segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Lançamento de livro de Epitácio em Georgino Avelino
“A Saga dos Limões” será lançada em Senador Georgino Avelino
No dia 29 de Setembro, Quinta-feira próxima, a partir das 13:30 horas, com promoção da Prefeitura Municipal e apoio cultural das Secretarias de Educação e da Saúde, será lançado o livro "A Saga dos Limões - Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante", de autoria do Médico Psiquiatra e Pesquisador Social Epitácio de Andrade Filho, no Espaço Cultural do Distrito de Carnaúba no município de Senador Georgino Avelino, no Litoral Sul do Rio Grande do Norte.
Para o Secretário Municipal de Educação Edival Lima, ”Val”, o evento é um marco histórico, “visto que será a primeira vez que ocorrerá um lançamento de um livro no município”. Durante o evento, o Professor Val fará a entrega de exemplares do livro para as escolas da cidade e para as Bibliotecas “Carlos Drummond de Andrade”, na sede do município e “Arca das Letras”, no Espaço Cultural.
Como o conteúdo do livro é um ensaio historiográfico sobre a negritude nordestina, os quilombolas da Comunidade Camocim no vizinho município de Arez serão os convidados especiais. Estão sendo convidados também, a Secretária de Cultura de Arez Jane Késia e o Antropólogo Geraldo Barboza de Oliveira Junior, especialista em cultura afro-brasileira e indígena, autor da “orelha” do livro.
Durante o evento, haverá a exibição do documentário “Cangaço e Negritude”, produzido pela Rede Potiguar de Televisão (RPTV). A intervenção musical ficará a cargo do Cantor e Compositor Potiguar Dudé Viana, que entre outras canções de sua autoria, apresentará “Cantofa e Jandi”, poema de Aucides Sales, um dos autores de “Jesuíno Brilhante em História de Quadrinhos”.
Para a Secretária Municipal de Saúde Benícia Bezerra, que no ano de 2005, presidiu a comissão organizadora do I Encontro de Saúde Mental do Litoral Sul, realizado em Senador Georgino Avelino, “o lançamento do livro de Doutor Epitácio será mais uma ação de saúde para seus pacientes”, para tanto, está recomendando às enfermeiras Gizelda Valério Rodrigues, do Hospital de Carnaúba, e Hanna Eulália de Andrade, do Centro de Saúde, mobilizar os usuários e os familiares do Programa de Saúde Mental para tornar o evento, uma atividade sócio-terápica.
O livro “A Saga dos Limões” está chegando a Senador Georgino Avelino, depois de ter sido lançado em várias cidades do Rio Grande do Norte, inclusive em Natal, capital do Estado, na Livraria Siciliano do Shopping Midway Mall, onde se encontra à venda.
domingo, 25 de setembro de 2011
Na era da globalização, o que deveríamos ler? por Umberto Eco
Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler?
“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?
Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?
Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?
Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?
Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.
Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.
Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista). Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”
Tradução: Lana Lim
Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão "O Nome da Rosa" e o "Pêndulo de Foucault". Tradução: Lana Lim
Antropologia é ciência, por Luis Fernando Dias Duarte
O sentido, o significado da experiência humana no mundo é a matéria da antropologia. O sentido das relações sociais, das instituições, dos sistemas de valores e crenças, das linguagens e dos códigos, das práticas simbólicas mais elaboradas às mais corriqueiras, tudo isso se apresenta como desafio a uma compreensão e interpretação integrada e coerente.
A antropologia, assim como as demais ciências humanas, se distingue tanto das grandes formas tradicionais de ordenação do sentido – como os sistemas religiosos, as teologias e as filosofias – quanto das ciências ditas 'exatas', que funcionam dentro de um regime específico de conhecimento: o da visão de mundo naturalista ocidental moderna. Seu recurso metodológico central é o da comparação intercultural.
A comparação cultural se desenvolve sobretudo por meio de uma técnica de imersão nas unidades de significação em estudo – conhecida como “observação participante” –, em situações de pesquisa de campo, com estratégias de objetivação que passam por uma minuciosa reflexão sobre as impressões subjetivas emergentes no contato com a vida alheia.
Antropologia moderna
Destaco três momentos cruciais de constituição do projeto antropológico moderno. O primeiro foi a defesa e descrição pelo filósofo alemão Johann Gottfried von Herder (1744-1803), nos anos 1770, da diferença entre as 'culturas' (o termo ainda não era esse) em oposição ao universalismo iluminista.
Tratava-se de uma das primeiras manifestações da filosofia romântica, que seria crucial para o desenvolvimento das ciências humanas. Mas era ainda uma proposta puramente abstrata, baseada na informação histórica disponível sobre a diversidade das culturas.
Também abstrata foi a primeira proposta de estudo dos “sistemas de parentesco”, ou seja, das formas extremamente complexas pelas quais as diferentes culturas definem as regras matrimoniais – uma atividade crucial para a reprodução social.
A percepção da sistematicidade subjacente à variedade dessas regras foi levada adiante pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan (1818-1881) nos anos 1870. Ele usava material comparativo de segunda mão, mas já tinha uma experiência direta com a observação das culturas tribais da América do Norte.
Os iroqueses, grupo nativo norte-americano que vivia em torno da região dos Grandes Lagos, foram observados de perto pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, considerado um dos fundadores da antropologia moderna.
O desenvolvimento da linguística moderna foi outro patamar fundamental para o estabelecimento do método antropológico. O pesquisador alemão Guilherme de Humboldt (1767-1835) já tinha formulado a ideia de um “espírito da língua” no começo do século 19, mas foi só no século 20 que a linguística estrutural ofereceu um modelo mais nítido à antropologia.
O caráter inconsciente dos fatos linguísticos (todo mundo fala a sua língua, mas ignora as regras dessa fala) completou o modelo mais em voga para a interpretação do pensamento e do comportamento humano na passagem do século 20 para o 21.
Os sentidos da experiência humana
Tudo o que ocorre na experiência humana depende de certas condições de formulação e compartilhamento do seu sentido, e é, assim, passível de uma interpretação antropológica.
A política e a religião, a família e a moralidade, a alimentação e a saúde, o lazer e o trabalho, a arte e a guerra, tudo isso estará presente na coluna Sentidos do mundo, que será publicada na segunda sexta-feira de cada mês na CH On-line. A partir desta semana, pouco a pouco, mês a mês, esses temas serão abordados em um esforço de diálogo com as prioridades da atenção pública em cada momento.
Como se verá, o sentido do mundo não é coisa simples; pode ser óbvio, contraditório, ambíguo, obscuro, estranho, fugidio – e é isso que torna mais fascinante a pesquisa sobre seus meandros. Afinal de contas, é o sentido de nossa vida!
A antropologia, assim como as demais ciências humanas, se distingue tanto das grandes formas tradicionais de ordenação do sentido – como os sistemas religiosos, as teologias e as filosofias – quanto das ciências ditas 'exatas', que funcionam dentro de um regime específico de conhecimento: o da visão de mundo naturalista ocidental moderna. Seu recurso metodológico central é o da comparação intercultural.
A comparação cultural se desenvolve sobretudo por meio de uma técnica de imersão nas unidades de significação em estudo – conhecida como “observação participante” –, em situações de pesquisa de campo, com estratégias de objetivação que passam por uma minuciosa reflexão sobre as impressões subjetivas emergentes no contato com a vida alheia.
Antropologia moderna
Destaco três momentos cruciais de constituição do projeto antropológico moderno. O primeiro foi a defesa e descrição pelo filósofo alemão Johann Gottfried von Herder (1744-1803), nos anos 1770, da diferença entre as 'culturas' (o termo ainda não era esse) em oposição ao universalismo iluminista.
Tratava-se de uma das primeiras manifestações da filosofia romântica, que seria crucial para o desenvolvimento das ciências humanas. Mas era ainda uma proposta puramente abstrata, baseada na informação histórica disponível sobre a diversidade das culturas.
Também abstrata foi a primeira proposta de estudo dos “sistemas de parentesco”, ou seja, das formas extremamente complexas pelas quais as diferentes culturas definem as regras matrimoniais – uma atividade crucial para a reprodução social.
A percepção da sistematicidade subjacente à variedade dessas regras foi levada adiante pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan (1818-1881) nos anos 1870. Ele usava material comparativo de segunda mão, mas já tinha uma experiência direta com a observação das culturas tribais da América do Norte.
Os iroqueses, grupo nativo norte-americano que vivia em torno da região dos Grandes Lagos, foram observados de perto pelo antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, considerado um dos fundadores da antropologia moderna.
O desenvolvimento da linguística moderna foi outro patamar fundamental para o estabelecimento do método antropológico. O pesquisador alemão Guilherme de Humboldt (1767-1835) já tinha formulado a ideia de um “espírito da língua” no começo do século 19, mas foi só no século 20 que a linguística estrutural ofereceu um modelo mais nítido à antropologia.
O caráter inconsciente dos fatos linguísticos (todo mundo fala a sua língua, mas ignora as regras dessa fala) completou o modelo mais em voga para a interpretação do pensamento e do comportamento humano na passagem do século 20 para o 21.
Os sentidos da experiência humana
Tudo o que ocorre na experiência humana depende de certas condições de formulação e compartilhamento do seu sentido, e é, assim, passível de uma interpretação antropológica.
A política e a religião, a família e a moralidade, a alimentação e a saúde, o lazer e o trabalho, a arte e a guerra, tudo isso estará presente na coluna Sentidos do mundo, que será publicada na segunda sexta-feira de cada mês na CH On-line. A partir desta semana, pouco a pouco, mês a mês, esses temas serão abordados em um esforço de diálogo com as prioridades da atenção pública em cada momento.
Como se verá, o sentido do mundo não é coisa simples; pode ser óbvio, contraditório, ambíguo, obscuro, estranho, fugidio – e é isso que torna mais fascinante a pesquisa sobre seus meandros. Afinal de contas, é o sentido de nossa vida!
Couvade, a gravidez masculina, por Raul Iturra
Parece brincadeira, mas não é. Pode-se pensar que acontece apenas em sítios como na etnia Bororó, entre os Sambia da Nova Guiné, ou, ainda, entre os Picunche do Chile. Seria um grande engano para a população. Malinowski no seu livro A Vida Sexual dos Selvagens define a síndrome de couvada, que retoma largamente no seu livro de 1944.
A síndrome referida acontece amiúde entre todos nós. Eu próprio, no dia em que a minha mulher ficou grávida da nossa segunda filha, tive dores de corpo, feridas nas emoções e por tudo e por nada, desmaiava. Foi preciso ir ao analista e em quatro sessões ficou esclarecido para mim que eram ciúmes de ser a minha mulher o centro das atenções e não eu, bem como todos amavam já o pequeno bebé em útero ainda, enquanto eu, o pai de família, era relegado para segundo plano. Mal entendi, o analista disse-me que eu seria um bom psiquiatra: não é, pois, estranho que, na ciência da antropologia, tenha dedicado o meu saber a estudar crianças e criar a especialidade de Etnopsicologia da Infância.
A couvade, como síndrome: … consiste na apresentação de comportamentos similares a uma mulher grávida por parte de um homem, perto da data de nascimento do seu filho, incluindo dores. Também conhecido por gravidez por simpatia, o fenómeno é pouco compreendido embora frequente e não existe uma base fisiológica conhecida. Podem estar presentes sintomas como indigestão, apetite aumentado ou diminuído, ganho de peso, diarreia, obstipação, dores de cabeça, etc..
A Síndrome de Couvade não é uma doença, mas um conjunto de sintomas que podem aparecer nos homens durante a gestação. O pai exprime-se psicologicamente ao assumir a gravidez apresentando sensações semelhantes aos da companheira grávida. Os futuros pais podem engordar, sofrer com enjoos, desejos, crises de choro ou mesmo depressão. Para que isso não traga nenhum desconforto ao casal, é preciso estar atento a esses sinais e, cada vez mais, orientar os futuros pais e mães, explica Alberto D´Auria, ginecologista, obstetra e director da Pro Matre Paulista.
A nossa cultura de Pater Famílias, definida pelo Código Civil Napoleónico de todos os países de hábitos latinos, coloca o homem em primeiro plano: ele manda, diz, fica enraivecido se as coisas não acontecem como quer. Mas, uma mulher grávida é digna de todo o respeito e cuidado, não deve trabalhar nem andar por todos os sítios apenas para ganhar poucos cêntimos mais, normalmente para o pressuposto familiar. Respeito que o neo liberalismo não aceita, fazendo a mulher trabalhar como mais um homem até ao final da gravidez.
As Senhoras, as nossas Amigas, sem as que não conseguimos viver, aceitam-no, como comento num texto meu. Defendo que devem ser tratadas com a maior dignidade, como as mulheres das etnias citadas.
O que tenho observado dentro da nossa cultura, é que, mesmo grávida, a mulher deve servir o homem, quer em casa, quer no trabalho, lavar a sua roupa, acarinhá-lo como a um bebé. Quanto mais mulheres grávidas haja, mais couvadas existem. Vergonha para o homem que não simpatiza com a mãe dos seus filhos, passando a ser uma espécie de bebé adulto, cheio de pêlos e com mau cheiro.
Muito haveria para dizer, mas não há espaço. As mulheres devem-se defender das loucas ilusões dos maridos, que chegam a bater nelas por estarem grávidas... Para saber mais, pode ler o meu livro de 200 páginas: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, texto e(m) português, como eu. Haja deus! Todo o homem que abuse da mulher engravidada por ele merece punição…, por maricas.
* Professor Catedrático do ISCTE-IUL; Membro do CEAS-CRIA e membro activo de Amnistia Internacional e de Human Rights Watch
__________
Tribo indígena brasileira do estado do Mato Grosso. A sua língua falada toma o mesmo nome. O seu tronco linguístico é o Macro-Jê, auto-denominada Boe. Os Bororós também são conhecidos por “Coroados” ou “Parrudos”.
Analisados pelo Antropólogo Norte-americano David Herdt no seu trabalho de campo, do qual resultou o livro: The Sambia. Ritual and Gender in New Guine, 1987, editado por Holt, Rinehart and Winston, Chicago e Londres, onde diz: O modelo biológico do masculino e do feminino é válido para a definição celular; mas seria ilusório pensar que a identidade sexuada poderia ser definida a partir do biológico, a despeito das esperanças daqueles que nele quisessem encontrar uma solução para os problemas de identidade: isso seria ignorar que o essencial da sexualidade humana reside na sua dimensão inconsciente.
Quando tentamos definir em bases “sólidas” os termos masculino e feminino, encontramonos numa situação bastante incómoda. De facto, poucas palavras condensam conteúdos tão pesados e tão difíceis de precisar quanto masculino e feminino. Falar, como se faz frequentemente, em “características femininas”, como a graça, ou “masculinas”, como a coragem, é ater-se a definições tautológicas, limitadas a um sistema binário que repete indefinidamente, ainda que de formas variadas, as mesmas cópias. Com efeito, as mulheres da idade da pedra possuíam a graça e o recato daquelas que Cervantes descreve no seu Don Quixote? Referido in passim, entre as páginas 67-97 do mencionado livro, ou no artigo em:
Estudados por mim entre 1997 - 2004. O resultado está em três livros, especialmente no de 2000: O saber sexual das crianças, Afrontamento, Porto, ou no que está guardado no repositório do ISCTE-IUL, ligação:
http://repositorio.iscte.pt/ e no repositório nacional e internacional, ligação
http://www.rcaap.pt/
Livro intitulado O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, Março 2009. Editado em 1927 pela Routledge and Kegan Paul, Londres, texto que define couvada como: um conceito usado para referir um grupo de homens relacionados pelas práticas masculinas conectadas ao nascimento de crianças, especialmente em sociedades primitivas, mas muito praticada entre nós, na Europa. O Ritual e a síndrome couvade, são debatidos no texto como o desejo do homem de ter mais participação na gravidez da sua mulher. Neste contexto, o ritual couvada é uma analogia primitiva do desejo dos homens actuais em assumirem um papel mais activo e importante no nascimento dos seus filhos.Livro que pode ser lido em francês, em:
. Há uma versão portuguesa, em formato de papel (1979 1ª edição), 1983, Editora Francisco Alves, Rio de Janeiro. Considero a 2ª edição melhor do que a anterior, por isso é a que normalmente uso.
Malinowski define detalhadamente a síndrome de couvade, no Capítulo 4 (página28 à 94), do livro datado de 1944:Uma teoria científica da cultura, que pode ser lido em:
http://classiques.uqac.ca/classiques/malinowsli/theorie_culture/theorie_culture.docRetirado da minha análise com as palavras de rede de psicologia:
http://redepsicologia.com/sindrome-de-couvade-gravidez-por-simpatiaComentado no Jornal em Linha, O Progresso, a que pode aceder em
http://www.progresso.com.br/not_view.php?not_id=41Mulher a crescer, machismo a tremer, in Jornal “a Página”, ano 9, nº 94, Setembro 2000, p.25.
Gestão social e políticas culturais, por Geraldo Barboza de Oliveira Junior
Gestão social é a gestão das ações públicas. Esta objetiva a promoção do bem estar dos cidadãos e a redução das desigualdades através da gestão governamental e privada de interesse público. Neste sentido, a gestão destas políticas deve ser de interesse e responsabilidade do Poder Público, do Terceiro Setor e da Sociedade Civil Organizada. Neste artigo pretendo enfocar a necessidade de que as políticas que tratam das diversas expressões culturais dos municípios sejam pensadas enquanto ação social. Neste sentido, temos dois grandes desafios: a) A formulação de uma agenda única para o Poder Público, o Terceiro Setor e a Sociedade Civil que contemple demandas e necessidades das diversas expressões culturais. b) A adequação da estrutura e funcionamento do governo, seja ele federal, estadual ou municipal, para implementar políticas sociais que venham ao encontro dessas expressões culturais. Isto feito, nós estamos a caminho de um efetivo Desenvolvimento Social.
Entendendo a Cultura como mola mestre desse desenvolvimento. Cabe ainda uma pergunta: como alavancar este desenvolvimento social? A maneira mais simples, e que mais tem dado certo, é através da criação de Redes de Compromisso Social numa perspectiva cooperativa entre Sociedade e Estado. Uma Rede de Compromisso Social se configura a partir de uma idéia e objetivos compartilhados, preservada a identidade de cada ente ou grupo em conexão. A principal característica de uma Rede de Compromisso Social é a possibilidade da promoção da autonomia de seus integrantes na adesão e preservação de suas identidades particulares. Dado que, a maior parte das organizações que se articulam são de origens diferentes é preciso instalar, na rede de compromisso social, uma visão transdisciplinar das questões sociais, uma prática intersetorial e a responsabilidade com os resultados. Visão transdisciplinar significa reconhecer que a efetivação de direitos universais não pode ser alcançada setorialmente, pois seus condicionantes e determinantes sociais, econômicos e culturais estão verdadeiramente “tecidos em conjunto”.
A Rede de Compromisso Social demanda um processo forte de comunicação que mostre e propicie o fortalecimento do sentido de pertencimento, de uma identidade compartilhada, nutrindo a ação solidária. Assim, considera-se possível uma melhoria na gestão das políticas sociais e partir da articulação de Redes de Compromisso Social, envolvendo organizações da Sociedade e do estado, com uma visão plural no planejamento e realização de ações com base geográfica e populacional.
Pensar em cultura neste sentido significa pensar a realização de ações que contemplem todas as expressões culturais existentes na área de atuação dos Poderes Públicos. E, não somente, as expressões que consideramos pertinentes ou de acordo com os nossos valores – que geralmente são valores de classe média. Pensar em ações que propiciem uma efetiva política cultural significa promover ações que resultem numa construção de uma identidade coletiva. Seja, este coletivo, de âmbito municipal, estadual ou nacional.
É mister que os gestores públicos pensem a cultura como um elemento transformador da realidade. Não como um elemento conformador das condições sociais. Um programa de políticas culturais não deve ser apenas o apoio a artistas ou artesãos. Vai bem mais além. Como resultado deve mostrar uma visível transformação social.
Entendendo a Cultura como mola mestre desse desenvolvimento. Cabe ainda uma pergunta: como alavancar este desenvolvimento social? A maneira mais simples, e que mais tem dado certo, é através da criação de Redes de Compromisso Social numa perspectiva cooperativa entre Sociedade e Estado. Uma Rede de Compromisso Social se configura a partir de uma idéia e objetivos compartilhados, preservada a identidade de cada ente ou grupo em conexão. A principal característica de uma Rede de Compromisso Social é a possibilidade da promoção da autonomia de seus integrantes na adesão e preservação de suas identidades particulares. Dado que, a maior parte das organizações que se articulam são de origens diferentes é preciso instalar, na rede de compromisso social, uma visão transdisciplinar das questões sociais, uma prática intersetorial e a responsabilidade com os resultados. Visão transdisciplinar significa reconhecer que a efetivação de direitos universais não pode ser alcançada setorialmente, pois seus condicionantes e determinantes sociais, econômicos e culturais estão verdadeiramente “tecidos em conjunto”.
A Rede de Compromisso Social demanda um processo forte de comunicação que mostre e propicie o fortalecimento do sentido de pertencimento, de uma identidade compartilhada, nutrindo a ação solidária. Assim, considera-se possível uma melhoria na gestão das políticas sociais e partir da articulação de Redes de Compromisso Social, envolvendo organizações da Sociedade e do estado, com uma visão plural no planejamento e realização de ações com base geográfica e populacional.
Pensar em cultura neste sentido significa pensar a realização de ações que contemplem todas as expressões culturais existentes na área de atuação dos Poderes Públicos. E, não somente, as expressões que consideramos pertinentes ou de acordo com os nossos valores – que geralmente são valores de classe média. Pensar em ações que propiciem uma efetiva política cultural significa promover ações que resultem numa construção de uma identidade coletiva. Seja, este coletivo, de âmbito municipal, estadual ou nacional.
É mister que os gestores públicos pensem a cultura como um elemento transformador da realidade. Não como um elemento conformador das condições sociais. Um programa de políticas culturais não deve ser apenas o apoio a artistas ou artesãos. Vai bem mais além. Como resultado deve mostrar uma visível transformação social.
Cantiga do Vinho, de Jairo Lima
agora que o vidro fino do ar
está em Teu lugar
como o murmúrio de um sol ausente
agora que entre mim e o elo de Tua mão
se interpõe uma antiga canção
e um caminho de ventos
e tua Ausência pesa como um deus
a quem negaram febres e incensos
agora que só restam as garras da memória
para me manterem preso ao Teu nome
faz desta dor cravada em minhas horas
uma porta que me leve ao Teu agora
pássaro da noite, ateu,
se em teus poderes cabe
a glória de esquecer
o que te roubou a tarde
no esplendor do teu ninho
faz desta dor uma taça
para uma urgência de vinhos
está em Teu lugar
como o murmúrio de um sol ausente
agora que entre mim e o elo de Tua mão
se interpõe uma antiga canção
e um caminho de ventos
e tua Ausência pesa como um deus
a quem negaram febres e incensos
agora que só restam as garras da memória
para me manterem preso ao Teu nome
faz desta dor cravada em minhas horas
uma porta que me leve ao Teu agora
pássaro da noite, ateu,
se em teus poderes cabe
a glória de esquecer
o que te roubou a tarde
no esplendor do teu ninho
faz desta dor uma taça
para uma urgência de vinhos
Uma ópera na roçaa, de Márcio Sampaio
As férias na fazenda de meu padrinho completavam, ano a ano, o circulo mágico que formava os meus dias de menino. À tardinha, brincando no gramado limpo em frente à casa grande, sentia fundo aquela calma sem culpa. À medida que começava a anoitecer, entre risadas do jogo da bola ou outra brincadeira, ouvíamos, em concerto, o coro das aves se recolhendo aos poleiros; galos, galinhas e seus pintos, os patos, perus e mais as galinhas d’angola, sempre barulhentas e retardatárias, entravam na cantoria com suas vozes escandalosas. Os cachorros alegres acompanhavam a entrada do gado no curral, ajuntando suas vozes ao aboio dos vaqueiros. Bezerros e vacas berravam cheios de mansidão, e os pássaros em seus ninhos faziam o acompanhamento. Como um contraponto, o violoncelo da água do riacho tocando o moinho na sua incansável tarefa de triturar o milho e fazer fubá.
Meu padrinho Quintiliano, da varanda, regia em brados, às vezes impacientes, o movimento dos agregados na recolha do gado ao curral. “Ô Pifânio, a Vitória tá subindo, cerca lá, Remundo... Ô Zé, tá dormindo em pé? Olha a bezerro malhado! Quê que está acontecendo?” Seus gestos de maestro e o olhar agudo eram percebidos à distância, e os executantes, no movimento presto, iam pressurosos atendendo àquela extraordinária regência. Este leque de sons e movimentos, cheios de vitalidade e uma forte pulsação, constituía o prelúdio.
Era então a hora em que a tia Marieta ligava a vitrola, junto à varanda e colocava em bloco a pilha de dez discos escolhidos para aquela noite. O programa se iniciava com a Ave Maria, de Bach/Gounod, cantada por Caruso. Depois vinham Tito Scchipa, Jussi Björling, Beniamino Gigli, a extraordinária Erna Zack com seus magníficos trinados - as áreas-solo, os duetos e os corais das óperas italianas e francesas; havia também Mozart e Wagner. E esta música se misturava ao coral dos animais, bem mais cedo iniciado, ao qual, noite adentro, iriam incorporar-se também os cantos impacientes dos sapos e alguns pássaros noturnos.
Encerrada essa música divina, vinha um breve momento para a oração comunitária - toda a família, mais os empregados rezavam o terço e a ladainha diante do altar de Nossa Senhora do Rosário; os meninos, impacientes, fazendo as brincadeiras às costas do Padrinho. Tia Marieta, fingia-se de brava, mas com a mão na boca, tremia com o riso sufocado. E vinha então outra sessão de delícias - o café da noite, lautamente servido.
Tínhamos enfim um momento de congraçamento geral junto com os empregados, na cozinha, outro espaço mágico de histórias e brincadeiras. O sono longo, cheio de sonhos, ora alegres ora aterrorizantes, vinha com um fundo de música. E aqueles personagens de ópera me visitavam com freqüência, solicitando-me que os redimisse de seus destinos cruéis. Eu os salvava todos, inventando melhores finais para suas tristes vidas. Nada de morte por punhais ou tísica, nada de fogueiras, chifradas de touros, estrangulamentos por ciúmes, haraquiris.
Quero a alegria, a felicidade geral, os risos e as brincadeiras. Que a pungência sentida por aquelas ainda incompreendidas expressões da grande arte, seja subjugada pela música alegre do galo anunciando o amanhecer.
Da arte de ser falso, Jornalista Vicente Serejo
Tenho a impressão, Senhor Redator - e perdoe se a alma transborda de exagero - que os falsos de toda espécie não têm cura. Não lhes é dado ao menos a consciência de que falsificam a vida como uma maldição. É preciso ter olho capaz de flagrar, mesmo quando vestem a capa e a espada da vaidade nos jogos sociais, e vão enganando a todos, convencidos de que não serão vistos no seu disfarce, com o requinte que sabem exercer como se uma arte fosse, entre soslaios. Mas, em compensação, não há falsos perfeitos. Eles sempre se revelam, nas suas relações oficiais e até com amigos. Gostam dos ricos e poderosos, em quem inventam nobrezas, cegos que são ao limite de todas as coisas. Daquela terrível e quase invisível servidão voluntária que um dia La Boétie denunciou. E há os habilidosos e discretos que enganam melhor porque são cuidadosos e se protegem da luz da opinião pública que a tudo sabe expor e iluminar sem pudor. Há os falsos bem dotados de inteligência, bem adestrados no trato, maneirosos nos gestos, solícitos nos sorrisos. É fácil vê-los - se não notem que são vistos - e até seguidos a cada palavra, gesto, a cada passo. Em alguns, não se há de negar, o disfarce é quase perfeito com seu verniz intelectual que adorna o bestunto aos olhos dos incultos. E assim vão vivendo, fraudando o olhar das almas de boa fé, mesmo cativos dos sabidos que sabem prendê-los pelo vício da servidão. É bom, para melhor conviver na dissimulação, não subestimar-lhes o faro aguçado que a tudo registra. Melhor olhar os seus gestos e ouvir suas palavras como se não houvesse ninguém a olhar, a ouvir. Olhos bem oblíquos, os ouvidos postos noutra direção. Nada como respeitar-lhes a fantasia de ogros, eles cobertos com a falsa alegria dos losangos coloridos e arlequinais. Palhaços sem maquiagem, neles a boca vermelha que gargalha vive escondida numa velha gaveta da alma. E depois, cuidado. Eles andam por ai. Suas gravatas refletem sob os refletores da luzidia vida social e eles se estiolam em gestos, ademanes e meneios solenes, principalmente se nascidos dos remorsos inconfessáveis. Velhos feiticeiros da servidão humana, são alquimistas do falso e por isso dominam a arte da dissimulação. Alguns, de tão afetados, manipulam a própria vaidade nos seus punhos de arminho, presos ao ornato das abotoaduras, como se não fossem percebidos.Por isso é indispensável ter olhos escondidos. E pô-los em algum lugar invisível só para vê-los no volteio das verônicas que ensaiam nos bailes de máscara. Sim, é na festa onde melhor revelam seus rituais. E, para decifrá-los, basta segui-los. Nos toques; no olhar inquieto; na tosse nervosa; no esgar perverso; no silêncio doído que foge dos olhos como se nascesse da inveja ou da pobreza de alma que só eles, os falsos, sabem esconder sob os velhos títulos que chacoalham.
A intolerância contra o candomblé - a raiz do racismo brasileiro
Entrevista com o antropólogo Reginaldo Prandi
Uma das maiores autoridades no estudo das religiões afro no País, Reginaldo Prandi, autor do livro “Mitologia dos orixás”, explica a raiz histórica dos preconceitos contra a umbanda e o candomblé e alerta: há um projeto de aniquilação das tradições religiosas africanas no Brasil. E elas correm risco de serem extintas.
Como o senhor interpreta a imagem do candomblé na sociedade hoje?
O candomblé tem grande visibilidade no turismo, especialmente na Bahia e sua presença na música popular brasileira e em obras de artistas como Dorival Caymmi e Jorge Amado é muito grande. Mas também tem um aspecto cultural negativo de grande popularidade.
Qual é esse aspecto negativo?
É essa imagem de feitiço, coisa mal-feita e a relação com o diabo, que faz parte do imaginário. Quando as pessoas se referem a algo muito ruim, usam as palavras macumba, despacho, feitiço. É uma realidade superficial e distante da realidade mítica e ritualística de um terreiro.
Por que acontecem tantas disputas religiosas?
Toda religião é uma fonte de verdade e fica muito centrada em si mesma. Se você tem a sua verdade, a do outro está errada. Isso vale de católicos para evangélicos, de evangélicos para afro e até dentro do próprio candomblé. Além disso, algumas religiões tornam a conversão como parte da missão religiosa. Para ser um bom religioso, você tem que trazer para o seu credo e a sua verdade os outros credos que estariam todos errados. Religião é uma disputa, por isso há tantas guerras em nome da religião.
Mas algumas religiões são mais tolerantes do que outras…
O candomblé, por exemplo, é religião politeísta (que tem um panteão com vários deuses), como a grega e romana. Não há falta de mérito nisso. Existe a idéia de Deus supremo, criador, mas na maioria dos eventos do dia-a-dia, ele não interfere. Quem cuida do emprego é Xangô, da fertilidade, Oxum, e sucessivamente. As religiões politeístas têm facilidade de assimilar deuses estrangeiros e os trata em posição de igualdade. Embora seja extremamente próprio de cada religião defender a sua verdade como a única e combater a fé alheia, gerando uma grande possibilidade de conflitos e perseguições, o candomblé tem outra prática de aceitar o outro com mais facilidade. Prova disso é o sincretismo. Oxalá, por exemplo, foi sincretizado com Jesus Cristo.
Como o senhor vê o avanço da intolerância religiosa no Brasil?
Como cada denominação das religiões evangélicas se vê como grande verdade levada aos outros pela conversão, o proselitismo é muito grande. A tolerância não faz parte do universo deles. O alvo preferencial são os afro-brasileiros. Os católicos também são alvo, mas não se pode dizer que são demoníacos porque são igualmente cristãos. Já o afro pensa que a religião de todo mundo tem algo bom e interessante.
Qual sua visão sobre o futuro desses conflitos religiosos?
Mais de 90% do avanço pentecostal se faz em cima da religião católica e pequena parte em cima dos afro. Mas como são pequenininhos, o pouco que lhes é tirado representa muito. A umbanda está diminuindo de tamanho. Há favelas em que os terreiros foram extirpados. Uma quadrilha também pode se associar a um pastor e fechar todos os terreiros.O Brasil faz de conta que não está vendo. Isso se agrava porque o presidente da República tem relações de simpatia com algumas das igrejas mais agressivas. A umbanda e candomblé não são um parceiro político interessante. Quando entra nessa história é vítima. Já faz 20 anos que a umbanda vem diminuindo e cada vez mais por perseguição evangélica. Se esse processo não é estancado, o que vai acontecer?
Um dos maiores problemas enfrentados pelas comunidades de candomblé para sobreviver é a descentralização. Muitas vezes, há divergências sobre o culto e os rituais dentro das próprias nações.
Às vezes, existem divergências dentro do próprio candomblé…
Você não tem uma religião afro-brasileira, mas várias. Dentro de cada uma, há grande diversidade de nações e ritos diferentes, de acordo com as origens étnicas dos grupos fundadores. Dentro da religião, há grupos que conhecem muito pouco os outros.
A falta de união entre as comunidades gera uma dificuldade de se articular politicamente.
Qual a raiz histórica dessa descentralização?
Os terreiros não se unem nem se organizam, o que gera uma fraqueza para se defender.A religião afro tem origem no culto doméstico. As relações são sempre simbolizadas pelo parentesco. Existe o pai-de-santo, filho-de-santo, a casa-de-santo, como se fosse família. Então, ainda segue essa idéia de que cada chefe de família é responsável pela sua família. Não implica responsabilidade com o outro. Cada comunidade é totalmente autônoma.
Como surgiu o candomblé no Brasil?
No século 19, quando os negros já vivem nas grandes cidades litorâneas e trabalham em serviços urbanos, como escravos de ganho, ganhando mobilidade. Na senzala e no campo, eles viviam totalmente isolados, não tinham contato com os escravos de outra fazenda, eram segregados. Nas cidades, passam a fazer os serviços manuais, porque os brancos não trabalhavam. Um dia por semana, o dinheiro de seu trabalho era para seu sustento, nos outros dias, ia para o senhor. Com isso, os escravos começam a se sustentar e morar em bairros negros.
Qual a primeira casa de candomblé?
A que resistiu e perdurou até hoje, conhecida na nação ketu é a Casa Branca do Engenho velho, na primeira metade do século 19. Dali saiu o Gantois, fundado por Maria Julia da Conceição. É comum até hoje, quando a mãe-de-santo morre, quem perde a indicação para a sucessão do terreiro sair e fundar outra casa. Foi assim que a turma de Mãe Aninha e outras figuras importantes fundaram o Axé Òpó Àfonjá. A casa principal foi erguida em 1910. Há quem afirme que o a casa de Mãe Aninha do Rio seja mais antiga do que a da Bahia.
Onde o candomblé começou a se formar?
Em reuniões religiosas que aconteciam dentro da Igreja da Barroquinha. Um incêndio na igreja destruiu a documentação sobre a época. As igrejas são valiosos acervos históricos pois tudo que acontecia era documentado pelos religiosos. A preocupação com esse patrimônio, assim como o arquitetônico, é recente no Brasil. O país teve um ministro que mandou queimar os arquivos da escravidão para “apagar essa mancha histórica brasileira”, que foi Ruy Barbosa, considerado um gênio. Imaginava-se isso, que se apagava o passado, apagando-se a memória. Ainda bem que tiveram preguiça até de fazer isso e pouco foi perdido.
A demonização de figuras do candomblé, especialmente de Exu, já se tornou um traço marcante da sociedade brasileira. Essa idéia foi construída desde a chegada do colonizador português à África.
Por que a figura de Exu foi demonizada no Brasil?
A demonização começa na África com a chegadas dos europeus. O Exu já na África sofre grande sincretismo. Como é o orixá mensageiro do panteão foi sincretizado com outra entidade Elegbara, o mensageiro do panteão dos povos fon, que deram origem ao Jeje brasileiro. Elegbara é o deus com funções de reprodução. Logo, seu culto tem imagens fálico, falos eretos. Todas as religiões panteístas têm divindades importantes ligadas à reprodução humana e à fertilidade do solo, a fartura dos alimentos. Essas funções de Elegbara foram passadas para Exu.
E quando começa a associação de Exu ao diabo católico?
Quando chegaram os primeiros colonizadores europeus aos territórios africanos, se depararam com o culto de orixás e voduns (divindades fons). Esses missionários cristãos tinham objetivos de “cristianizar o mundo selvagem”. Quando viram altares de forma fálica, atribuíram a algo demoníaco. O catolicismo é uma religião que aboliu a sexualidade do horizonte humano, de profunda repressão. Exu recebeu a pecha de diabo e não se livrou.
Qual a característica de Exu no candomblé?
No candomblé, não há idéia de bem e mal como coisa inconciliável. Quem faz essa oposição é o mundo cristão. Para o afro, o bem e mal são faces da mesma moeda e estão presentes em todas as coisas. O Exu deve ser pago pelo seu trabalho como todo deus mensageiro em qualquer tradição religiosa. Quando qualquer orixá é evocado, antes se evoca Exu, porque sem ele não há a comunicação com as divindades. ele antes em qualquer lugar, se Exu não participa não há comunicação.
Existiam outros deuses com essa função em outras culturas?
Lar, palavra que hoje significa domicílio, casa, é um antigo deus cultuado por povos da peninsula itálica. As pessoas tinham em casa altares com falos eretos. Eram tratados com profundo respeito porque a reprodução e a sexualidade são consideradas fontes da vida. Esse deus que protegia, presidia a sexualidade que permitia a reprodução e o fluxo de alimentos através da fertilidade da terra é responsável pela sobrevivência humana.
Há outros aspectos demonizados em Exu?
Para o mundo católico, Exu trabalhar por dinheiro é uma coisa horrível e própria do mal. O sincretismo foi juntando características entre os santos cristãos e os deuses afro. Iemanjá, a grande mãe por excelência, foi associada a Nossa Senhora. Oxalá a Jesus Cristo. E sucessivamente. Faltava um diabo entre os orixás e o candidato por excelência foi Exu.
Outras culturas que receberam povos afro procederam assim?
Em Cuba, o Exu é chamado de Eleguá, vem de Elegbara, e foi sincretizado com o Menino Jesus. Um sincretismo completamente oposto. Tanto que em Cuba muita gente é filha de Eleguá, enquanto no Brasil é raro ter filho de Exu. As pessoas morrem de medo de Exu. Muita gente que é filha de Ogum, na verdade, é filha de Exu. Em Cuba, a função da sexualidade é atribuída a Xangô que tem símbolos fálicos, como o taco de baseball. Xangô quando dança, fica com o taco nas pernas como se fosse falo ereto.
E a figura da pombagira?
A mentalidade católica acredita que a mulher é a grande pecadora, a fonte de pecado desde Eva. Tinha que associar um pouco a figura feminina a Exu. A pombagira acabou sendo a representação mais explícita da sexualidade proibida, perigosa e ao mesmo tempo muito desejada por todos. É uma grande construção cultural e ponto de conflito e perseguição na oposição das religiões evangélicas. São sempre figuras de bordel, associadas a vida desregrada.
A seguir, alguns dos relatos de como ocorre a intolerância no dia a dia:
“Eu estava praticamente me prostituindo, cheguei a levar drogas na mochila. Hoje, sou um novo homem. O candomblé é tudo na minha vida”. Nas memórias do jovem Carlos (nome fictício), de 20 anos, a adolescência é sinônimo de farras, promiscuidade e proximidade com o crime. Foi na religião que o rapaz conta ter encontrado equilíbrio. A escolha teve preço alto: a convivência com a família. Ao se iniciar, Carlos deixou o Complexo da Penha.
- Na Vila Cruzeiro, é uma gargalhada de pombagira e um tiro na cabeça. Roupas de santo, guias, tudo tem que ser muito escondido. Não posso morar lá - declara o jovem.
Os símbolos sagrados das religiões também são alvos da violência. Em junho, a depredação do centro umbandista Cruz de Oxalá, no Catete, causou comoção popular.
Quatro meses depois, a violência voltaria a se repetir. Dessa vez, a vítima foi Nádia Maria Correa Cursino, de 53 anos, a Mãe Nádia de Oyá.
Após 30 anos de vida religiosa, ela sentiu que estava na hora de abrir sua casa-de-santo. Alugou imóvel em Interlândia, Belford Roxo. O sonho durou apenas dois meses. Ao retornar de uma viagem, em outubro, foi até o terreiro. O cadeado havia sido trocado. Nádia só conseguiu entrar com a polícia. O cenário era desolador.
- Não sei dizer o que senti. Quebraram todos os meus santos, só ficaram meu Xangô, para que eu lutasse por Justiça, e a Iansã. Eram santos que estavam comigo a vida inteira. Tinha jóias de ouro em alguns assentamentos (esculturas e objetos sagrados reunidos em louvor aos orixás durante toda a vida religiosa). Nada foi devolvido. Eu chorei muito, muito - diz Nádia, que registrou o caso na 54 DP (Belford Roxo) e tem a primeira audiência marcada para março no Juizado Especial Criminal. Os agressores eram da família do proprietário.
- Não teria coragem de jogar uma Bíblia no lixo porque é sagrada para alguém. Onde nós vamos parar com essas agressões? - encerra.
De vítima da intolerância a palestrante no colégio. Ontem, o estudante Felipe Gonçalves Pereira, de 13 anos, foi recebido pelo secretário de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso. A melhor notícia dada pelo secretário ao menino será a realização de um seminário na Faetec para alunos e professores abordando assuntos como fé, cultura e tolerância religiosa.
- Será muito importante para que as pessoas aprendam e entendam a minha religião. Estou muito feliz e agora quero voltar à escola - diz Felipe, que cumpre os três meses de preceito do candomblé e foi discriminado ao mostrar um fio de conta escondido sob seu uniforme escolar.
Alexandre Cardoso também anunciou que serão instalados centros digitais em dez casas de santo. O objetivo é que os terreiros se tornem polos de produção de pesquisa sobre as religiões de matriz africana no Rio. O projeto foi discutido com o pedagogo Ivanir dos Santos, membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Para o secretário, a história de Felipe se tornou um símbolo da luta contra a discriminação.
- Todos devemos desculpas a Felipe. Mas ele será um exemplo da posição do governo contra a discriminação - encerra o secretário.
Eram 19h30m do dia 7 de maio de 2002. Dona Anita, de 75 anos, lembra que passava a novela na televisão. Dois homens armados - um deles com uma metralhadora - invadem o terreiro dirigido por seu filho, em Campo Grande. Encostam arma no rosto do pai-de-santo. A família pede pelo amor de Deus pela vida do religioso. Toca o telefone celular do agressor. O grupo interrompe a ação, vai embora e dá ultimato: a família deve se mudar em 24 horas.
A família vive até hoje em uma cidade do interior do país. Nunca mais voltou ao terreiro desde aquela noite. E nem ao Rio.
- É um dia muito triste, a gente quer esquecer. O carro estava do lado de fora para levar o corpo do meu filho - conta Dona Anita.
O motivo das ameaças e da invasão ao terreiro nunca foi esclarecido. Mas a briga do pai-de-santo com líderes de outras religiões na área - a resistência ao candomblé começava a se tornar forte em áreas da Zona Oeste - é vista como provável causa da intimidação.
- Foi um desespero, nem podemos pegar nossas coisas. Foram amigos que voltaram para recolher tudo - lamenta Dona Anita.
A dona-de-casa Dulcinéia dos Santos, de 45 anos, não foi ao casamento de dois de seus cinco filhos. Jamais conversa com as noras e só conseguiu pegar a neta no colo uma vez, porque a encontrou por acaso na rua. Tamanha indiferença não foi causada por nenhuma briga ou disputa familiar. A intolerância religiosa desatou todos os laços que uniam a mãe aos filhos. Candomblecista, ela se magoa ao lembrar que a mulher de seu filho a acusa de carregar “77 demônios” por pertencer à religião de matriz africana.
- Ela diz que se eu for à casa dela, deixarei um demônio lá. Se a menina ficar doente, a culpa é minha. São mentes atrasadas, eles repetem o que escutam na igreja deles. Criticam porque não conhecem. Nossa religião não é macumba nem feitiçaria. - afirma a dona-de-casa.
Dulcinéia se iniciou na religião, por amor ao filho mais jovem que ficou doente de forma repentina. Condenado pela medicina tradicional, o garoto ficou curado dentro de um barracão de candomblé. A conversão lhe custou os mais velhos.
- No Natal e no meu aniversário, não recebo nenhum telefonema. Às vezes, minha neta acena para mim da janela. Ela nem me reconhece como avó. Meu maior sonho é recuperar minha família - desabafa Dulcinéia.
Joana (nome fictício), 44 anos, também é mãe e sofre como Dulcinéia. Mas seu problema não é a distância da filha, de 11 anos. Mas o problema de saúde da menina, que sofre de síndrome do pânico desde que o pai a levou para uma cerimônia de exorcismo.
Na época do casamento, Joana tinha a mesma religião que o marido. Após a separação, um grupo de religiosos invadiu sua casa para “retirar o demônio”. Ela os expulsou. Mais tarde, tornou-se umbandista e sua filha passou a fazer parte de um grupo de evangelização de um centro kardecista. O pai decidiu “exorcizá-la”.
- Minha filha acorda gritando e tem pesadelos. Ela ficou traumatizada porque o grupo de religiosos gritava pelo “capeta” com as mãos na cabeça dela. Na época da separação, também disseram que eu estava endemoniada, mas eu não podia delatar, porque era da religião e não podia levar “irmão em juízo” - diz Joana.
A partir deste ano, denunciar crimes de intolerância, como o vivido pela família, ficará mais fácil. A secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial firma uma parceria com o Ministério da Justiça para criação de delegacias especializadas em intolerância religiosa e crimes étnico-raciais no País. O objetivo é potencializar a unidade de São Paulo, que já existe, e implementar ainda esse ano no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia
. Nas delegacias, trabalharão policiais especialmente treinados para identificar todo tipo de ofensa. E também psicólogos e assistentes sociais que possam ajudar nos casos. A secretaria trabalha na elaboração de uma lei específica sobre intolerância para apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo é que ele apresente o projeto de lei no Congresso Nacional.
- O preconceito é pre-histórico, não coaduna com nosso tempo. É aberração, horror que um aluno sofra preconceito do professor na escola. Inquérito tem que seguir o curso, não pode ficar na gaveta - diz o secretário-adjunto do órgão Eloy Ferreira
Uma das maiores autoridades no estudo das religiões afro no País, Reginaldo Prandi, autor do livro “Mitologia dos orixás”, explica a raiz histórica dos preconceitos contra a umbanda e o candomblé e alerta: há um projeto de aniquilação das tradições religiosas africanas no Brasil. E elas correm risco de serem extintas.
Como o senhor interpreta a imagem do candomblé na sociedade hoje?
O candomblé tem grande visibilidade no turismo, especialmente na Bahia e sua presença na música popular brasileira e em obras de artistas como Dorival Caymmi e Jorge Amado é muito grande. Mas também tem um aspecto cultural negativo de grande popularidade.
Qual é esse aspecto negativo?
É essa imagem de feitiço, coisa mal-feita e a relação com o diabo, que faz parte do imaginário. Quando as pessoas se referem a algo muito ruim, usam as palavras macumba, despacho, feitiço. É uma realidade superficial e distante da realidade mítica e ritualística de um terreiro.
Por que acontecem tantas disputas religiosas?
Toda religião é uma fonte de verdade e fica muito centrada em si mesma. Se você tem a sua verdade, a do outro está errada. Isso vale de católicos para evangélicos, de evangélicos para afro e até dentro do próprio candomblé. Além disso, algumas religiões tornam a conversão como parte da missão religiosa. Para ser um bom religioso, você tem que trazer para o seu credo e a sua verdade os outros credos que estariam todos errados. Religião é uma disputa, por isso há tantas guerras em nome da religião.
Mas algumas religiões são mais tolerantes do que outras…
O candomblé, por exemplo, é religião politeísta (que tem um panteão com vários deuses), como a grega e romana. Não há falta de mérito nisso. Existe a idéia de Deus supremo, criador, mas na maioria dos eventos do dia-a-dia, ele não interfere. Quem cuida do emprego é Xangô, da fertilidade, Oxum, e sucessivamente. As religiões politeístas têm facilidade de assimilar deuses estrangeiros e os trata em posição de igualdade. Embora seja extremamente próprio de cada religião defender a sua verdade como a única e combater a fé alheia, gerando uma grande possibilidade de conflitos e perseguições, o candomblé tem outra prática de aceitar o outro com mais facilidade. Prova disso é o sincretismo. Oxalá, por exemplo, foi sincretizado com Jesus Cristo.
Como o senhor vê o avanço da intolerância religiosa no Brasil?
Como cada denominação das religiões evangélicas se vê como grande verdade levada aos outros pela conversão, o proselitismo é muito grande. A tolerância não faz parte do universo deles. O alvo preferencial são os afro-brasileiros. Os católicos também são alvo, mas não se pode dizer que são demoníacos porque são igualmente cristãos. Já o afro pensa que a religião de todo mundo tem algo bom e interessante.
Qual sua visão sobre o futuro desses conflitos religiosos?
Mais de 90% do avanço pentecostal se faz em cima da religião católica e pequena parte em cima dos afro. Mas como são pequenininhos, o pouco que lhes é tirado representa muito. A umbanda está diminuindo de tamanho. Há favelas em que os terreiros foram extirpados. Uma quadrilha também pode se associar a um pastor e fechar todos os terreiros.O Brasil faz de conta que não está vendo. Isso se agrava porque o presidente da República tem relações de simpatia com algumas das igrejas mais agressivas. A umbanda e candomblé não são um parceiro político interessante. Quando entra nessa história é vítima. Já faz 20 anos que a umbanda vem diminuindo e cada vez mais por perseguição evangélica. Se esse processo não é estancado, o que vai acontecer?
Um dos maiores problemas enfrentados pelas comunidades de candomblé para sobreviver é a descentralização. Muitas vezes, há divergências sobre o culto e os rituais dentro das próprias nações.
Às vezes, existem divergências dentro do próprio candomblé…
Você não tem uma religião afro-brasileira, mas várias. Dentro de cada uma, há grande diversidade de nações e ritos diferentes, de acordo com as origens étnicas dos grupos fundadores. Dentro da religião, há grupos que conhecem muito pouco os outros.
A falta de união entre as comunidades gera uma dificuldade de se articular politicamente.
Qual a raiz histórica dessa descentralização?
Os terreiros não se unem nem se organizam, o que gera uma fraqueza para se defender.A religião afro tem origem no culto doméstico. As relações são sempre simbolizadas pelo parentesco. Existe o pai-de-santo, filho-de-santo, a casa-de-santo, como se fosse família. Então, ainda segue essa idéia de que cada chefe de família é responsável pela sua família. Não implica responsabilidade com o outro. Cada comunidade é totalmente autônoma.
Como surgiu o candomblé no Brasil?
No século 19, quando os negros já vivem nas grandes cidades litorâneas e trabalham em serviços urbanos, como escravos de ganho, ganhando mobilidade. Na senzala e no campo, eles viviam totalmente isolados, não tinham contato com os escravos de outra fazenda, eram segregados. Nas cidades, passam a fazer os serviços manuais, porque os brancos não trabalhavam. Um dia por semana, o dinheiro de seu trabalho era para seu sustento, nos outros dias, ia para o senhor. Com isso, os escravos começam a se sustentar e morar em bairros negros.
Qual a primeira casa de candomblé?
A que resistiu e perdurou até hoje, conhecida na nação ketu é a Casa Branca do Engenho velho, na primeira metade do século 19. Dali saiu o Gantois, fundado por Maria Julia da Conceição. É comum até hoje, quando a mãe-de-santo morre, quem perde a indicação para a sucessão do terreiro sair e fundar outra casa. Foi assim que a turma de Mãe Aninha e outras figuras importantes fundaram o Axé Òpó Àfonjá. A casa principal foi erguida em 1910. Há quem afirme que o a casa de Mãe Aninha do Rio seja mais antiga do que a da Bahia.
Onde o candomblé começou a se formar?
Em reuniões religiosas que aconteciam dentro da Igreja da Barroquinha. Um incêndio na igreja destruiu a documentação sobre a época. As igrejas são valiosos acervos históricos pois tudo que acontecia era documentado pelos religiosos. A preocupação com esse patrimônio, assim como o arquitetônico, é recente no Brasil. O país teve um ministro que mandou queimar os arquivos da escravidão para “apagar essa mancha histórica brasileira”, que foi Ruy Barbosa, considerado um gênio. Imaginava-se isso, que se apagava o passado, apagando-se a memória. Ainda bem que tiveram preguiça até de fazer isso e pouco foi perdido.
A demonização de figuras do candomblé, especialmente de Exu, já se tornou um traço marcante da sociedade brasileira. Essa idéia foi construída desde a chegada do colonizador português à África.
Por que a figura de Exu foi demonizada no Brasil?
A demonização começa na África com a chegadas dos europeus. O Exu já na África sofre grande sincretismo. Como é o orixá mensageiro do panteão foi sincretizado com outra entidade Elegbara, o mensageiro do panteão dos povos fon, que deram origem ao Jeje brasileiro. Elegbara é o deus com funções de reprodução. Logo, seu culto tem imagens fálico, falos eretos. Todas as religiões panteístas têm divindades importantes ligadas à reprodução humana e à fertilidade do solo, a fartura dos alimentos. Essas funções de Elegbara foram passadas para Exu.
E quando começa a associação de Exu ao diabo católico?
Quando chegaram os primeiros colonizadores europeus aos territórios africanos, se depararam com o culto de orixás e voduns (divindades fons). Esses missionários cristãos tinham objetivos de “cristianizar o mundo selvagem”. Quando viram altares de forma fálica, atribuíram a algo demoníaco. O catolicismo é uma religião que aboliu a sexualidade do horizonte humano, de profunda repressão. Exu recebeu a pecha de diabo e não se livrou.
Qual a característica de Exu no candomblé?
No candomblé, não há idéia de bem e mal como coisa inconciliável. Quem faz essa oposição é o mundo cristão. Para o afro, o bem e mal são faces da mesma moeda e estão presentes em todas as coisas. O Exu deve ser pago pelo seu trabalho como todo deus mensageiro em qualquer tradição religiosa. Quando qualquer orixá é evocado, antes se evoca Exu, porque sem ele não há a comunicação com as divindades. ele antes em qualquer lugar, se Exu não participa não há comunicação.
Existiam outros deuses com essa função em outras culturas?
Lar, palavra que hoje significa domicílio, casa, é um antigo deus cultuado por povos da peninsula itálica. As pessoas tinham em casa altares com falos eretos. Eram tratados com profundo respeito porque a reprodução e a sexualidade são consideradas fontes da vida. Esse deus que protegia, presidia a sexualidade que permitia a reprodução e o fluxo de alimentos através da fertilidade da terra é responsável pela sobrevivência humana.
Há outros aspectos demonizados em Exu?
Para o mundo católico, Exu trabalhar por dinheiro é uma coisa horrível e própria do mal. O sincretismo foi juntando características entre os santos cristãos e os deuses afro. Iemanjá, a grande mãe por excelência, foi associada a Nossa Senhora. Oxalá a Jesus Cristo. E sucessivamente. Faltava um diabo entre os orixás e o candidato por excelência foi Exu.
Outras culturas que receberam povos afro procederam assim?
Em Cuba, o Exu é chamado de Eleguá, vem de Elegbara, e foi sincretizado com o Menino Jesus. Um sincretismo completamente oposto. Tanto que em Cuba muita gente é filha de Eleguá, enquanto no Brasil é raro ter filho de Exu. As pessoas morrem de medo de Exu. Muita gente que é filha de Ogum, na verdade, é filha de Exu. Em Cuba, a função da sexualidade é atribuída a Xangô que tem símbolos fálicos, como o taco de baseball. Xangô quando dança, fica com o taco nas pernas como se fosse falo ereto.
E a figura da pombagira?
A mentalidade católica acredita que a mulher é a grande pecadora, a fonte de pecado desde Eva. Tinha que associar um pouco a figura feminina a Exu. A pombagira acabou sendo a representação mais explícita da sexualidade proibida, perigosa e ao mesmo tempo muito desejada por todos. É uma grande construção cultural e ponto de conflito e perseguição na oposição das religiões evangélicas. São sempre figuras de bordel, associadas a vida desregrada.
A seguir, alguns dos relatos de como ocorre a intolerância no dia a dia:
“Eu estava praticamente me prostituindo, cheguei a levar drogas na mochila. Hoje, sou um novo homem. O candomblé é tudo na minha vida”. Nas memórias do jovem Carlos (nome fictício), de 20 anos, a adolescência é sinônimo de farras, promiscuidade e proximidade com o crime. Foi na religião que o rapaz conta ter encontrado equilíbrio. A escolha teve preço alto: a convivência com a família. Ao se iniciar, Carlos deixou o Complexo da Penha.
- Na Vila Cruzeiro, é uma gargalhada de pombagira e um tiro na cabeça. Roupas de santo, guias, tudo tem que ser muito escondido. Não posso morar lá - declara o jovem.
Os símbolos sagrados das religiões também são alvos da violência. Em junho, a depredação do centro umbandista Cruz de Oxalá, no Catete, causou comoção popular.
Quatro meses depois, a violência voltaria a se repetir. Dessa vez, a vítima foi Nádia Maria Correa Cursino, de 53 anos, a Mãe Nádia de Oyá.
Após 30 anos de vida religiosa, ela sentiu que estava na hora de abrir sua casa-de-santo. Alugou imóvel em Interlândia, Belford Roxo. O sonho durou apenas dois meses. Ao retornar de uma viagem, em outubro, foi até o terreiro. O cadeado havia sido trocado. Nádia só conseguiu entrar com a polícia. O cenário era desolador.
- Não sei dizer o que senti. Quebraram todos os meus santos, só ficaram meu Xangô, para que eu lutasse por Justiça, e a Iansã. Eram santos que estavam comigo a vida inteira. Tinha jóias de ouro em alguns assentamentos (esculturas e objetos sagrados reunidos em louvor aos orixás durante toda a vida religiosa). Nada foi devolvido. Eu chorei muito, muito - diz Nádia, que registrou o caso na 54 DP (Belford Roxo) e tem a primeira audiência marcada para março no Juizado Especial Criminal. Os agressores eram da família do proprietário.
- Não teria coragem de jogar uma Bíblia no lixo porque é sagrada para alguém. Onde nós vamos parar com essas agressões? - encerra.
De vítima da intolerância a palestrante no colégio. Ontem, o estudante Felipe Gonçalves Pereira, de 13 anos, foi recebido pelo secretário de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso. A melhor notícia dada pelo secretário ao menino será a realização de um seminário na Faetec para alunos e professores abordando assuntos como fé, cultura e tolerância religiosa.
- Será muito importante para que as pessoas aprendam e entendam a minha religião. Estou muito feliz e agora quero voltar à escola - diz Felipe, que cumpre os três meses de preceito do candomblé e foi discriminado ao mostrar um fio de conta escondido sob seu uniforme escolar.
Alexandre Cardoso também anunciou que serão instalados centros digitais em dez casas de santo. O objetivo é que os terreiros se tornem polos de produção de pesquisa sobre as religiões de matriz africana no Rio. O projeto foi discutido com o pedagogo Ivanir dos Santos, membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Para o secretário, a história de Felipe se tornou um símbolo da luta contra a discriminação.
- Todos devemos desculpas a Felipe. Mas ele será um exemplo da posição do governo contra a discriminação - encerra o secretário.
Eram 19h30m do dia 7 de maio de 2002. Dona Anita, de 75 anos, lembra que passava a novela na televisão. Dois homens armados - um deles com uma metralhadora - invadem o terreiro dirigido por seu filho, em Campo Grande. Encostam arma no rosto do pai-de-santo. A família pede pelo amor de Deus pela vida do religioso. Toca o telefone celular do agressor. O grupo interrompe a ação, vai embora e dá ultimato: a família deve se mudar em 24 horas.
A família vive até hoje em uma cidade do interior do país. Nunca mais voltou ao terreiro desde aquela noite. E nem ao Rio.
- É um dia muito triste, a gente quer esquecer. O carro estava do lado de fora para levar o corpo do meu filho - conta Dona Anita.
O motivo das ameaças e da invasão ao terreiro nunca foi esclarecido. Mas a briga do pai-de-santo com líderes de outras religiões na área - a resistência ao candomblé começava a se tornar forte em áreas da Zona Oeste - é vista como provável causa da intimidação.
- Foi um desespero, nem podemos pegar nossas coisas. Foram amigos que voltaram para recolher tudo - lamenta Dona Anita.
A dona-de-casa Dulcinéia dos Santos, de 45 anos, não foi ao casamento de dois de seus cinco filhos. Jamais conversa com as noras e só conseguiu pegar a neta no colo uma vez, porque a encontrou por acaso na rua. Tamanha indiferença não foi causada por nenhuma briga ou disputa familiar. A intolerância religiosa desatou todos os laços que uniam a mãe aos filhos. Candomblecista, ela se magoa ao lembrar que a mulher de seu filho a acusa de carregar “77 demônios” por pertencer à religião de matriz africana.
- Ela diz que se eu for à casa dela, deixarei um demônio lá. Se a menina ficar doente, a culpa é minha. São mentes atrasadas, eles repetem o que escutam na igreja deles. Criticam porque não conhecem. Nossa religião não é macumba nem feitiçaria. - afirma a dona-de-casa.
Dulcinéia se iniciou na religião, por amor ao filho mais jovem que ficou doente de forma repentina. Condenado pela medicina tradicional, o garoto ficou curado dentro de um barracão de candomblé. A conversão lhe custou os mais velhos.
- No Natal e no meu aniversário, não recebo nenhum telefonema. Às vezes, minha neta acena para mim da janela. Ela nem me reconhece como avó. Meu maior sonho é recuperar minha família - desabafa Dulcinéia.
Joana (nome fictício), 44 anos, também é mãe e sofre como Dulcinéia. Mas seu problema não é a distância da filha, de 11 anos. Mas o problema de saúde da menina, que sofre de síndrome do pânico desde que o pai a levou para uma cerimônia de exorcismo.
Na época do casamento, Joana tinha a mesma religião que o marido. Após a separação, um grupo de religiosos invadiu sua casa para “retirar o demônio”. Ela os expulsou. Mais tarde, tornou-se umbandista e sua filha passou a fazer parte de um grupo de evangelização de um centro kardecista. O pai decidiu “exorcizá-la”.
- Minha filha acorda gritando e tem pesadelos. Ela ficou traumatizada porque o grupo de religiosos gritava pelo “capeta” com as mãos na cabeça dela. Na época da separação, também disseram que eu estava endemoniada, mas eu não podia delatar, porque era da religião e não podia levar “irmão em juízo” - diz Joana.
A partir deste ano, denunciar crimes de intolerância, como o vivido pela família, ficará mais fácil. A secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial firma uma parceria com o Ministério da Justiça para criação de delegacias especializadas em intolerância religiosa e crimes étnico-raciais no País. O objetivo é potencializar a unidade de São Paulo, que já existe, e implementar ainda esse ano no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia
. Nas delegacias, trabalharão policiais especialmente treinados para identificar todo tipo de ofensa. E também psicólogos e assistentes sociais que possam ajudar nos casos. A secretaria trabalha na elaboração de uma lei específica sobre intolerância para apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo é que ele apresente o projeto de lei no Congresso Nacional.
- O preconceito é pre-histórico, não coaduna com nosso tempo. É aberração, horror que um aluno sofra preconceito do professor na escola. Inquérito tem que seguir o curso, não pode ficar na gaveta - diz o secretário-adjunto do órgão Eloy Ferreira
A nova inquisição no Rio Grande do Norte: a perseguição policial aos pais-de-santo, por Geraldo Barboza de Oliveira Junior
A NOVA INQUISIÇÃO NO RIO GRANDE DO NORTE: A PERSEGUIÇÃO POLICIAL AOS PAIS-DE-SANTO.
Geraldo Barboza de Oliveira Junior
No Estado do Rio Grande do Norte é observada e registrada desde o final do século XIX até os dias atuais uma grande variedade nos cultos afro-brasileiros. Temos o culto da Jurema, a Umbanda e o Candomblé. Este último divide-se nas seguintes modalidades ou Nações: Nagô, Kêtu, Angola, Jeje e Omolocô. O objetivo aqui é demonstrar que o cotidiano vivido pelos adeptos destas expressões religiosas encontra convergência em dois principais aspectos: a invisibilidade social e na literatura regional; e, a conseqüente marginalização social dos adeptos e da religião em si. Em se tratando da marginalização das religiões afro-brasileiras na cidade de Natal, podemos ressaltar dois aspectos importantes: o papel da mídia televisiva, que busca o sensacionalismo para garantir uma audiência; e que para isso relativiza bastante a ética, ressaltando aspectos bizarros e folclóricos de alguns pais-de-santo. E, outro fato que começa a fazer parte da cena política dos pais-de-santo é a perseguição através da polícia civil e, em especial, da Promotoria do Meio Ambiente. Estas instituições passaram a acatar as queixas de algumas pessoas com o argumento de poluição sonora causada pelo som dos atabaques e vem instaurando processos contra esses sacerdotes.
A história das religiões afro-brasileiras no Rio Grande do Norte é registrada, desde o final do século XIX e início do século XX, baseando-se em uma fonte específicas: a imprensa que registrava a história da perseguição da polícia aos pais-de-santo. Interessante observar que um século depois, em pleno século XXI esta relação Policia X Pais-de-santo ainda mantém características similares. Ressalvada algumas ações pontuais e pessoais ao longo desta história que se caracteriza, particularmente, pela invisibilidade enquanto religião; e uma intolerância visível e contínua de seus adeptos.
Uma história que se caracteriza também pela perseverança e capacidade de articulação política de seus seguidores. Hoje é crescente a presença de pessoas da classe média e de jovens de classes sociais diversas. Chega a ser engraçado, o fato acima.
O Rio Grande do Norte é um Estado que enfrenta grandes e verdadeiros problemas em se tratando de degradação ao meio ambiente. Temos a carcinocultura que avança sobre os manguezais; temos a ocupação irregular de áreas verdes e dunas; temos a grilagem nas terras das comunidades negras rurais; temos a poluição do rio Potengi; temos a contaminação do lençol freático; temos a desertificação na região do semi-árido; temos o comércio ilegal de animais da fauna local; temos, temos, temos,.... muitas outras coisas. E, independente de tudo isso, uma delegacia mobilizar agentes da polícia civil para verificar a altura de sons produzidos por atabaques de candomblé chega a ser ridículo. Isto foi fato comum na Bahia na década de 30 do século XX. Esta situação de intolerância e violência policial às religiões afro-brasileiras estimula, ainda mais, a discriminação e o preconceito contra a religião e os seus adeptos.
Em um país que se auto-proclama plural culturalmente e mestiço etnicamente isto soa como mais uma contradição. Uma última pergunta: Como fica a liberdade de culto? A resposta que obtive em uma entrevista com uma delegada: _Quer bater tambor para macumba? Voltem para a África ou vão para os matos onde eu não possa ouvir.
Geraldo Barboza de Oliveira Junior
No Estado do Rio Grande do Norte é observada e registrada desde o final do século XIX até os dias atuais uma grande variedade nos cultos afro-brasileiros. Temos o culto da Jurema, a Umbanda e o Candomblé. Este último divide-se nas seguintes modalidades ou Nações: Nagô, Kêtu, Angola, Jeje e Omolocô. O objetivo aqui é demonstrar que o cotidiano vivido pelos adeptos destas expressões religiosas encontra convergência em dois principais aspectos: a invisibilidade social e na literatura regional; e, a conseqüente marginalização social dos adeptos e da religião em si. Em se tratando da marginalização das religiões afro-brasileiras na cidade de Natal, podemos ressaltar dois aspectos importantes: o papel da mídia televisiva, que busca o sensacionalismo para garantir uma audiência; e que para isso relativiza bastante a ética, ressaltando aspectos bizarros e folclóricos de alguns pais-de-santo. E, outro fato que começa a fazer parte da cena política dos pais-de-santo é a perseguição através da polícia civil e, em especial, da Promotoria do Meio Ambiente. Estas instituições passaram a acatar as queixas de algumas pessoas com o argumento de poluição sonora causada pelo som dos atabaques e vem instaurando processos contra esses sacerdotes.
A história das religiões afro-brasileiras no Rio Grande do Norte é registrada, desde o final do século XIX e início do século XX, baseando-se em uma fonte específicas: a imprensa que registrava a história da perseguição da polícia aos pais-de-santo. Interessante observar que um século depois, em pleno século XXI esta relação Policia X Pais-de-santo ainda mantém características similares. Ressalvada algumas ações pontuais e pessoais ao longo desta história que se caracteriza, particularmente, pela invisibilidade enquanto religião; e uma intolerância visível e contínua de seus adeptos.
Uma história que se caracteriza também pela perseverança e capacidade de articulação política de seus seguidores. Hoje é crescente a presença de pessoas da classe média e de jovens de classes sociais diversas. Chega a ser engraçado, o fato acima.
O Rio Grande do Norte é um Estado que enfrenta grandes e verdadeiros problemas em se tratando de degradação ao meio ambiente. Temos a carcinocultura que avança sobre os manguezais; temos a ocupação irregular de áreas verdes e dunas; temos a grilagem nas terras das comunidades negras rurais; temos a poluição do rio Potengi; temos a contaminação do lençol freático; temos a desertificação na região do semi-árido; temos o comércio ilegal de animais da fauna local; temos, temos, temos,.... muitas outras coisas. E, independente de tudo isso, uma delegacia mobilizar agentes da polícia civil para verificar a altura de sons produzidos por atabaques de candomblé chega a ser ridículo. Isto foi fato comum na Bahia na década de 30 do século XX. Esta situação de intolerância e violência policial às religiões afro-brasileiras estimula, ainda mais, a discriminação e o preconceito contra a religião e os seus adeptos.
Em um país que se auto-proclama plural culturalmente e mestiço etnicamente isto soa como mais uma contradição. Uma última pergunta: Como fica a liberdade de culto? A resposta que obtive em uma entrevista com uma delegada: _Quer bater tambor para macumba? Voltem para a África ou vão para os matos onde eu não possa ouvir.
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