sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Serejo: Cascudo e Hobsbawm

Por: Vicente Serejo

 Ninguém, com caminhadas mesmo ligeiras no grande e rico continente intelectual de Câmara Cascudo deixa de perceber a vastidão do grande leitor, o que tornou possível realizar uma obra além dos limites do apenas comum. Fez parte da geração brilhante e ousada que repetiu as entradas e bandeiras para fundar o século de suas próprias descobertas, fixando os traços definitivos da identidade cultural brasileira. Nova tomada de posse e domínio de um território que ainda pertencia ao olhar dos viajantes.

 Sua erudição o fez semeador em vários campos do saber, mas não o isentou de ausências teóricas que só se justificariam por desinteresse pontual e circunstancial e nunca por desconhecimento. Daí, o alto preço que pagou já na fase mais ideológica da vida intelectual acadêmica, quando a crítica universitária confinou num calabouço que chamaria de comentaristas impressionistas todas as visões sociológicas ou antropológicas dos que não explicavam os fatos sociais sob a ótica da luta de classes.

 Na verdade, se de um lado o olhar canhestro da academia tapou com a má vontade um ângulo que não poderia ter desconhecido – é tanto que hoje a obra cascudiana é das mais bem estudadas pela crítica universitária – de outro, inegavelmente, suas raízes aristocráticas fecundaram sua alma daquele forte sabor monarquista e conservador que o fez biógrafo do Conde D’Eu, e tão vaidoso do prefácio que mereceu do conde Afonso Celso, e também um biógrafo entusiasta da figura do Marquês de Olinda.

 Talvez por isso seu olhar, embora erudito, não tenha enxergado Manoel Bomfim quando bem no início do século, em 1906, espantou a aristocracia intelectual brasileira com seu livro sobre a ‘América Latina, males de origem’ que décadas depois, no seu exílio, tanto deixaria impressionado Darcy Ribeiro a ponto de escrever o prefácio consagrador da segunda edição. Manoel Bomfim, o rebelde esquecido que viveu seus últimos anos num sanatório, como o identificou seu biógrafo Ronaldo Conde Aguiar.

 A visão conservadora vai se revelar, também, pelas raízes de um pai coronel da Guarda Nacional e caçador de cangaceiro. Um vezo aristocrático de intolerância fica claramente exposto no verbete que escreve sobre Lampião no seu grandioso e até hoje insuperável Dicionário do Folclore Brasileiro. Sua adjetivação copiosa – frio, violento, cruel, sanguinário, incendiário e estuprador, para citar alguns – acabaria afastando o seu olhar da questão do banditismo social que o cangaço também protagonizaria.

 Deve ter sido o vezo, mesmo autêntico e nascido de suas origens aristocráticas, o que não o fez merecedor de um elogio do historiador marxista Eric Hobsbawm em ‘Rebeldes Sociais’, apontado como um dos maiores estudos sobre as ‘formas arcaicas de movimentos sociais nos séculos XIX e XX’, e que no Brasil teve duas traduções lançadas pela Zahar, e também no seu ensaio ‘Bandidos’ que olha como símbolos nascidos de uma matriz – Robin Hood – o bom ladrão que tirava dos ricos para dar aos pobres.

 Além de Euclides da Cunha que para o grande Eric Hobsbawm soube compreender a luta social, vale à pena lembrar a homenagem que faz no prefácio para a edição brasileira de ‘Rebeldes Primitivos’, ao citar a obra de Maria Isaura Pereira Queiroz sobre o cangaço e seus bandidos sociais. Registra a sua ‘admiração pelo valioso trabalho’ e lamenta que ‘alguns dos seus livros, como ‘Os Cangaceiros’, tenham sido publicados demasiadamente tarde para que tivessem sido usados nesta edição’, escreve.

 Mas, é preciso ter cuidado. Se as raízes da herança familiar moldaram a fixação de presenças e ausências, afeições e desafeições, marcas naturais do homem, a riqueza e a vastidão de sua obra estão acima desses detalhes. Foi com seu olhar atento que contou a história, ainda em 1941, há 71 anos, dos ‘Revoltosos da Serra de João do Vale’. Com uma introdução que recenseia as lutas sociais no Nordeste, de Canudos à Pedra do Reino, até os sonhos loucos do beato Joaquim Ramalho e seus fiéis, em 1898. E que começa como uma velha fábula: ‘Peço licença para contar uma história que nunca foi contada…

Serejo: Joel, o marinheiro

Por: Vicente Serejo

 Quando a poesia vinha de outros mundos, não chegava marcada de toda essa fatura e fartura dos habilidosos versejadores, e as metáforas eram fecundadas no útero das palavras, com seus ritos e ritmos, o poema era pleno. Um tempo feito de durezas e branduras, erguidos em versos que assim se estendiam como um varal sob um sol de encantamento. Os marinheiros aceitavam o convite do mar e assim se iam, docemente, sobre o azul. E nem reparavam quanto de vida era preciso ter só para viver.

 Hoje não, Senhor Redator. Nascem no olhar as ervas daninhas do fastio e do desgosto numa sensaboria de pobres sensações. A poesia foi virando um jogo que não é de palavras em gestação, mas de palavras-pedras que remontam frases imitando versos. Raramente cai dentro da gente um verso que de tão inteiro, como um seixo rolado, vai repousar bem no fundo da alma e fica ali, luzindo em certas noites, como um foral a sinalizar aos anjos e demônios navegantes da alma cada instante de revelação.

 Passei anos procurando um dos exemplares dos poemas de Joel Silveira, numerados de um a duzentos, e reunidos num in-fólio de folhas soltas e numeradas, coisa de João Cabral de Melo Neto com o título de ‘O Marinheiro e a Noiva’. Queria ter os poemas de um jornalista que não é um poeta oficial e, no entanto, fala dos mistérios de um mar, pequeno e infinito, como se nele dormissem os temores. E de quem o poeta, em certas noites escuras e tristes, sentia o hálito pobre de deuses abissais.

 Ao encontrá-lo, e aninhá-lo nas mãos, colecionei seus presságios. O que diria um marinheiro-noivo com medo das quilhas batendo contra as trevas escuras de um mar de ausências? E os lábios, tão cândidos e tão úmidos, cais de todos os desejos do poeta-marinheiro? E a sua busca de um azul não morto, como um prado deserto, na dolorosa angústia de estar preso ao chão como mausoléu? E o seu poema cheio de dor quando avisa que é preciso ir, seguir o convite do mar, como se fosse o último?

 Que intensos desejos do poeta de navegar seu mar, mesmo que precise enfrentar sede, frio, uma bússola quebrada, e vendo em cada bandeira a tremular nos mastros um gesto de adeus? O poeta quer ir. Livre como um barco à deriva. E não como um bonde que preso aos mesmos trilhos nunca descobre novas ruas. O poeta não teme sobressaltos e desencantos. Quer o orvalho para envolver o amor terno de Leonor, afinal todas as venturas foram desperdiçadas e a distância engole o sossego dos acalantos.

 Restam Senhor Redator, para desgraça dos homens de almas fracas, como este seu leitor, os poetas estatais. São poetas de raízes apodrecidas no estrume. Tudo – sussurra num aviso quase fúnebre – ficou trivial. E lamenta como numa denúncia surda que todos os tédios tenham amassado os sonhos. O poeta-marinheiro é assim, arrebatado como o mar. Nem sei dizer se ainda encontrou um resto de sol friorento e tranquilo. E se conseguiu realizar o sonho de enviar, de cada porto, um velho cartão postal.

Poroca: Yes, nós temos bananas!

José Carlos L. Poroca
Executivo do segmento shopping centers
jcporoca@uol.com.br

 
Circulou pelos jornais e pela internet uma foto enriquecida por engraçada montagem, mostrando a chanceler alemã Angela Merkel puxando a orelha do primeiro-ministro europeu de um país que faz fronteira com a Espanha. A foto tem vários significados e pode receber centenas de legendas: “vá fazer o seu dever de casa!”, ou “por que não fez como eu fiz?”, ou “você está pensando que eu vou fazer o mesmo que fiz com a Grécia?”. Há, também, o simbolismo da inversão dos papéis: a representante de um país destroçado por duas guerras e dividido após o fim da segunda, ensina lições aos vizinhos que, em tese, poderiam estar em melhor posição.

Não quero, não posso nem devo entrar no mérito de questões históricas e, muito menos, se o que ela (Alemanha) faz está correto ou não. Falta conhecimento do palco, ou seja, não é a minha praia. Mas posso falar nas voltas que o mundo dá, pois, pelo que sei, ainda não houve mudanças no que foi ensinado lá atrás sobre os movimentos de rotação e translação do nosso planeta. O “x” não exige fórmulas que causam dores de cabeça a estudantes e estudiosos. Resume-se a um só ponto: andamos, andamos e voltamos ao mesmo lugar. Pode-se dizer que determinados processos, associados ao movimento da terra, ainda não perderam os seus postos: comer, descomer, comer de novo; nascer, viver e morrer. Foi, é e continuará assim até o fim do mundo.

Falo (escrevo) olhando para o meu umbigo, digo, para o meu país. Quanto tempo se perdeu, quanto dinheiro foi desperdiçado desde a época da monarquia. Agora, mais recente, deixamos passar oportunidade de fazer um país com boas estradas, bons aeroportos, com portos adequados para receber navios de qualquer porte, para atuar em programas que não atraem investimentos ou para jogar dinheiro fora em obras que não pagarão o capital investido. Tome-se como exemplo as fábulas de grana que já foram e serão gastas em estádios que, após a Copa, serão subutililizados. O que vai acontecer? Abandono, pedido de verbas para reforma ou para cobrir buracos e o final da história todo mundo já sabe.

Deixemos a desesperança para depois. Cientistas preveem queda na produção de batata, arroz e trigo, em função das mudanças climáticas. E já dão dicas: o cultivo de bananas vai estar em alta e serão comercializadas a preço de ouro. Um cacho de bananas vai valer mais que um hímen ou um barril de petróleo, pode se prever. E nós, macaquitos, ficaremos em condições de puxar a orelha de muita gente boa, inclusive para quem nos aconselhou a fazer o contrário. Também ficaremos com o corpo e a cabeça fortes, aptos a fazer a transferência do conteúdo das nossas mentes para um computador. Evidente que muitas máquinas não suportarão a sujeira e vão pifar. Mas não adianta esquentar a cuca antes da hora. Só daqui a 30 anos.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Vídeo: Nordeste enfrenta a pior seca dos últimos 40 anos


Serejo: A caatinga


A caatinga

Por: Vicente Serejo

 Olhando o livro sobre a mesa, Senhor Redator, vem uma mistura de dor e prazer. A dor de saber que jamais faríamos um assim, e o prazer de lamber a cria, afinal esse sertão também faz parte da alma da gente. Se um dia lançamos ao Brasil a tristonha latomia do aboio dos vaqueiros e o gemido triste das violas bordando os versos dos cantadores nas grandes vozes de Felipe Guerra, Eloy de Souza, Câmara Cascudo e Oswaldo Lamartine, agora só nos resta o belo resmungo tresmalhado do doutor Paulo Balá.

 O sertão é bem servido de livro bonito, mas tenho pra mim que esse ‘Flora das Caatingas’ sobre o sertão banhado pelas águas do Velho Chico, só pode ser comparado, e por isso vem fazer parelha, com outro lançado em l995, ‘Caatinga – sertão, sertanejos’. É como se ao sertão arcaico de homens e bichos viesse se juntar o sertão com sua flora na monumentalidade de um vazio que se estende e se lança diante da visão humana, como dizia Oswaldo Lamartine, até os olhos baterem nas lonjuras das paredes do céu.

 O mais antigo é uma criação de Salvador Monteiro que conheci naquele mesmo ano de 1995, no Rio, pelas mãos de Oswaldo Lamartine, seu amigo. Dele tenho até hoje um bilhete sobre a importância de Oswaldo na concepção do livro. Convidado para escrever o grande ensaio coloquial sobre o sertão, ao lado de nomes como Aziz Ab’Sáber, Afrânio Fernandes, Renato Balieiro, Ilmar Santos, Ibsen Câmara e Luiz Emygdio de Mello Filho, abriu mão e defendeu o nome de sua amiga Raquel de Queiroz.

 Lembro que fiz duas páginas numa das edições de O Poti naquele ano de 1995 mostrando o mais belo conjunto de imagens ali reunido – o vaqueiro e a caatinga – no sertão feito daquele homem que é antes de tudo um forte a vencer o calor que extenua, descansa numa perna e noutra, filho da civilização cósmica de um mundo sem agrados e sem amavios. Feito da brandura dos ventos que descem trazendo a noite do alto das serras que azulam nas manhãs e nas tardes de um chão velho, de silêncio e solidão.

 Agora, e era preciso que fosse assim, foi a vez da ciência iluminar os olhos dos nossos homens letrados. Depois de mais de duzentas expedições e o trabalho incansável de noventa e nove técnicos, nasceu esse ‘Flora das Caatingas’, plural na vastidão que se estende ao longo das terras secas de quatro estados nordestinos. As caatingas banhadas pelas águas fartas do São Francisco vencendo os apertados dos caminhos sinuosos, entre serras e espinhos de rompe-gibão, coleando como uma cobra pelo chão.

 É vê-lo, Senhor Redator, e desejá-lo. Adorna a mesa e a alma. E mesmo com quinhentas páginas é de uma grandeza que cabe inteirinha na alma da gente. Com suas palavras, suas paisagens, seus mapas e seus gráficos. Documentos antigos, desenhos velhos, impressões velhíssimas e moderníssimas, pois tudo neste livro faz sentido. E graças a Deus, pois mesmo patrocinado pelos cofres federais, e só assim poderia ser feito, é adquirível por quem desejar. Acredite: é o sertão arcaico e monumental que está ali.

Serejo: As efemérides


As efemérides

 Por: Vicente Serejo

Gosto das efemérides, Senhor Redator. Gosto tanto que há anos guardo aqui, perto dos olhos e ao alcance das mãos, um exemplar da edição fac-similar das Efemérides Brasileiras, volume VI das obras completas do Barão do Rio Branco lançadas pelo Ministério das Relações Exteriores. Edição que tem uma singularidade que nos toca de perto: o prefácio é do historiador Rodolfo Garcia, nascido em Ceará Mirim e hoje patrono da moderna e informatizada biblioteca da Academia Brasileira de Letras.

Antes de chegar às efemérides, é preciso não esquecer que além da História Administrativa do Brasil, registrando e estudando os atos oficiais indispensáveis à historiografia brasileira, Rodolfo foi o grande anotador da História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo de Varnhagen. A erudição das suas observações é considerada até hoje a parte mais importante e indispensável da volumosa história escrita pelo visconde de Porto Seguro, para não precisar citar outros títulos do seu legado intelectual.

O nariz de cera, bem de doze, é para dizer que outro dia Ruy Castro lembrou a grande memória de Brício de Abreu que sabia de cor todos os grandes acontecimentos do seu tempo. Como revela o próprio Ruy, frequentador da velha Fiorentina, no Rio, ele tinha sido testemunha de tudo ao longo dos anos e das décadas do século vinte. Do recital do Maxixe Corta-Jaca no Palácio do Catete, em 1914, aos beijos ardentes da grande Isadora Duncan em João do Rio, numa noite plena de glória e espanto.

Como gosto de datas e não gosto de vê-las esquecidas, andei reclamando da pobreza de gestos das principais instituições culturais do Estado, como a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e o Instituto Histórico – a inconsistência e o alinhavo são nossas marcas – diante de tantas datas simbólicas de nascimento e morte de nomes da nossa história cultural e política. Acabei desistindo de lutar contra o silêncio das almas notáveis e festejei aqui, sozinho, neste canto de página, sem fulgor e sem aplauso.

Mas, fiquei acompanhando nos grandes jornais e revistas os cem anos de Jorge Amado, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues; de Luiz Gonzaga e Mário Lago, do forrobodó de Chiquinha Gonzaga e de ‘Lábios que Beijei’, de J. Cascata. Como lembrou Ruy Castro, neste 2012 são cinquenta passados da Garota de Ipanema e da morte de Greta Garbo, quando apagou aquele olhar de mormaço na beleza de um rosto inesquecível que tenho aqui, na parede, como um ícone a reviver ao toque de cada olhar.

Há vinte anos, Senhor Redator, era votado o ‘Impeachment’ do presidente Fernando Collor no calor de um furor nacionalista e hoje, duas décadas depois, seus algozes sentam no banco dos réus no maior julgamento do Supremo Tribunal Federal a punir aquele que, nas palavras do ministro Celso de Melo, foi assalto de uma quadrilha aos cofres públicos. Quando já parecia não haver sinal de punição e como se nestes trópicos carnavalescos e sensuais a corrupção fosse um movimento popular vitorioso.

Agora morreu o maior historiador marxista atuante, com quase cem anos, Eric Hobsbawm, que em 1995 veio ao Brasil para a Festa Literária de Parati, percorrendo suas ruas coloniais e pedregosas, ele que demonstrou ao mundo o papel simbólico dos bandidos sociais, dos distantes países ao sertão nordestino de Lampião e Labareda. E no seu olhar erudito mostrou as formas arcaicas dos movimentos sociais, de milenaristas a anarquistas, dos loucos aos bandoleiros nas estradas ermas do mundo afora.

Nada floresce nas nossas instituições, Senhor Redator. Nada aguça a curiosidade intelectual. Já não temos razões profundas. Somos uma gente alegre a se fartar e a se apojar na fanfarra da mesmice. É o insosso ramerrão lítero-recreativo protagonizado por invenções e simulacros cultivados no húmus da desinformação, quando não da incultura solenizada. É chegada a hora de repetir o velho Cícero quando diante de um tempo assim desabafou: Ó tempora, ó mores! Ah, que tempos! Ó que costumes!

Oliveira Jr.: Brevíssimo Manual para se tornar um intelectual de Shopping Center


  Geraldo de Oliveira

Segundo o antropólogo Robert B. Edgerton: “Os seres humanos em várias sociedades, sejam urbanas ou tradicionais, são capazes de empatia, bondade, até amor, e por vezes podem alcançar notável domínio sobre os desafios impostos pelo meio ambiente. Mas são capazes também de preservar crenças, valores e instituições sociais que resultam em crueldade sem sentido, sofrimento desnecessário e monumental estupidez em suas relações internas, com outras sociedades e com o ambiente físico onde vivem. As pessoas nem sempre são sábias, e as sociedades e as culturas que elas criam não são mecanismos de adaptação ideais, perfeitamente projetados para prover necessidades humanas. É um erro sustentar, como o fazem muitos especialistas, que se uma população se apega a uma crença ou prática tradicional por muitos anos ela necessariamente desempenha papel importante em sua vida. As crenças e práticas tradicionais podem ser úteis, podem até servir como importantes mecanismos de adaptação, mas também podem ser ineficientes, danosas e até letais.

A Antropologia em uma de suas divisões, a antropologia urbana, busca entender os fenômenos que ocorrem como resultantes do convívio do homo sapiens sapiens em ambientes que se caracterizam por uma dicotomia em relação ao ambiente rural.
A urbanização crescente criou uma nova categoria em termos de ocupação social e cultural dos territórios: o ambiente rurbano. Uma junção de categorias relacionadas ao viver urbano e rural. É a tal da globalização chegando à roça. As famílias da zona rural vão à feira semanal: os pais vão vender sua produção agropecuária; os filhos vão à lan house; os homens vão tomar cachaça; e, as mulheres vão comprar um edredom ou uma capa para o sofá. E por aí vai.

Na cidade os rumos também se alteram. Ler é crime. O bom é ver televisão e comentar o big brother. A música é só uma: forró que diga que a mulher é puta e o cabra é corno (ou o grande comedor). Uma versão para jovens traz o hip hop questionador das periferias de São Paulo e o funk da foda do Rio de Janeiro. Mas, contra esse tsunami de apatia em relação ao pensar há quem resista: os intelectuais.

Intelectual, na acepção comum, é quem faz jus ao adjetivo Homo sapiens sapiens. Ledo engano. Hoje é um bicho em flagrante e crescente extinção. Os óculos, os livros, as conversas de conteúdo,... Tudo indo às favas. E por osmose, as livrarias que não vivem de livros didáticos e de auto-ajuda. Um segmento das livrarias, contudo, vem sobrevivendo nesse mercado global e banal: as livrarias que estão irmanadas às praças de alimentação de shoppings centers.

Essa junção literogastronômica em um lugar comum vem subsidiada por atitudes comportamentais próprias. Atitudes estas que pretendem configurar um novo personagem: o intelectual de shopping. Ele vai comer porcarias em um fast food, e fingir que ler em uma library. Neste último, também acontecem eventos de lançamentos de livros de auto-ajuda e correlatos. Lança-se uma moda que implica em uma nova postura para ser notado, agora, como um intelectual nessa nova configuração social.

Na condição de antropólogo, bisbilhoteiro desse novo modus vivendi, e querendo contribuir para a felicidade geral dessa nova geração de micróbios humanos, venho expor a solução antropológica para se tornar um legítimo Intelectual de Shopping Center. Assim, basta seguir as regras abaixo:

01) Freqüente assiduamente os shoppings, particularmente nos horários de almoço. Isso fará de você uma pessoa notada. Se tiver e puder, leve o notebook e fique papeando na net. Claro, sempre fazendo uma cara séria (mesmo que esteja em sites pornográficos) e com aqueles óculos de leitura que são vendidos na farmácia do shopping e que custam menos de 20 reais. Não precisa ter grau. Mas tem que estar de óculos.

02) Faça amizade com os vendedores das livrarias locais. É importante que quando você chegue lá seja recebido com um grande sorriso e um aperto de mão. Isto pode valer muitos pontos, caso esteja por lá alguém sério querendo comprar um lançamento literário.

03) Trabalhe muito e compre uma camisa pólo da marca Lacoste. Isto é fundamental: o jacaré, símbolo máximo do glamour, trará olhares pra você. Nem que seja por inveja, alguém irá notar a sua presença. Depois, caso você não tenha um perfil étnico de freqüentador de shopping Center isso lhe evitará problemas com vendedoras de classe média decadente e, evidentemente, com os seguranças.

04) Compre, preferencialmente em um sebo, um livro de Saramago – isto para dar a idéia de que este é manuseado. Não se preocupe: você não precisa ler. Nem a orelha. Basta tê-lo embaixo do braço e fazer as pessoas notarem. Mais fácil: veja o filme recente “Ensaio sobre a cegueira” (também não precisa ver todo) e com ar blasé diga: _é, eu vi o filme, mas nada que se compare ao que está escrito. Caso queira pegar pesado, consiga na net o comentário de alguém, decore uma frase de efeito ou apenas diga: _é uma obra que trata da complexidade do homem de forma atemporal e única.

05) Por último, nada de ter um look underground ou de comunista dos anos 80. Portanto, mantenha os cabelos curtos, use perfume e esteja sempre sorridente.

Felicidades antropológicas.

Lima: *Chapeuzinho Vermelho


*Chapeuzinho Vermelho
Por  Jairo Lima  in Infâmia

www.jairolima.org

 Numa bela tarde ensolarada de Natal (1) uma bela mocinha de sociedade, usando um belo chapeuzinho vermelho, adentrou (2) no shopping para comprar preservativos e um livro de Paulo Coelho.

 Após sair da farmácia, dirigia-se à livraria quando avistou uma velha Intelectual-de-Shopping sentada no chão frio do mall arrodeada de livros.

- Vovó, admirou-se a mocinha, vc deve ser uma intelectual.

- Não se precipite, queridinha, todo ser humano usa o intelecto portanto tenho dúvidas se existem mesmo intelectuais, ensinou.

 A mocinha, ainda mais admirada com tão profunda inteligência, perguntou:

- E como se chama então uma pessoa que vive cercada de livros?

- Isto é relativo. Livros são apenas papeis pintados. Não estou bem certa de que existam livros.

- E shopping, existe?

- Shopping é um comércio e comércio tem também no Alecrim (3) e lá não se chama shopping. Tudo é relativo.

 Aí a mocinha queimou feio (4).

- Ora, porra, e se eu puxasse uma peixeira e lhe cravasse no peito, isto também seria relativo?

- Claro, meu amor, se um jornalista perguntasse ao Tarso Genro, após o meu assassinato, se estava aumentando a violência no shopping ele diria que não, que está tudo dominado, sendo o meu passamento um pequeno e normal efeito residual das tensões sociais. E acrescentaria: vamos abrir um inquérito para apurar se o suposto homicídio ocorreu mesmo no suposto shopping e foi praticado por uma suposta mocinha com um suposto chapéu vermelho que ia comprar um suposto livro do suposto escritor Paulo Coelho. Tudo, tudo é relativo.

 Deixa que aí a mocinha se emputeceu e puxando uma peixeira afiada (5) cravou-a até o cabo no coração da velha Intelectual-de-Shopping que estrebuchou, enrijeceu, suspirou e morreu. Imediatamente chegou o pessoal da limpeza que recolheu o corpo, lavou o sangue, aspergiu bom-ar e deixou tudo limpo como antes. Aí a Justiça concedeu a nossa heroina o status de refugiada política, considerando o móvel ideológico do crime. E ela fundou uma ONG que só no ano passado recebeu 3 bilhões de reais do governo.

Moral da história: Uma coisa é certa: crime é relativo mesmo.

Notas:

 1) A cidade, não a festa.

 2) Expressão obrigatória na crônica esportiva e policial, como é o caso deste trágico relato.

 3) Bairro de Natal.

 4) Antigo provérbio potiguar.

 5) Não é verossímil que uma mocinha de sociedade saísse de casa armada com uma peixeira, mas deixa pra lá.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Vídeo - Poesia - Fernando Pessoa


Serejo: A força da madrinha


Por: Vicente Serejo

Quem, um dia, teve aquelas veleidades acadêmicas e acreditou que o método era a chave que abria a porta de todos os saberes, não imaginou que a aventura maior é viver e fazer da vida a arte de colecionar descobertas. Foi a minha reação, Senhor Redator, olhando a cobertura das televisões sobre a morte, o velório e o enterro de Hebe Camargo. Mais do que cumprir a ordem de fatos, foi o rito de adeus de quem há mais de cinquenta anos foi a vizinha, a comadre, a amiga e a madrinha do Brasil.

Uso a expressão madrinha por ser íntima de quem viveu naqueles inícios dos anos setenta a descobrir, nos corredores universitários, a nova ciência da comunicação. Até hoje tenho, rabiscado, a edição original – Perspectiva, São Paulo, 1972 – de A Noite da Madrinha, o primeiro grande estudo acadêmico sobre Hebe Camargo. Foi há quarenta anos, ainda na sua primeira década de atuação que Sérgio Micele – hoje um estudioso consagrado – já percebia ali um processo ideológico de iconização.

Ao contrário dos pássaros nas migalhas da história de João e Maria, os ratos do tempo não comeram os rabiscos que desenham, nas linhas do texto, o mapa de uma velha leitura tão esquecida. Vejo à página 17 meu grifo a lápis grafite que assinala: ‘O programa Hebe Camargo, escolhido para uma análise de caso mais detida, subsiste há mais de uma década, em horários ‘nobres’, escorando-se no carisma doce de sua animadora’. É a tessitura de uma história comum que une Hebe à sua platéia.

Miceli, há quarenta anos – há uma segunda edição recente – foi ousado, daí a leitura naqueles cursos de extensão. Foi inteligente e inovadora a percepção, lastreando com a teoria da comunicação o que chamou de ‘pacto afetivo’, unindo a apresentadora e o seu público. Para ele, um pacto capaz de alimentar a semelhança dos ‘estereótipos em que se alicerça a figura pública da animadora’ e que assim sustenta ‘demandas simbólicas de uma classe’ até para avivar a história comum entre os dois.

Silvio Santos e Hebe Camargo foram os ícones – pai e mãe – da forte tradição brasileira de programas de auditório. Intenso processo de comunicação que manteve vivo no sentimento popular, até pela semelhança das origens sociais com as suas plateias – extratos perfeitos como representações do povo brasileiro. Viraram ícones do ideal de uma vida melhor, como milagres da alegria saídos das portas da esperança e seus baús cheios da felicidade, com Silvio a perguntar: Quem quer dinheiro?

Naquele tempo, ainda morno das inquietações dos anos sessenta, as dissertações de mestrado inauguravam entre nós o olhar brasileiro sobre nossas próprias cenas e cenários. Era a percepção da indústria cultural nos primeiros passos sobre o território simbólico do País do Carnaval, para usar a força expressiva e definidora de Jorge Amado. Da alegria tropical afloraram as questões ideológicas, nascendo do fundo do mato dentro, como em Macunaíma, outro Brasil até então era imperceptível

 

Serejo: Concurso de miss


Por: Vicente Serejo

Agora faço como se faz nessas horas: passou o concurso de miss e nem dei conta. É que sou desse tempo, Senhor Redator. Mais: fui jurado, vendo as medidas dos quadris, coxas, busto e a altura das pernas, diante da pequena multidão entusiasmada que lotava o Palácio dos Esportes. No centro da quadra, no meio da passarela, Eunice e Nilson Freire, o casal de locutores que Luiz Maria Alves fazia questão que transmitisse o desfile, ao vivo, para a Rádio Poti. Ser jurado, naqueles anos, era um sucesso.

O concurso de miss, mesmo depois da morte de Assis Chateaubriand, continuou por algum tempo sendo exclusivo dos Diários Associados. A tevê Tupi do Rio comandava o desfile nacional e nas capitais, rádios e jornais onde não existisse canal de tevê. Era um desassossego. Alves centralizava todas as decisões para que fosse um exemplo de organização. O jornal estimulava a escolha nos municípios com cobertura de tudo e o desfile final em Natal, sob controle absoluto e total de cada diretor regional.

Nos bastidores, o concurso de miss tinha detalhes que muitos são sabem até hoje. Além dos dois patrocínios comerciais exclusivos e marcantes – Helena Rubinstein e maiôs Catalina – tinha um instante que mais parecia segredo de guerra: dias antes chegava, via aérea, uma caixa com os maiôs que só Luiz Maria Alves abria, conferia, lacrava outra vez, e deixava debaixo de sua mesa. Ninguém, absolutamente, ninguém, podia vê-los. O próprio Diário só divulgava no dia do desfile para evitar o risco de imitações.

O concurso dava trabalho antes, durante e depois. Antes, para que os prefeitos assumissem a escolha em seus municípios. Durante, pois ficavam em Natal, hospedadas num hotel, e eram muitas as atividades. Era preciso melhorar o visual. Cabelos, maquiagem, trajes típicos e longos elegantes que Alves chamava vestidos de baile. Tudo pronto, o desfile. Com cuidados inacreditáveis como não faltar modess. Algumas menstruavam emocionadas, por isso uma funcionária do jornal ficava lá, de prontidão.

Uma vez eleita, a miss Rio Grande do Norte assinava contrato com os Diários Associados, que passavam a ter a exclusividade de sua imagem. O jornal financiava tudo: do tratamento dentário a aulas de etiqueta, num código de ferro que embora não fosse divulgado, era observado discretamente e com rigor: não bastava ser moça, a exigência era um sinônimo fiel de virgindade. Era preciso, sobretudo, não ser moça falada. E Alves, detalhista, determinava que fossem tratadas pelos locutores de ‘senhorinhas’.

Eleita, e na hipótese de ter emprego, o jornal garantia a reposição salarial. Mas uma vez certo comerciante não aceitou manter o vínculo, mesmo ressarcido, e demitiu a Miss RN. Alves reagiu e admitiu no Jornal como secretária, garantindo o emprego, um dever contratual. Meses depois, precisou ir ao Rio – só viajava de carro – e deixou cheques assinados para pagar seu Imposto de Renda, tarefa que confiou a Afonso Laurentino. Bastava, na data correta, ele dizer o valor e ela preencheria o cheque.

Dois meses depois Alves retornou, recuperado da cirurgia de catarata que fez no Rio, hóspede da irmã. Afonso vai entregar a quitação das parcelas do imposto, e avisa que pagou com cheque dele mesmo, Afonso. E explicou, com ar crítico, que a miss preencheu duas vezes errado o cheque e o banco não aceitou. Alves, machão e maroto, não contava assim a história. Dizia, com o riso lavando os olhos: ‘Afonso é muito exigente. A biologia nos deu uma perfeição e ele ainda queria que fosse inteligente’.

A cena hilariante foi na redação. Uma vez a miss eleita foi visitar o jornal e por coincidência lá já estavam Cauby Peixoto e uma Banda de Música homenageando o jornal. Cassiano Arruda Câmara, então editor, pediu a Cauby que cantasse Conceição, enquanto a banda acompanhava e a miss desfilava. Um espetáculo que nunca mais uma redação vai assistir. Ainda lembro a cena: Alves num canto, mãos nos quadris, cachimbo apagado no canto da boca, morrendo de rir. Não se faz mais concurso de miss como antigamente.

Vídeo: Projeto Biblioeta Comunitária: ler é preciso


Desempregado, pedreiro mantém biblioteca de 40 mil livros com a ajuda de amigos


Por: Felipe Martins

Do UOL, em São Paulo

Uma das maiores felicidades do pedreiro Evando dos Santos, 52, é a biblioteca comunitária Tobias Barreto de Meneses. Fruto do seu esforço pessoal, a instituição tem mais de 40 mil livros.

No entanto, a biblioteca virou uma dor de cabeça constante. A realidade de Evando é levantar cedo todos os dias para receber as pessoas e manter limpo o espaço. Tudo sozinho. Semanalmente ele lava os 280 metros quadrados do prédio dividido em três andares.

Para os custos com água e energia elétrica Evando conta com a ajuda financeira de amigos e da mulher, Maria José, companheira em seu sonho. “Eu me contagiei pelo entusiasmo do Evando. Eu era alérgica à poeira, mas essa alegria dele me fez não sentir mais nada. A biblioteca é um presente de Deus para nós”, afirmou.

Evando lamenta não ter dinheiro para enviar 3500 livros para a construção de bibliotecas comunitárias no interior da Bahia e de Pernambuco. Ou para oferecer cursos gratuitos utilizando as duas salas de aula, com 50 lugares cada uma.

 

Depois de um dia de trabalho, Evando encontrou uma pilha de cerca de 50 livros. Ao levar os livros para casa, surgiu a ideia de criar uma biblioteca comunitária

Mas o homem de “intelecto lapidado”, como ele costuma dizer, não desiste do projeto. “Às vezes eu quero desanimar. Sem dinheiro, desempregado, mais duro que um coco. Mais uma voz me vem na memória e me diz ‘levanta!’ Eu, um nada, fiquei uma hora na casa do maior arquiteto do mundo, Oscar Niemeyer. Lembro da minha mãe, das medalhas. Homenageado pela Academia Brasileira de Letras pela escritora Nélida Piñon. Aí eu sacudo a poeira e, como uma águia, renovo as forças e fico a voar no mundo das ideias, criando, inventando e indo para a prática”, definiu.

Sem “burrocracia”

Criada em 1998, na Vila da Penha, subúrbio do rio de Janeiro, a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Meneses tem mais de 40 mil livros e funciona em um prédio próprio, desenhado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer.

Nessa biblioteca, as regras para o empréstimo são simples: o leitor preenche um cadastro e pode ficar com o volume pelo tempo que achar necessário. “Se a pessoa não devolve o livro é porque precisa”, diz Evando dos Santos.

Cheio de orgulho, Evando diz que esse era seu sonho: uma biblioteca sem “burrocracia”, funcionando de domingo à domingo. Segundo ele, com livros que não se encontram na Biblioteca Nacional. Exemplo disso é uma gramática da língua bunda que era a falada pelos escravos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Denúncia: Virgindade por doce no Amazonas


Brasil: Virgindade de meninas índias vale R$ 20 no AM

KÁTIA BRASIL

ENVIADA ESPECIAL A SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM)

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 Polícia Federal investiga casos de exploração sexual de adolescentes indígenas

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Doze meninas prestaram depoimento à polícia em São Gabriel da Cachoeira; ex-vereador, comerciantes e militares são suspeitos

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No município amazonense de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira do Brasil com a Colômbia, um homem branco compra a virgindade de uma menina indígena com aparelho de celular, R$ 20, peça de roupa de marca e até com uma caixa de bombons.

 A pedido das mães das vítimas, a Polícia Civil apura o caso há um ano. No entanto, como nenhum suspeito foi preso até agora, a Polícia Federal entrou na investigação no mês passado.

 Doze meninas já prestaram depoimento. Elas relataram aos policiais que foram exploradas sexualmente e indicaram nove homens como os autores do crime.

 Entre eles há empresários do comércio local, um ex-vereador, dois militares do Exército e um motorista.

 As vítimas são garotas das etnias tariana, uanana, tucano e baré que vivem na periferia de São Gabriel da Cachoeira, que tem 90% da população (cerca de 38 mil pessoas) formada por índios.

 Entre as meninas exploradas, há as que foram ameadas pelos suspeitos. Algumas foram obrigadas a se mudar para casas de familiares, na esperança de ficarem seguras.

 A Folha conversou com cinco dessas meninas e, para cada uma delas, criou iniciais fictícias para dificultar a identificação na cidade.

 M., de 12 anos, conta que "vendeu" a virgindade para um ex-vereado. O acerto, afirma a menina, ocorreu por meio de uma prima dela, que também é adolescente.

 "Ele me levou para o quarto e tirou minha roupa. Foi a primeira vez, fiquei triste."

 A menina conta que o homem é casado e tem filhos. "Ele me deu R$ 20 e disse para eu não contar a ninguém."

 P., de 14 anos, afirma que esteve duas vezes com um comerciante. "Ele me obrigou. Depois me deu um celular."

 Já L., de 12 anos, diz que ela e outras meninas ganharam chocolates, dinheiro e roupas de marca em troca da virgindade. "Na primeira vez fui obrigada, ele me deu R$ 30 e uma caixa com chocolates."

 DEZ ANOS

 Outra garota, X., de 15 anos, disse que presenciou encontros de sete homens com meninas de até dez anos.

 "Eu vi meninas passando aquela situação, ficando com as coxas doloridas. Eles sempre dão dinheiro em troca disso [da virgindade]."

 P. aceitou depor na PF porque recebeu ameaças de um dos suspeitos. "Ele falou que, se continuasse denunciando, eu iria junto com ele para a cadeia. Estou com medo, ele fez isso com muitas meninas menores", afirma.

 Familiares e conselheiros tutelares que defendem as adolescentes também são ameaçados. "Eles avisaram: se abrirem a boca a gente vai mandar matar", diz a mãe de uma menina de 12 anos.

Frase

"Ele me levou para o quarto e tirou minha roupa. Foi a primeira vez, fiquei triste"

"Ele me deu R$ 20 e disse para eu não contar a ninguém"
M., de 12 anos

 Sexo por bombom

Casos de exploração sexual de garotas indígenas são denunciados desde 2008 em São Gabriel do Cachoeira, no Amazonas

DA ENVIADA A SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM)

A situação das meninas indígenas exploradas sexualmente é conhecida como um caso de impunidade na isolada São Gabriel da Cachoeira.

Na Polícia Civil, três inquéritos foram abertos, mas nenhum dos nove suspeitos foi preso nem indiciado.

O delegado titular da cidade, Normando da Barbosa, afirma que pediu a prisão de um suspeito, mas ele fugiu da cidade. Os demais nunca prestaram depoimento.

Os crimes de estupro de vulnerável e exploração sexual têm penas previstas de quatro a dez anos de reclusão.

A irmã Giustina Zanato, 63, presidente do Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente, diz que os casos são denunciados desde 2008.

"Fomos procurar a Justiça. Lá disseram que deveríamos ficar quietinhos no nosso lugar, que isso acontecia todos os dias", afirma Giustina.

Promotora de Justiça de São Gabriel, Christina Dolzany diz que ouviu depoimentos de dez meninas. "É uma coisa animalesca e triste, algumas delas relatam que perderam a virgindade nessa situação de exploração."

Algumas meninas, segundo Christina, já estão recebendo assistência psicológica.

O procurador federal Júlio José Araújo Junior, que atua no direito indígena, determinou a abertura de inquérito.

"A investigação pela PF se deve muito pela insatisfação da sociedade com as investigações que não andaram [na Polícia Civil]. Os acusados são pessoas que têm certo poder dentro da cidade, o que intimida qualquer tipo de denúncia", disse o procurador.

O delegado titular em São Gabriel atribui a morosidade da investigação à dificuldade de encontrar as garotas. "Passamos 30 dias para localizar quatro meninas. Apenas uma delas fez o exame de corpo de delito para comprovar a conjunção carnal. Assim fica difícil, elas mesmo dificultam."

CABEÇA DO CACHORRO

São Gabriel da Cachoeira fica no Alto Rio Negro, região rica em minérios que abriga a maior população indígena no Brasil. São 22 etnias, daí 90% da população ser formada por índios, incluindo o prefeito e o vice-prefeito do município.

A região, também conhecida como Cabeça do Cachorro, é estratégica para as Forças Armadas do Brasil, pois é alvo do tráfico de drogas e de incursões de guerrilheiros.

Em muitas aldeias não há escolas e opções de sustento o que leva as famílias à cidade. Lá, encontram a exclusão.

Os brancos formam a elite, em sua maioria funcionários públicos e militares. Os índios sobrevivem com ajuda de programas sociais e moram em casebres de chão de terra batida e sem água encanada.

O alcoolismo e o suicídio entre eles são o maior drama social local.

(KÁTIA BRASIL)

 Frases

"Fomos procurar a Justiça. Lá nos disseram que deveríamos ficar quietinhos no nosso lugar, que isso acontecia todos os dias"
GIUSTINA ZANATO, 63
presidente do Conselho Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente, que afirma que desde 2008 existem denúncias de abuso sexual contra meninas indígenas

"Os acusados têm certo poder na cidade, o que intimida qualquer tipo de denúncia"

JOSÉ ARAÚJO JUNIOR

procurador federal

"Passamos 30 dias para localizar quatro meninas"

NORMANDO DA BARBOSA

delegado titular

 


Versão local de Dorothy Stang, irmã Giustina vira referência

Religiosa italiana acolhe as meninas e cobra polícia

DA ENVIADA A SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM)

A italiana Giustina Zanato, 63, é para as meninas indígenas uma espécie de versão amazonense de Dorothy Stang, missionária assassinada no Pará em 2005 e que dedicou parte de sua vida à defesa dos camponeses.

Natural de Marostica, província de Vicenza, chegou ao Brasil em outubro de 1984.

Ligada à Congregação das Irmãs Salesianas, da Igreja Católica, já enfrentou embates com pessoas do Judiciário e da polícia cobrando a punição dos suspeitos de abusar das meninas da região.

"Denúncias foram feitas, mas não vimos o resultado. É muito triste pensar que quem se colocou ao lado da Justiça é injusto", diz a missionária.

Desde 2008, a religiosa coordena o programa assistencial "Menina Feliz", que atende vítimas de violência sexual e abandono.

Lá, as menores são abrigadas, recebem alimentação, educação e podem fazer cursos de artesanato, costura e também de informática.

AMEAÇAS

A missionária diz que familiares de duas dessas 12 meninas exploradas sexualmente se interessaram pelo dinheiro dos suspeitos."São famílias desestruturadas, o dinheiro se tornou uma segurança."

Irmã Giustina prestou depoimento no inquérito da Polícia Federal e diz que não temer as ameaças.

"Eu ando na cidade toda e não tenho medo. Sei que estou fazendo o meu papel como religiosa, como alguém que se sente parte da família indígena e que me acolheu tão bem no Brasil."

Ela afirma que já teve vontade de se encontrar frente a frente com os homens suspeitos de comprar a virgindade das meninas da cidade.(K.B.)

 Frase

"Já tive vontade de encará-los, mas sinto nojo; é um crime que deveria ser combatido com todas as forças"

IRMÃ GIUSTINA

religiosa que protege as adolescentes