meio de um milagre que o livraria do mal causado pela prova.

sábado, 10 de novembro de 2012


Roliúde em formato digital

por Homero Fonseca

 Pra quem se interessar, o romance "Roliúde" está disponível em formato digital, ao preço de R$ 27,00.
Eis os dados da editora:

Roliúde
Homero Fonseca | Editora Record

Edição digital
R$ 27,00

Você pode ler no seu Windows PC iPad Tablets Android

Formatos

ePub: Trata-se de um padrão internacional para livros digitais. Permite que a leitura seja uma experiência agradável em qualquer tamanho de tela, pois permite aumentar ou reduzir o tamanho da fonte utilizada, bem como o tamanho da página, entre outras funcionalidades, adequando o livro às necessidades do usuário.
OFIP: Inovadores, estes formatos de publicação permitem não somente uma leitura mais agradável, como também trazem ferramentas interativas como vídeos, álbuns de fotos, hypertextos, hyperlinks e visualização conforme a preferência do leitor (retrato ou paisagem, disponíveis somente em iPad).
PDF: O PDF (Portable Document Format) é um formato portátil para documentos, muito usado na internet devido à sua versatilidade, facilidade de uso e tamanho. Um documento PDF tem a mesma aparência, gráficos e formato que um documento impresso.

ficha técnica
Edição digital
Editora Record
ISBN-13 9788501095336
Número de páginas: 240
Formato ePub
Descrição

O romance ROLIÚDE, de Homero Fonseca, é um achado literário. O livro trata da vida de Bibiu, um histriônico contador de histórias, uma espécie de Ulisses nordestino, com um pé na caatinga e outro nas salas de cinema da capital, que vive de narrar enredos de filmes brasileiros e hollywoodianos, no interior do Nordeste, na década de 40. Enredos de filmes como Casablanca, ...E o Vento Levou, O Ébrio, No Tempo das Diligências e King Kong, devidamente "traduzidos" para o linguajar dos caminhantes das veredas sertanejas, interpenetram a narrativa das peripécias do personagem central, que vão da rumorosa caçada a extraterrestres na Serra do Mimoso ao involuntário heroísmo na Revolução de 30, passando pela peleja com um corintiano comunista até um atentado praticado por um jagunço a serviço de um coronel corneado. A história de Bibiu, clown formado na escola da vida, mistura tons picarescos, cordelísticos e cinematográficos, produzindo algumas das páginas mais engraçadas (sem perder o tom de crítica mordaz aos poderosos) da literatura brasileira.

Para acessar:

https://www.iba.com.br/livro-digital-ebook/Roli%C3%BAde-6d6f69af678d922c787380939562fd6f?fb_action_ids=367776396648958&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

 

 

 

 

Serejo: Camilo Barreto

Por: Vicente Serejo

 Quando ninguém na Prefeitura cuidava da arborização e ajardinamento de Natal Camilo Barreto, com um pequeno orçamento de secretário de serviços urbanos, já projetava praças e plantava árvores na cidade. Fui repórter cobrindo a área urbana e freqüentava sua secretaria em busca de notícias, ali na Av. Rio Branco. Preocupava-se com o pequeno horto municipal que reproduzia mudas de árvores e plantas ornamentais para os canteiros e jardineiras que ele mesmo desenhava, até nos detalhes, na sua mesa.

 Lembro que antes de construir sua casa de veraneio numa pequena enseada de Pirangi, entre dois pontais de pedras que reservavam de forma natural uma perfeita praia particular, teve a preocupação de preservar a vegetação nativa. Fez a estrada de acesso, dentro do seu terreno, cumprir o traçado natural e respeitar o relevo entre os pequenos morros, até alcançar o platô que dava para o mar, onde construiria a casa. E fez nascer a vivenda, entre árvores, no alto, com um nome bem cascudiano: Quinta das Dunas.

 Tinha raízes sertanejas e por isso tinha visão cósmica da terra e das árvores, do sol e dos ventos, defendendo as casas voltadas para o nascente, como na velha tradição do sertão onde foi menino. Sabia dizer o nome das árvores, das plantas, comuns ou raras, e das madeiras, e gostava de explicar traçando tudo com sua lapiseira de engenheiro, o grafite desenhando formas e detalhes. Muitas vezes, vi desenhar uma praça, em rabiscos rápidos, para mostrar como seria o jardim anunciado para esse ou aquele bairro.

 Quando projetou os anexos do Instituto Ludovicus – todos indispensáveis à funcionalidade de um espaço cultural – nas áreas externas do chalé de Câmara Cascudo, teve senso e bom gosto de manter a harmonia arquitetônica nos detalhes caracterizadores de sua beleza, sobretudo sem ferir o pitoresco do seu jeito de ser. Lembro que elogiei na coluna. Como se ali, numa daquelas sacadas debruçadas sobre a cidade antiga, a qualquer momento Cascudo surgisse fumando seu charuto para olhar seu rio antigo.

A própria restauração do chalé é um exemplo de padrão técnico. Desde seus móveis originais recuperados nas suas formas e vernizes naturais e perfeitos, portas, bandeirolas, soleiras e janelas que se abrem para os oitões e os fundos. As treliças do terraço que margeava a área de serviço, até a antiga banheira com os seus azulejos e sua velha torneira, estão preservadas. Tudo que de moderno foi preciso fazer – como a cantina, o auditório, os arquivos – mas sem nada quebrar a harmonia de um lugar único.

 Semana passada, depois de uma longa e silenciosa enfermidade, Camilo deixou a cidade. Acho até que voltou para a sua casa que construiu com uma técnica milenar de alvenaria, sem concreto, num exemplo perfeito de sensibilidade e engenhosidade. Atendeu a Ana Maria, mas confessava, discreto e bem humorado, que não gostava de apartamento. Mas foi, e levou seus santos. Natal perdeu aquele que um dia, na Prefeitura, exerceu o bom ofício de plantar árvores nas ruas e jardins nas suas praças.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Vídeo: Luis da Câmara cascudo


Lima: O velho sábio chinês

Por Jairo Lima

Certo dia, quase à hora de abrirem-se as portas do shopping, apresentou-se ao segurança um velho sábio chinês que lhe falou deste modo:
- Diz-me, jovem ocidental, porque te pões a guardar uma porta fechada?(1) Se ela não franqueia o acesso a quem quer sair ou entrar, porque te interpões entre ela e os que, como eu, se avizinham do shopping?

- Esta é uma questão, grande Mestre, sobre a qual não me é dado comentar, pois tenho por obrigação indeclinável obedecer aos meus superiores.
A estas palavras o velho sábio se inclinou profundamente diante do segurança, juntou as mãos sob a barbicha que lhe adornava o queixo e rezou antigas orações.
Neste momento se ouviu enorme estrondo de mãos batendo na porta metálica entre gritos desesperados de socorro.

-Abram, sou um intelectual(2), passei a noite trancado no shopping e estou morrendo de fome.
O segurança mais que depressa levanta a ruidosa porta e um Intelectual-de-Shopping , exânime e ensangüentado, lança-se nos seus braços e desfalece.
Diante disto, o sábio chinês nem se toca, cofia a barba e sorrateiramente se esgueira para dentro do shopping vazio, sem que o segurança perceba. E lá dentro vive vinte profícuos anos de meditação e recolhimento (3).

Moral da história: Para o sábio mais vale um Intelectual-de-Shopping com fome do que dois na praça da alimentação.

Notas:

(1) Vejam só a onda do malandro.

(2) Notem que ele não acrescenta “de shopping” , prática, de resto, comum e compreensível entre os Intelectuais-de-Shopping, sempre em busca de respeito e admiração, embora para o Segurança, note-se também, isto não faz a menor diferença: intelectual é tudo a mesma merda.

(3) Como ninguém percebeu? O pessoal achava que ele era motoboy do China-in-box.

Corpus da pesquisa:

Cardápio do China-in-Box
Tourist Guide ” Descubra os encantos da China”
“Porta Aberta” de Vicente Celestino, gravação RCA Victor 78 rpm
Press release da Globo sobre a nova novela (sic) Caminhos da China.
Best-seller “Construa o seu mundo em qualquer parte do mundo” de Edmund O'Brien.

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Serejo: Cascudo e Hobsbawm

Por: Vicente Serejo

 Ninguém, com caminhadas mesmo ligeiras no grande e rico continente intelectual de Câmara Cascudo deixa de perceber a vastidão do grande leitor, o que tornou possível realizar uma obra além dos limites do apenas comum. Fez parte da geração brilhante e ousada que repetiu as entradas e bandeiras para fundar o século de suas próprias descobertas, fixando os traços definitivos da identidade cultural brasileira. Nova tomada de posse e domínio de um território que ainda pertencia ao olhar dos viajantes.

 Sua erudição o fez semeador em vários campos do saber, mas não o isentou de ausências teóricas que só se justificariam por desinteresse pontual e circunstancial e nunca por desconhecimento. Daí, o alto preço que pagou já na fase mais ideológica da vida intelectual acadêmica, quando a crítica universitária confinou num calabouço que chamaria de comentaristas impressionistas todas as visões sociológicas ou antropológicas dos que não explicavam os fatos sociais sob a ótica da luta de classes.

 Na verdade, se de um lado o olhar canhestro da academia tapou com a má vontade um ângulo que não poderia ter desconhecido – é tanto que hoje a obra cascudiana é das mais bem estudadas pela crítica universitária – de outro, inegavelmente, suas raízes aristocráticas fecundaram sua alma daquele forte sabor monarquista e conservador que o fez biógrafo do Conde D’Eu, e tão vaidoso do prefácio que mereceu do conde Afonso Celso, e também um biógrafo entusiasta da figura do Marquês de Olinda.

 Talvez por isso seu olhar, embora erudito, não tenha enxergado Manoel Bomfim quando bem no início do século, em 1906, espantou a aristocracia intelectual brasileira com seu livro sobre a ‘América Latina, males de origem’ que décadas depois, no seu exílio, tanto deixaria impressionado Darcy Ribeiro a ponto de escrever o prefácio consagrador da segunda edição. Manoel Bomfim, o rebelde esquecido que viveu seus últimos anos num sanatório, como o identificou seu biógrafo Ronaldo Conde Aguiar.

 A visão conservadora vai se revelar, também, pelas raízes de um pai coronel da Guarda Nacional e caçador de cangaceiro. Um vezo aristocrático de intolerância fica claramente exposto no verbete que escreve sobre Lampião no seu grandioso e até hoje insuperável Dicionário do Folclore Brasileiro. Sua adjetivação copiosa – frio, violento, cruel, sanguinário, incendiário e estuprador, para citar alguns – acabaria afastando o seu olhar da questão do banditismo social que o cangaço também protagonizaria.

 Deve ter sido o vezo, mesmo autêntico e nascido de suas origens aristocráticas, o que não o fez merecedor de um elogio do historiador marxista Eric Hobsbawm em ‘Rebeldes Sociais’, apontado como um dos maiores estudos sobre as ‘formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX’, e que no Brasil teve duas traduções lançadas pela Zahar, e também no seu ensaio ‘Bandidos’ que olha como símbolos nascidos de uma matriz – Robin Hood – o bom ladrão que tirava dos ricos para dar aos pobres.

 Além de Euclides da Cunha que para o grande Eric Hobsbawm soube compreender a luta social, vale à pena lembrar a homenagem que faz no prefácio para a edição brasileira de ‘Rebeldes Primitivos’, ao citar a obra de Maria Isaura Pereira Queiroz sobre o cangaço e seus bandidos sociais. Registra a sua ‘admiração pelo valioso trabalho’ e lamenta que ‘alguns dos seus livros, como ‘Os Cangaceiros’, tenham sido publicados demasiadamente tarde para que tivessem sido usados nesta edição’, escreve.

 Mas, é preciso ter cuidado. Se as raízes da herança familiar moldaram a fixação de presenças e ausências, afeições e desafeições, marcas naturais do homem, a riqueza e a vastidão de sua obra estão acima desses detalhes. Foi com seu olhar atento que contou a história, ainda em 1941, há 71 anos, dos ‘Revoltosos da Serra de João do Vale’. Com uma introdução que recenseia as lutas sociais no Nordeste, de Canudos à Pedra do Reino, até os sonhos loucos do beato Joaquim Ramalho e seus fiéis, em 1898. E que começa como uma velha fábula: ‘Peço licença para contar uma história que nunca foi contada…

Serejo: Joel, o marinheiro

Por: Vicente Serejo

 Quando a poesia vinha de outros mundos, não chegava marcada de toda essa fatura e fartura dos habilidosos versejadores, e as metáforas eram fecundadas no útero das palavras, com seus ritos e ritmos, o poema era pleno. Um tempo feito de durezas e branduras, erguidos em versos que assim se estendiam como um varal sob um sol de encantamento. Os marinheiros aceitavam o convite do mar e assim se iam, docemente, sobre o azul. E nem reparavam quanto de vida era preciso ter só para viver.

 Hoje não, Senhor Redator. Nascem no olhar as ervas daninhas do fastio e do desgosto numa sensaboria de pobres sensações. A poesia foi virando um jogo que não é de palavras em gestação, mas de palavras-pedras que remontam frases imitando versos. Raramente cai dentro da gente um verso que de tão inteiro, como um seixo rolado, vai repousar bem no fundo da alma e fica ali, luzindo em certas noites, como um foral a sinalizar aos anjos e demônios navegantes da alma cada instante de revelação.

 Passei anos procurando um dos exemplares dos poemas de Joel Silveira, numerados de um a duzentos, e reunidos num in-fólio de folhas soltas e numeradas, coisa de João Cabral de Melo Neto com o título de ‘O Marinheiro e a Noiva’. Queria ter os poemas de um jornalista que não é um poeta oficial e, no entanto, fala dos mistérios de um mar, pequeno e infinito, como se nele dormissem os temores. E de quem o poeta, em certas noites escuras e tristes, sentia o hálito pobre de deuses abissais.

 Ao encontrá-lo, e aninhá-lo nas mãos, colecionei seus presságios. O que diria um marinheiro-noivo com medo das quilhas batendo contra as trevas escuras de um mar de ausências? E os lábios, tão cândidos e tão úmidos, cais de todos os desejos do poeta-marinheiro? E a sua busca de um azul não morto, como um prado deserto, na dolorosa angústia de estar preso ao chão como mausoléu? E o seu poema cheio de dor quando avisa que é preciso ir, seguir o convite do mar, como se fosse o último?

 Que intensos desejos do poeta de navegar seu mar, mesmo que precise enfrentar sede, frio, uma bússola quebrada, e vendo em cada bandeira a tremular nos mastros um gesto de adeus? O poeta quer ir. Livre como um barco à deriva. E não como um bonde que preso aos mesmos trilhos nunca descobre novas ruas. O poeta não teme sobressaltos e desencantos. Quer o orvalho para envolver o amor terno de Leonor, afinal todas as venturas foram desperdiçadas e a distância engole o sossego dos acalantos.

 Restam Senhor Redator, para desgraça dos homens de almas fracas, como este seu leitor, os poetas estatais. São poetas de raízes apodrecidas no estrume. Tudo – sussurra num aviso quase fúnebre – ficou trivial. E lamenta como numa denúncia surda que todos os tédios tenham amassado os sonhos. O poeta-marinheiro é assim, arrebatado como o mar. Nem sei dizer se ainda encontrou um resto de sol friorento e tranquilo. E se conseguiu realizar o sonho de enviar, de cada porto, um velho cartão postal.

Poroca: Yes, nós temos bananas!

José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

 
Circulou pelos jornais e pela internet uma foto enriquecida por engraçada montagem, mostrando a chanceler alemã Angela Merkel puxando a orelha do primeiro-ministro europeu de um país que faz fronteira com a Espanha. A foto tem vários significados e pode receber centenas de legendas: “vá fazer o seu dever de casa!”, ou “por que não fez como eu fiz?”, ou “você está pensando que eu vou fazer o mesmo que fiz com a Grécia?”. Há, também, o simbolismo da inversão dos papéis: a representante de um país destroçado por duas guerras e dividido após o fim da segunda, ensina lições aos vizinhos que, em tese, poderiam estar em melhor posição.

Não quero, não posso nem devo entrar no mérito de questões históricas e, muito menos, se o que ela (Alemanha) faz está correto ou não. Falta conhecimento do palco, ou seja, não é a minha praia. Mas posso falar nas voltas que o mundo dá, pois, pelo que sei, ainda não houve mudanças no que foi ensinado lá atrás sobre os movimentos de rotação e translação do nosso planeta. O “x” não exige fórmulas que causam dores de cabeça a estudantes e estudiosos. Resume-se a um só ponto: andamos, andamos e voltamos ao mesmo lugar. Pode-se dizer que determinados processos, associados ao movimento da terra, ainda não perderam os seus postos: comer, descomer, comer de novo; nascer, viver e morrer. Foi, é e continuará assim até o fim do mundo.

Falo (escrevo) olhando para o meu umbigo, digo, para o meu país. Quanto tempo se perdeu, quanto dinheiro foi desperdiçado desde a época da monarquia. Agora, mais recente, deixamos passar oportunidade de fazer um país com boas estradas, bons aeroportos, com portos adequados para receber navios de qualquer porte, para atuar em programas que não atraem investimentos ou para jogar dinheiro fora em obras que não pagarão o capital investido. Tome-se como exemplo as fábulas de grana que já foram e serão gastas em estádios que, após a Copa, serão subutililizados. O que vai acontecer? Abandono, pedido de verbas para reforma ou para cobrir buracos e o final da história todo mundo já sabe.

Deixemos a desesperança para depois. Cientistas preveem queda na produção de batata, arroz e trigo, em função das mudanças climáticas. E já dão dicas: o cultivo de bananas vai estar em alta e serão comercializadas a preço de ouro. Um cacho de bananas vai valer mais que um hímen ou um barril de petróleo, pode se prever. E nós, macaquitos, ficaremos em condições de puxar a orelha de muita gente boa, inclusive para quem nos aconselhou a fazer o contrário. Também ficaremos com o corpo e a cabeça fortes, aptos a fazer a transferência do conteúdo das nossas mentes para um computador. Evidente que muitas máquinas não suportarão a sujeira e vão pifar. Mas não adianta esquentar a cuca antes da hora. Só daqui a 30 anos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Vídeo: Nordeste enfrenta a pior seca dos últimos 40 anos


Serejo: A caatinga


A caatinga

Por: Vicente Serejo

 Olhando o livro sobre a mesa, Senhor Redator, vem uma mistura de dor e prazer. A dor de saber que jamais faríamos um assim, e o prazer de lamber a cria, afinal esse sertão também faz parte da alma da gente. Se um dia lançamos ao Brasil a tristonha latomia do aboio dos vaqueiros e o gemido triste das violas bordando os versos dos cantadores nas grandes vozes de Felipe Guerra, Eloy de Souza, Câmara Cascudo e Oswaldo Lamartine, agora só nos resta o belo resmungo tresmalhado do doutor Paulo Balá.

 O sertão é bem servido de livro bonito, mas tenho pra mim que esse ‘Flora das Caatingas’ sobre o sertão banhado pelas águas do Velho Chico, só pode ser comparado, e por isso vem fazer parelha, com outro lançado em l995, ‘Caatinga – sertão, sertanejos’. É como se ao sertão arcaico de homens e bichos viesse se juntar o sertão com sua flora na monumentalidade de um vazio que se estende e se lança diante da visão humana, como dizia Oswaldo Lamartine, até os olhos baterem nas lonjuras das paredes do céu.

 O mais antigo é uma criação de Salvador Monteiro que conheci naquele mesmo ano de 1995, no Rio, pelas mãos de Oswaldo Lamartine, seu amigo. Dele tenho até hoje um bilhete sobre a importância de Oswaldo na concepção do livro. Convidado para escrever o grande ensaio coloquial sobre o sertão, ao lado de nomes como Aziz Ab’Sáber, Afrânio Fernandes, Renato Balieiro, Ilmar Santos, Ibsen Câmara e Luiz Emygdio de Mello Filho, abriu mão e defendeu o nome de sua amiga Raquel de Queiroz.

 Lembro que fiz duas páginas numa das edições de O Poti naquele ano de 1995 mostrando o mais belo conjunto de imagens ali reunido – o vaqueiro e a caatinga – no sertão feito daquele homem que é antes de tudo um forte a vencer o calor que extenua, descansa numa perna e noutra, filho da civilização cósmica de um mundo sem agrados e sem amavios. Feito da brandura dos ventos que descem trazendo a noite do alto das serras que azulam nas manhãs e nas tardes de um chão velho, de silêncio e solidão.

 Agora, e era preciso que fosse assim, foi a vez da ciência iluminar os olhos dos nossos homens letrados. Depois de mais de duzentas expedições e o trabalho incansável de noventa e nove técnicos, nasceu esse ‘Flora das Caatingas’, plural na vastidão que se estende ao longo das terras secas de quatro estados nordestinos. As caatingas banhadas pelas águas fartas do São Francisco vencendo os apertados dos caminhos sinuosos, entre serras e espinhos de rompe-gibão, coleando como uma cobra pelo chão.

 É vê-lo, Senhor Redator, e desejá-lo. Adorna a mesa e a alma. E mesmo com quinhentas páginas é de uma grandeza que cabe inteirinha na alma da gente. Com suas palavras, suas paisagens, seus mapas e seus gráficos. Documentos antigos, desenhos velhos, impressões velhíssimas e moderníssimas, pois tudo neste livro faz sentido. E graças a Deus, pois mesmo patrocinado pelos cofres federais, e só assim poderia ser feito, é adquirível por quem desejar. Acredite: é o sertão arcaico e monumental que está ali.

Serejo: As efemérides


As efemérides

 Por: Vicente Serejo

Gosto das efemérides, Senhor Redator. Gosto tanto que há anos guardo aqui, perto dos olhos e ao alcance das mãos, um exemplar da edição fac-similar das Efemérides Brasileiras, volume VI das obras completas do Barão do Rio Branco lançadas pelo Ministério das Relações Exteriores. Edição que tem uma singularidade que nos toca de perto: o prefácio é do historiador Rodolfo Garcia, nascido em Ceará Mirim e hoje patrono da moderna e informatizada biblioteca da Academia Brasileira de Letras.

Antes de chegar às efemérides, é preciso não esquecer que além da História Administrativa do Brasil, registrando e estudando os atos oficiais indispensáveis à historiografia brasileira, Rodolfo foi o grande anotador da História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo de Varnhagen. A erudição das suas observações é considerada até hoje a parte mais importante e indispensável da volumosa história escrita pelo visconde de Porto Seguro, para não precisar citar outros títulos do seu legado intelectual.

O nariz de cera, bem de doze, é para dizer que outro dia Ruy Castro lembrou a grande memória de Brício de Abreu que sabia de cor todos os grandes acontecimentos do seu tempo. Como revela o próprio Ruy, frequentador da velha Fiorentina, no Rio, ele tinha sido testemunha de tudo ao longo dos anos e das décadas do século vinte. Do recital do Maxixe Corta-Jaca no Palácio do Catete, em 1914, aos beijos ardentes da grande Isadora Duncan em João do Rio, numa noite plena de glória e espanto.

Como gosto de datas e não gosto de vê-las esquecidas, andei reclamando da pobreza de gestos das principais instituições culturais do Estado, como a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e o Instituto Histórico – a inconsistência e o alinhavo são nossas marcas – diante de tantas datas simbólicas de nascimento e morte de nomes da nossa história cultural e política. Acabei desistindo de lutar contra o silêncio das almas notáveis e festejei aqui, sozinho, neste canto de página, sem fulgor e sem aplauso.

Mas, fiquei acompanhando nos grandes jornais e revistas os cem anos de Jorge Amado, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues; de Luiz Gonzaga e Mário Lago, do forrobodó de Chiquinha Gonzaga e de ‘Lábios que Beijei’, de J. Cascata. Como lembrou Ruy Castro, neste 2012 são cinquenta passados da Garota de Ipanema e da morte de Greta Garbo, quando apagou aquele olhar de mormaço na beleza de um rosto inesquecível que tenho aqui, na parede, como um ícone a reviver ao toque de cada olhar.

Há vinte anos, Senhor Redator, era votado o ‘Impeachment’ do presidente Fernando Collor no calor de um furor nacionalista e hoje, duas décadas depois, seus algozes sentam no banco dos réus no maior julgamento do Supremo Tribunal Federal a punir aquele que, nas palavras do ministro Celso de Melo, foi assalto de uma quadrilha aos cofres públicos. Quando já parecia não haver sinal de punição e como se nestes trópicos carnavalescos e sensuais a corrupção fosse um movimento popular vitorioso.

Agora morreu o maior historiador marxista atuante, com quase cem anos, Eric Hobsbawm, que em 1995 veio ao Brasil para a Festa Literária de Parati, percorrendo suas ruas coloniais e pedregosas, ele que demonstrou ao mundo o papel simbólico dos bandidos sociais, dos distantes países ao sertão nordestino de Lampião e Labareda. E no seu olhar erudito mostrou as formas arcaicas dos movimentos sociais, de milenaristas a anarquistas, dos loucos aos bandoleiros nas estradas ermas do mundo afora.

Nada floresce nas nossas instituições, Senhor Redator. Nada aguça a curiosidade intelectual. Já não temos razões profundas. Somos uma gente alegre a se fartar e a se apojar na fanfarra da mesmice. É o insosso ramerrão lítero-recreativo protagonizado por invenções e simulacros cultivados no húmus da desinformação, quando não da incultura solenizada. É chegada a hora de repetir o velho Cícero quando diante de um tempo assim desabafou: Ó tempora, ó mores! Ah, que tempos! Ó que costumes!

Oliveira Jr.: Brevíssimo Manual para se tornar um intelectual de Shopping Center


  Geraldo de Oliveira

Segundo o antropólogo Robert B. Edgerton: “Os seres humanos em várias sociedades, sejam urbanas ou tradicionais, são capazes de empatia, bondade, até amor, e por vezes podem alcançar notável domínio sobre os desafios impostos pelo meio ambiente. Mas são capazes também de preservar crenças, valores e instituições sociais que resultam em crueldade sem sentido, sofrimento desnecessário e monumental estupidez em suas relações internas, com outras sociedades e com o ambiente físico onde vivem. As pessoas nem sempre são sábias, e as sociedades e as culturas que elas criam não são mecanismos de adaptação ideais, perfeitamente projetados para prover necessidades humanas. É um erro sustentar, como o fazem muitos especialistas, que se uma população se apega a uma crença ou prática tradicional por muitos anos ela necessariamente desempenha papel importante em sua vida. As crenças e práticas tradicionais podem ser úteis, podem até servir como importantes mecanismos de adaptação, mas também podem ser ineficientes, danosas e até letais.

A Antropologia em uma de suas divisões, a antropologia urbana, busca entender os fenômenos que ocorrem como resultantes do convívio do homo sapiens sapiens em ambientes que se caracterizam por uma dicotomia em relação ao ambiente rural.
A urbanização crescente criou uma nova categoria em termos de ocupação social e cultural dos territórios: o ambiente rurbano. Uma junção de categorias relacionadas ao viver urbano e rural. É a tal da globalização chegando à roça. As famílias da zona rural vão à feira semanal: os pais vão vender sua produção agropecuária; os filhos vão à lan house; os homens vão tomar cachaça; e, as mulheres vão comprar um edredom ou uma capa para o sofá. E por aí vai.

Na cidade os rumos também se alteram. Ler é crime. O bom é ver televisão e comentar o big brother. A música é só uma: forró que diga que a mulher é puta e o cabra é corno (ou o grande comedor). Uma versão para jovens traz o hip hop questionador das periferias de São Paulo e o funk da foda do Rio de Janeiro. Mas, contra esse tsunami de apatia em relação ao pensar há quem resista: os intelectuais.

Intelectual, na acepção comum, é quem faz jus ao adjetivo Homo sapiens sapiens. Ledo engano. Hoje é um bicho em flagrante e crescente extinção. Os óculos, os livros, as conversas de conteúdo,... Tudo indo às favas. E por osmose, as livrarias que não vivem de livros didáticos e de auto-ajuda. Um segmento das livrarias, contudo, vem sobrevivendo nesse mercado global e banal: as livrarias que estão irmanadas às praças de alimentação de shoppings centers.

Essa junção literogastronômica em um lugar comum vem subsidiada por atitudes comportamentais próprias. Atitudes estas que pretendem configurar um novo personagem: o intelectual de shopping. Ele vai comer porcarias em um fast food, e fingir que ler em uma library. Neste último, também acontecem eventos de lançamentos de livros de auto-ajuda e correlatos. Lança-se uma moda que implica em uma nova postura para ser notado, agora, como um intelectual nessa nova configuração social.

Na condição de antropólogo, bisbilhoteiro desse novo modus vivendi, e querendo contribuir para a felicidade geral dessa nova geração de micróbios humanos, venho expor a solução antropológica para se tornar um legítimo Intelectual de Shopping Center. Assim, basta seguir as regras abaixo:

01) Freqüente assiduamente os shoppings, particularmente nos horários de almoço. Isso fará de você uma pessoa notada. Se tiver e puder, leve o notebook e fique papeando na net. Claro, sempre fazendo uma cara séria (mesmo que esteja em sites pornográficos) e com aqueles óculos de leitura que são vendidos na farmácia do shopping e que custam menos de 20 reais. Não precisa ter grau. Mas tem que estar de óculos.

02) Faça amizade com os vendedores das livrarias locais. É importante que quando você chegue lá seja recebido com um grande sorriso e um aperto de mão. Isto pode valer muitos pontos, caso esteja por lá alguém sério querendo comprar um lançamento literário.

03) Trabalhe muito e compre uma camisa pólo da marca Lacoste. Isto é fundamental: o jacaré, símbolo máximo do glamour, trará olhares pra você. Nem que seja por inveja, alguém irá notar a sua presença. Depois, caso você não tenha um perfil étnico de freqüentador de shopping Center isso lhe evitará problemas com vendedoras de classe média decadente e, evidentemente, com os seguranças.

04) Compre, preferencialmente em um sebo, um livro de Saramago – isto para dar a idéia de que este é manuseado. Não se preocupe: você não precisa ler. Nem a orelha. Basta tê-lo embaixo do braço e fazer as pessoas notarem. Mais fácil: veja o filme recente “Ensaio sobre a cegueira” (também não precisa ver todo) e com ar blasé diga: _é, eu vi o filme, mas nada que se compare ao que está escrito. Caso queira pegar pesado, consiga na net o comentário de alguém, decore uma frase de efeito ou apenas diga: _é uma obra que trata da complexidade do homem de forma atemporal e única.

05) Por último, nada de ter um look underground ou de comunista dos anos 80. Portanto, mantenha os cabelos curtos, use perfume e esteja sempre sorridente.

Felicidades antropológicas.