sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sem métrica e sem rima

Por José Carlos L. Poroca

Executivo do segmento de shopping centers

A notícia foi dada por telefone: Zé Machado se fora. Fiquei com um coraçãozinho apertado, por dois motivos: o fato em si, que, por mais natural que seja, sempre acaba deixando riscas e feridas; o remorso, por não ter realizado o encontro tantas vezes prometido e adiado. Não há retorno, exceto se houver o que chamam de reencarnação e, nela, a gente possa fazer uma arrumação do mal arrumado na vida terrestre. O risco é ter que reencontrar, no novo campo, as almas sebosas que infernizaram a vida de muitos (inclusive a minha) e ter paciência para aguentar tudo de novo, sem poder mandá-las nadar num mar de bosta ou para o inferno.

ZM integrou um período especial que, com o tempo, a gente fica sabendo, às vezes tarde, que se estava vivendo a melhor fase da vida. Não era político profissional, mas era um hábil político nas relações, provavelmente herança familiar da família de Parnaíba (PI). Viveu um tempo entre a Paraíba e o Maranhão. Mais na frente radicou-se em Natal e lá ficou. ZM usava óculos de forte grau, o chamado "fundo de garrafa" e só conseguia ler aproximando o texto o mais próximo dos seus olhos. Soube que, nos últimos meses (ou anos), enxergava quase nada.

O que impressionava a todos era o seu nível de informação, narrando histórias (geralmente sobre política) ocorridas nos estados do Nordeste ou de Brasília, ou vindas das Minas Gerais, quando não existia internet. Fã confesso do governador potiguar Aluísio Alves, do senador piauiense Petrônio Portela e do general gaúcho Golbery ("primeiro ministro de Figueiredo"), dizia, com ênfase, que eram os três maiores políticos da era pós Vargas.

Por que estou falando de Zé Machado? Bateu a saudade. Fiquei imaginando o que estaria dizendo sobre os últimos fatos da vida nacional envolvendo bicheiros, senadores, governadores, empreiteiras, etc. Qual seria a sua impressão sobre o "ficha limpa"? Provavelmente ia sugerir a oficialização da quirologia informatizada. Seria mais ou menos como já se faz hoje em alguns países que conferem a identidade das pessoas através da íris dos olhos, identificando e confirmando se João é João e se Maria é Maria, sem probabilidade de erro.

Para quem não sabe, a quirologia estuda as linhas das mãos das pessoas e pode identificar através delas traços de personalidade (o cafajeste é traído pelas suas próprias linhas) e a identificação de perfis. Admitindo a possibilidade e viabilidade, como usar na prática a quirologia para os candidatos? Simples. Inicialmente, o sistema armazenaria o maior número possível de dados de linhas das mãos. Na inscrição, o candidato colocaria a sua mão na máquina (não confundir com mão na massa). Em segundos, a máquina apresentaria o perfil do candidato. A ficha seria o salvo-conduto (ou não) para ele seguir em frente ou desviar no sentido da plantação de batatas. Atenção! A máquina teria que vir acoplada com uma câmera para atestar se a mão em análise pertencia de fato ao seu dono ou se era de outro. Não dá pra confiar.

Survival International lança nova campanha pela sobrevivência dos Awá-Guajá

Lançada nesta quarta-feira, 25, a campanha denuncia a violência a qual os Awá-Guajá estão expostos na Amazônia maranhense.

Com o objetivo de salvar “a tribo mais ameaçada do mundo”, a campanha internacional tem como carro-chefe um curta-metragem, acompanhado de um website com detalhes sobre o desmatamento da TI Awá por invasores não indígenas, além de fotografias e depoimentos exclusivos dos próprios Awá-Guajá. Com apoio do ator inglês Colin Firth, a mobilização pede a intervenção do Ministério da Justiça para a expulsão derradeira dos invasores do território tradicional desse povo indígena.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, principal interlocutor da campanha, já se pronunciou sobre o assunto, sem, contudo, indicar quais providências tomará sobre o caso. Conforme informações divulgadas pelo portal UOL, Cardozo afirmou no dia 24/4 que é impossível evitar situações de violência contra os povos indígenas por conta da “imensidão do território brasileiro”.

A ocupação ilegal e permanente nas Terras Indígenas que compõem o território awá-guajá – as TIs Awá, Alto Turiaçu, Caru – não é novidade. A nova campanha da Survival International chama a atenção sobre uma situação grave, há muito conhecida e denunciada.

Em agosto de 2011, um grupo de pesquisadores, vinculados a ONGs e instituições de pesquisa nacionais e internacionais, encaminhou uma carta à presidente Dilma Rousseff cobrando providências que evitassem a extinção do povo Awá-Guajá no Maranhão. Entre elas, estava o pedido de criação, em caráter de urgência, de uma força-tarefa interministerial, que desse consequência a ações imediatas para proteger os Awá e suas florestas.

A TI Awá sofre também o impacto de obras de infraestrutura e está na área de influência da estrada de ferro Carajás (Companhia Vale do Rio Doce), de 892 km, cuja duplicação foi iniciada em meados de 2011.

Há também evidências de três grupos awá-guajá isolados na Ti Araribóia - de usufruto dos índios Guajajara -que somam 60 indígenas gravemente ameaçados pelos invasores.

Histórico das pressões

Desde 1985, quando foi identificada pela Funai, a TI Awá passou por diferentes delimitações. O reconhecimento teve início na década de 1980, mas ficou parado por conta da forte oposição de fazendeiros, madeireiros e posseiros que ocupam a área desde a década de 1950.

Já em 1994 um equipe de trabalho da Funai havia tentado iniciar a demarcação física da TI Awá, mas foi impedida de continuar por moradores da região. Só em 2002 o processo de demarcação pode ser retomado tendo sido finalizado em 2003.

Em 2002 o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública pela demarcação da terra. A sentença da ação, proferida em 2009 – após o decreto de homologação da TI, de 2005 –, determinou a nulidade e a extinção dos atos que tenham possibilitado a ocupação de terras no interior da TI Awá, incluindo aqueles praticados pela empresa Agropecuária Alto Turiaçu – que reivindicava judicialmente a posse de 37 980 hectares situados na terra Awá. A sentença, que determinava também a retirada dos posseiros e das instalações da Agropecuária Alto Turiaçu, contudo foi suspensa no mesmo ano pelo presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª região, Jirair Aram Meguerian, a pedido da prefeitura do município de Zé Doca (MA).

Os recursos dessa decisão foram julgados pela Sexta Turma do TRF da 1ª região em 9 de dezembro de 2011, que determinou, por unanimidade, que a União e a Funai, no prazo de um ano, deveriam promover o registro em cartório da TI, além da remoção de todos os ocupantes não indígenas e suas edificações, negando provimento à apelação da Agropecuária Alto Turiaçu. O acórdão da decisão foi publicado em 7 de março no Diário da Justiça.

Cenário desolador

Segundo informações do antropólogo Uirá Felippe Garcia, publicadas no livro Povos Indígenas no Brasil 2006-2010, além da TI Awá, as áreas Alto Turiaçu e Caru (homologadas em 1982) e a Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi, estão ocupadas por fazendas de gado, carvoarias, lavouras ilegais e madeireiros.

O assédio dos madeireiros às TIs no Maranhão aumentou justamente a partir 2008, quando o Ibama intensificou a repressão ao desmatamento no Pará. Na Terra Indígena Awá, a porcentagem de desmatamento da cobertura vegetal é de 31,19%. O desmatamento cresceu principalmente entre 2008 e 2009: em apenas um ano, a área desmatada foi de 17 para 6216 hectares. Também na TI Araribóia o desmatamento cresce em ritmo vertiginoso. Como é possível verificar no gráfico abaixo, o período de 2007 a 2009 representa 56% do total desmatado em dez anos na terra.

Operações pontuais foram realizadas na área, como a Operação Arco de Fogo, de 2009, deflagrada em vários estados da Amazônia. Para Uirá Garcia, apesar de terem resultados momentâneos (como a apreensão de grandes quantidades de madeira extraídas das áreas e o fechamento de algumas serrarias), esses esforços acabam sendo ineficazes nas áreas awá-guajá, porque os madeireiros costumam retornar a elas logo que as operações terminam.

“Tanto os madeireiros que invadem a área para marcar e extrair madeira, quanto os posseiros, quase sempre são pessoas miseráveis e esquecidas; muitas vezes são eles os incriminados pelas autoridades quando encontrados nas TIs. A maior ameaça está em quem de fato está 'apertando o gatilho': o conjunto de empresários, fazendeiros, políticos locais e (agora) traficantes que aliciam tais trabalhadores, estimulando a invasão das áreas indígenas, e que jamais são autuados e punidos”, avalia o antropólogo.

PNUD e CIMI apoiam oficinas voltadas para identidade indígena no Brasil e Paraguai

Quatro comunidades indígenas da etnia Kaiowá Guarani situadas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai participam de uma iniciativa que busca proporcionar às aldeias o reconhecimento mútuo e o fortalecimento de suas identidades. Através de oficinas de fotografia, redação e desenho, crianças e adolescentes das comunidades Panambizinho, Kurusu Ambá, Teyi’Kue, e Reko Pavẽ são incentivadas a conhecer sua própria história, trocar experiências e, dessa forma, contribuir para reorganizar e fortalecer a luta pelos seus direitos.

A ação foi concebida e realizada pelo projeto “Olhares Cruzados”, desenvolvido pela OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Imagem da Vida, com financiamento e execução conjunta do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

“Ao contrário dos outros projetos cujo intercâmbio realizou-se entre crianças de países diferentes, neste o foco são quatro aldeias de uma mesma região”, explica Dirce Carrion, coordenadora do projeto. “A situação dos povos guarani na América do Sul, e especialmente no Brasil, é tremendamente frágil – há problemas de alcoolismo, uso de drogas, suicídios”, destaca ela.

As três aldeias localizadas em território brasileiro – Panambizinho, Kurusu Amba e Teyi’Kue – já receberam as oficinas. Em maio, será a vez da comunidade Reko Pave, no Paraguai.

Identidade Guarani

O significado da palavra “guarani” originalmente foi associado à guerra. Já a palavra Kaiowá significa “gente da floresta”.

Os povos guarani formam um dos maiores grupos da América do Sul e um dos mais importantes das Américas. Atualmente, existem os seguintes grupos de língua guarani: os Chiriguanos, ou Guarani, na Bolívia (60 mil); Kaiowá, ou Paĩ Tavyterã (40 mil), Chiripa, Nhandeva ou Avá Guarani (30 mil) e Mbya (30 mil), no Paraguai, Argentina, Uruguai e no Brasil. Em nosso país, os grupos guarani estão distribuídos, majoritariamente, pelas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Olhares Cruzados

O projeto Olhares Cruzados foi realizado em outros  nove países além do Brasil: Angola, Moçambique, Senegal, Haiti, Congo, Mali, Guiné Bissau, Cabo Verde e Bolívia; e em dez estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Piauí, Pará e Amazonas. Desde seu início, em 2004, o projeto já possibilitou o conhecimento recíproco entre 1,5 mil crianças brasileiras de comunidades quilombolas e indígenas com outras latino-americanas, africanas e de países fruto da diáspora africana.

Os registros são sempre publicados em livros, que são depois distribuídos nas comunidades e em escolas, bibliotecas e centros de cultura. São realizadas exposições, documentários em vídeo e livros que são distribuídos nestas comunidades, em escolas e bibliotecas no Brasil e no exterior. Já são nove livros publicados e um em fase de edição.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Psicanalista e professor universitário Éverton Otacílio de Campos Menezes acusado de injúria racial em cinema de Brasília

Polícia identifica autor de ofensa racial contra atendente de cinema no DF

A Polícia Civil do Distrito Federal identificou o homem que ofendeu a funcionária de um cinema na Asa Norte, na tarde de domingo (28). Marina Serafim dos Reis, de 25 anos, ouviu de um cliente que “não deveria estar lidando com gente, deveria estar na África, cuidando de orangotangos.”

De acordo com o delegado, Ailton Rodrigues de Oliveira, da 5ª DP, ele é médico e pode ser indiciado por discriminação. Oliveira informou que o homem foi reconhecido pela vítima e deve prestar depoimento na delegacia assim que for localizado.

A afirmação foi feita após o cliente se irritar com a demora da fila para a compra de ingressos para o cinema. Marina, que trabalha na bilheteria, afirma que ele chegou atrasado para a sessão das 15h e queria passar na frente das outras pessoas.

Após os insultos, clientes e funcionários do estabelecimento comercial chamaram os seguranças, mas o homem conseguiu fugir.

De acordo com o delegado, o homem foi identificado com auxílio das imagens das câmeras de segurança. Oliveira disse ainda que o suspeito já tem uma passagem por crime de racismo ocorrida em 2002, durante as eleições. O homem teria ofendido uma mesária.

Ainda segundo o delegado, a ofensa a um pessoa levando em conta a etnia ou raça configura crime de injúria discriminatória, com pena que varia entre um e três anos de prisão

A Cura - Cia Gira Dança - Natal, RN

Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"


Por LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO


O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?

 Umberto Eco - Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?

 Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

 Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?

 Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?

 Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?

 Eco - Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?

 Eco - Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?

 Eco - Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?

 Eco - Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?

 Eco - Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?

Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?

 Eco - Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?

 Eco - Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?

 Eco - Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?

 Eco - Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?

 Eco - Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que não é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?

 Eco - O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?

 Eco - Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?

 Eco - Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?

 Eco - Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?

 Eco - Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?

 Eco - Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?

 Eco - Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?

 Eco - Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?

 Eco - Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

Enquanto tentam levar vida normal, anões colecionam histórias de preconceito

Uma pequenina mesa de jantar, rodeada de quatro cadeiras menores ainda, divide espaço com um sofá pouco convencional. "Tem tudo a ver com a gente", resume Adriana Poci Cabral, 42 anos, 1,30 m, que comanda a loja Casinha Pequenina, no shopping Eldorado (zona oeste de São Paulo), junto com a irmã Mila Poci Cabral, 39 anos, 1,20 m. Quase todos os objetos da loja cabem na palma da mão. "Comércio é difícil, mas com esta loja [de miniaturas] quase não temos concorrência", completa Adriana.

As irmãs contam que alguns clientes já ficaram desconcertados ao perceber que elas eram anãs. Mas isso é raro. Segundo Mila, boa parte deles vai lá para vê-las. "A gente é como um folclore", diz, "às vezes levamos bronca porque não estávamos na loja. Muitos querem ser atendidos apenas por nós".

Mas por trás dos sorrisos que elas espalham para os clientes, existe uma realidade menos 'colorida', compartilhada por outros anões.

"Outro dia saímos do ônibus e um homem, de dentro de um carro, chamou a gente de anãs de circo", conta Adriana. "Eu não ligo muito, mas a Mila fica nervosa com as brincadeiras". Adriana, entretanto, lembra de um caso que a incomodou. "Há uns 10 anos, eu trabalhava em uma loja de acessórios para banheiro, e era a minha vez de atender um cliente. Quando eu me apresentei, ele me ignorou, fingiu que não me viu. Eu passei o cliente para uma colega e fui chorar no estoque da loja".

Com Kênia Hubner, 53 anos, 1,23 m, as histórias de preconceito se repetem. Ela e o marido Hélio Pottes, 53 anos, 1,33 m, são responsáveis pela associação Gente Pequena, uma organização inspirada na Little People of America, dos EUA, que estava inativa por duas décadas e renasceu há 3 anos.

Kênia é formada em enfermagem pela PUC (Pontifícia Universidade Católica). Quando foi procurar emprego com três amigas de estatura normal, elas avançavam no processo seletivo e Kênia era sempre desclassificada na primeira fase. "Rodei por 25 hospitais. Durante uma prova de classificação, a moça me perguntou, na frente de todo mundo: 'por que você está fazendo isso? Como vai atender uma parada cardíaca?'".

Ela trabalha há 28 anos no hospital Beneficência Portuguesa. Já empregada, Kênia ainda enfrentava obstáculos. "A diretora do hospital era muito questionada sobre a minha admissão. E parece que você tem que trabalhar dobrado, tem sempre que ficar provando que é capaz", lamenta. "Com paciente nunca tive problema, mas quando eu subo na escadinha da cama alguns acham que eu vou cair."

Com a filha Maria Rita, 17 anos, 1,25 m, os problemas foram na escola. "Ela não era aceita, as pessoas criavam dificuldade, mas não explicavam as razões". Uma vez dentro da sala de aula, os pais explicavam que ela não precisava de carteirinha especial para estudar. "Os amiguinhos tratavam ela como boneca e até faziam sua lição. Ela, claro, aproveitava", recorda a mãe.

O nanismo é uma mutação genética. Existem mais de 80 tipos e 200 subtipos da doença, mas a mais comum é a acondroplasia. Segundo a dra. Chong Ae Kim, chefe da unidade de genética do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, como a mutação é aleatória, qualquer casal pode ter um filho com a doença, mas fatores como a idade avançada do pai podem aumentar as chances de um casal ter um filho anão. Por outro lado, um casal anão também tem chance de ter um filho sem a doença. "O gene é dominante, portanto, um casal com a doença tem 25% de chance de ter um filho normal", afirma Kim.

Algumas características dos anões são: baixa estatura, cabeça grande, perfil achatado, membros -principalmente braços e coxas- curtos, dedos afastados e alteração na coluna. "Eles podem ter algumas complicações ao longo da vida, mas a maioria tem saúde normal. E todos têm inteligência normal", diz Kim. A expectativa de vida dos anões segue a média da população.

O IBGE não tem um levantamento de quantas pessoas têm a anomalia no Brasil, mas a medicina estima que entre 15 mil e 26 mil crianças nascidas vivas, uma tem acondroplasia. Se estimarmos que um em 20 mil bebês tem a doença no Brasil, seriam cerca de 9.500 anões no país.

Hoje adolescente, Maria Rita está no 2º colegial do colégio Objetivo, faz equitação e aula de jazz. "Conheci muitos anões pela Internet, temos uma comunidade no Orkut e isso me sustenta, mas não tenho preferência por amigos altos ou baixos".

No Orkut, existem mais de 500 comunidades relacionadas ao nanismo. Nem todas trazem um mote amigável. "É a cultura do circo", lembra o pai de Maria Rita, Hélio. Para ele, esta cultura é responsável por manter os anões em categorias de ridicularização, principalmente no mundo do espetáculo. "Alguns já estão representando atores normais, interpretando textos. Mas muitos ainda são explorados porque são diferentes, e acabam fazendo papel de anão de circo", afirma. Além de publicitário, com experiência em criação e design, Hélio faz teatro e atua com o grupo Os Parlapatões. E representa personagens não estereotipados.

Mila, da loja Casinha Pequenina, também é atriz e diretora de teatro. "Já fiz os estereótipos de sete anões e ajudante de papai-noel, mas hoje faço teatro pelo teatro mesmo". Ela já foi cantora de ópera, rei, cardeal e está em cartaz interpretando uma secretária.

Com a associação Gente Pequena, Hélio se dedica a conscientizar os colegas. "Muitos ainda não têm especialização e precisamos divulgar as perspectivas futuras". Dos cerca de 700 associados, mais da metade não têm formação no ensino superior. "Eles não tem referência de profissão, muitos pais não incentivam".

Hélio lembra que o deboche com anões no teatro ou na TV é reproduzido nas ruas. "Na época que o [programa de televisão] Pânico inventou o 'pedala, Robinho', os anões recebiam tapas na rua. Os pais da associação ficaram revoltados", conta Hélio. "Isso era ruim para os atores e para todos os outros anões. Muitos não saíam de casa por vergonha."

O ator que interpretou o Robinho, Nestor Bertolino Neto, 39 anos, 1,20 m, discorda. "Isso só vem ajudar a gente", afirma, "antes da TV eu sofria discriminação duas vezes: por ser anão e por ser negro".

No mundo artístico, ele se diz realizado. "Minha vida mudou, eu sou tratado de forma boa, conquistei valor com o meu talento". Mesmo com o quadro 'pedala, Robinho' extinto, Nestor se diz "muito feliz" com suas atuações na TV e em eventos —na maioria das vezes ainda interpreta Robinho. "O pessoal brinca de 'pedala' com todo mundo, independente de ser anão. Isso não tem nada a ver".

Para a advogada, Tatiana Muniz, 29 anos, 1,26 m, o anão não é visto como artista e sim como um motivo para as pessoas darem risada. Antes de fazer o curso de direito, Tatiana ganhava dinheiro com eventos em festas e danceterias. "Quase 100% dos eventos eram voltados para a sátira", relembra, "eu me sentia mal". Agora ela está estudando para o concurso da magistratura. "Por falta de oportunidade no mercado de trabalho ou por não poder custear um curso, os portadores acabam abrindo mão do sonho", acredita Tatiana.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Código florestal: veta Dilma

Ruralista quer veto integral ao Código Florestal

por Mario Coelho | 01/05/2012 07:00

Um dos maiores exportadores de suco de laranja do país, o deputado Nelson Marquezelli faz coro com os ambientalistas ao defender que Dilma derrube na integralidade o projeto aprovado pelo Congresso.

A bancada ambientalista ganhou um inesperado aliado na pressão para fazer a presidenta Dilma Rousseff vetar o Código Florestal, aprovado na última quarta-feira (25) pelo Congresso. O texto foi aprovado com amplo apoio dos integrantes da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) e provocou protestos de petistas, parlamentares ambientalistas e organizações não governamentais ligadas à preservação do meio ambiente. O aliado inesperado é o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP). Um dos maiores exportadores de suco de laranja do país, integrante da bancada ruralista na Câmara, o petebista disse ao Congresso em Foco que se estivesse no lugar da presidenta Dilma Rousseff “vetava o texto inteiro”.

 “Se ela entender bem, vai vetar o Código inteiro. E vai chegar carregada na Rio + 20”, disparou Marquezelli. Para ele, Dilma deveria chamar especialistas em agricultura e em meio ambiente e, posteriormente, editar uma medida provisória ou uma portaria regulamentando a questão. Mas os motivos para o petebista pedir o veto são diferentes dos ambientalistas.

 Marquezelli questiona, por exemplo, a possibilidade de os produtores serem penalizados por terem desmatado antes da reforma do Código Florestal. Ele também critica duramente o papel dado ao Ministério Público. Para ele, os “promotores não conhecem o Brasil”. “O promotor vai propor a desapropriação da terra e prisão do produtor por não cumprir a lei. Ele não quer saber se produtor está produzindo ou não mil litros de leite por dia ou dez litros”, afirmou.

 A posição de Marquezelli é minoritária dentro da FPA. A bancada ruralista, de acordo com o deputado Moreira Mendes (PSD-RO), está satisfeita com o texto. Para os integrantes da frente, ele dá segurança jurídica aos produtores. O petebista discorda. Disse preferir as portarias do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O motivo é simples: não há punição criminal para quem desmatar e descumprir a legislação ambiental.

 Franco, Marquezelli faz uma outra avaliação sobre o Código aprovado. Como exportador de suco de laranja, entende que as novas regras são boas para os médios e grandes produtores, exatamente como argumentam os ambientalistas. Com menor área de plantio, o preço das commodities vai subir. No caso do petebista, a laranja.

 “O preço está baixo. Se eu tirar 1,8 milhão de pés de laranja [pela necessidade de reflorestamento prevista no Código], vai faltar laranja e subir o preço. Então eu não posso falar que estou sendo prejudicado. Eu estou sendo favorecido. Quem está sendo prejudicado é o país porque vai ter uma quantidade menor de suco para exportar, tanto industrial, quanto produtor vai ganhar mais”, afirmou.

Um terço dos alimentos consumidos pelos brasileiros está contaminado por agrotóxicos

  Fabíola Ortiz, Do UOL, no Rio de Janeiro

Há três anos o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de consumo de agrotóxicos no mundo. Um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado pelos agrotóxicos, segundo alerta feito pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em dossiê lançado durante o primeiro congresso mundial de nutrição que ocorre no Rio de Janeiro, o World Nutrition Rio 2012, que termina nesta terça-feira (1º).

O documento destaca que, enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o brasileiro aumentou 190%. Em 2008, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu o posto liderança, representando uma fatia de quase 20% do consumo mundial de agrotóxicos e movimentando, só em 2010, cerca de US$ 7,3 bilhões - mais que os EUA e a Europa.

A primeira parte do dossiê da Abrasco  faz um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde e na segurança alimentar. A segunda parte, com enfoque no desenvolvimento e no meio ambiente, terá seu lançamento durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e na Cúpula dos Povos na Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro.

Segundo um dos coordenadores do estudo, Fernando Carneiro, chefe do departamento de Saúde Coletiva da UnB (Universidade de Brasília), “o dossiê é uma síntese de evidências científicas e recomendações políticas”.

“A grande mensagem do dossiê  é que o Brasil conquistou o patamar de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Queremos vincular a ciência à tomada de decisão política”, disse Carneiro ao UOL.

Soja é o que mais demanda agrotóxico

Segundo dados da Anvisa e da UFPR compilados pelo dossiê, na última safra (2º semestre de 2010 e o 1º semestre de 2011), o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos, sendo e 246 mil toneladas importadas.

Em 2011 houve um aumento de 16% no consumo que alcançou uma receita de US$ 8,5 bilhões. As lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açucar representam juntas 80% do total das vendas do setor.

Na safra de 2011 no Brasil, foram plantados 71 milhões de hectares de lavoura temporária (soja, milho, cana, algodão) e permanente (café, cítricos, frutas, eucaliptos), o que corresponde a cerca de 853 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nessas lavouras, principalmente de herbicidas, fungicidas e inseticidas. O consumo em média por hectare nas lavouras é de 12 litros por hectare e exposição média ambiental de 4,5 litros de agrotóxicos por habitante, segundo o IBGE (Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo o dossiê, a soja foi o cultivo que mais demandou agrotóxico - 40% do volume total de herbicidas, inseticidas, fungicidas e acaricidas. Em segundo lugar no ranking de consumo está o milho com 15%, a cana e o algodão com 10%, depois os cítricos com 7%, e o café, trigo e arroz com 3% cada.

Maior concentração em hortaliças

Já para a produção de hortaliças, em 2008, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o consumo de fungicidas atingiu uma área potencial de aproximadamente 800 mil hectares, contra 21 milhões de hectares somente na cultura da soja.

“Isso revela um quadro preocupante de concentração no uso de ingrediente ativo de 22 fungicidas por área plantada em hortaliças no Brasil, podendo chegar entre 8 a 16 vezes mais agrotóxico por hectare do que o utilizado na cultura da soja, por exemplo”, alerta o dossiê.

Numa comparação simples, o estudo estima que a concentração de uso de ingrediente ativo de fungicida em soja no Brasil, no ano de 2008, foi de 0,5 litro por hectare, bem inferior à estimativa de quatro a oito litros por hectare em hortaliças, em média. “Pode-se constatar que cerca de 20% da comercialização de ingrediente ativo de fungicida no Brasil é destinada ao uso em hortaliças”, destaca o estudo da Abrasco.

Riscos para a saúde

O dossiê revela ainda evidências científicas relacionadas aos riscos para a saúde humana da exposição aos agrotóxicos por ingestão de alimentos. Segundo Fernando Carneiro, o consumo prolongado de alimentos contaminados por agrotóxico ao longo de 20 anos pode provocar doenças como câncer, malformação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.

Um fato alarmante foi a constatação de contaminação de agrotóxico no leite materno, afirmou. Para o cientista, não se sabe ainda ao certo as consequências para um recém-nascido ou um bebê que está em fase inicial de formação. “Uma criança é altamente vulnerável para esses compostos químicos. Isso é uma questão ética, se vamos nos acostumar com o nível de contaminação do agrotóxico”, criticou.

Parte dos agrotóxicos utilizados tem a capacidade de se dispersar no ambiente, e outra parte pode se acumular no organismo humano, inclusive no leite materno, informa o relatório. “O leite contaminado ao ser consumido pelos recém-nascidos pode provocar agravos a saúde, pois os mesmos são mais vulneráveis à exposição a agentes químicos presentes no ambiente, por suas características fisiológicas e por se alimentar, quase exclusivamente, com o leite materno até os seis meses”, destaca o estudo.

Recomendações

O dossiê da Abrasco formula 10 princípios e recomendações para evitar e reduzir o consumo de agrotóxicos nos cultivos e na alimentação do brasileiro. Carneiro defende a necessidade de se realizar uma “revolução alimentar e ecológica”.

Segundo o IBGE, cerca de 70 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança alimentar e nutricional, sendo que  90% desta população consume frutas, verduras e legumes abaixo da quantidade recomendada para uma alimentação saudável. A superação deste problema, de acordo com o dossiê, é o desenvolvimento do modelo de produção agroecológica.

Carneiro e sua equipe composta por seis pesquisadores defendem a ampliação de fontes de financiamento para pesquisas, assim como a implantação de uma Política Nacional de Agroecologia em detrimento ao financiamento público do agronegócio e o fortalecimento das políticas de aquisição de alimentos produzidos sem agrotóxicos para a alimentação escolar – atualmente a lei prevê 30% deste consumo nas escolas.

Além disso, o documento defende a proibição de agrotóxicos já banidos em outros países e que apresentam graves riscos à saúde humana e ao ambiente assim como proibir a pulverização aérea de agrotóxicos.

O cientista defende ainda a suspensão de isenções de ICMS, PIS/PASEP, COFINS e IPI concedidas aos agrotóxicos. “A tendência no Brasil é liberalizar ainda mais o uso de agrotóxico, só no Congresso Nacional existem mais de 40 projetos de lei neste sentido. Nós estamos pagando para ser envenenados”, criticou Carneiro.

Agricultura familiar é necessária para alimentar o mundo

por Júlia Schnorr

''Só sai, só sai, a reforma agrária, com a aliança camponesa e operária.'' A canção da viola embala o início da Marcha de Abertura do Fórum Social Temático (FST) em Porto Alegre. Mais de 20 mil pessoas caminham na Avenida Borges de Medeiros carregando faixas e cartazes. A música não para: ''Nossa primeira tarefa é ocupar toda terra produtiva/Nós queremos trabalhar/Nossa segunda tarefa é resistir/Entrar bem organizado/Enfrentar para não sair/Nossa terceira tarefa é produzir/No trabalho coletivo, colher muito e repartir.''

Ao longo do Fórum Social Temático, diversas foram as oportunidades para discutir agricultura familiar e reforma agrária. Na conferência de abertura do FST, José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), palestrou sobre Cooperativismo e agricultura familiar. O dirigente ressaltou que o uso de recursos hídricos e o de insumos agrícolas devem ser diminuídos com a finalidade de realizar uma agricultura com sustentabilidade.

O diretor-geral assumiu a FAO no ano passado definindo alguns desafios, como a segurança alimentar, o estímulo à produção de alimentos e o combate à pobreza. Para ele, não podemos ter desenvolvimento sustentável com pobreza no campo. Graziano da Silva afirmou ainda que as cooperativas são fundamentais, chegando a ser responsáveis por 30% da produção dos alimentos mundiais.

A agricultura familiar foi temática da atividade organizada pela Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar, a Fetraf. A seção sindical centrou suas discussões nos desafios cotidianas dos pequenos produtores, como a permanência dos jovens no campo e a dificuldade de acesso ao crédito. Celso Ludwig, coordenador da Fetraf-Sul, analisou que a queda do desemprego no Brasil é um impulso para que jovens rurais deixem o campo, o que agrega dificuldades para a agricultura familiar e a sucessão hereditária.

Ludwig lembra que para permanecer no campo, há a necessidade de se ter geração de renda, lazer, políticas públicas e acesso à internet – que já foi declarado um direito humano. Ao ponderar sobre o envelhecimento do campo e o modelo de desenvolvimento vigente, Ludwig se perguntou qual o tipo de agricultura que deseja. Sua resposta vem rápida e sem pestanejar: ‘’o campo é o lugar de um espaço de vida e prefiro uma agricultura com pessoas e não somente com máquinas. ’’

O rural como modo de vida

O meio rural¹ é um ‘’espaço suporte de relações específicas'', como parentesco e vizinhança, ''que se constroem, se reproduzem ou se redefinem sobre este mesmo espaço e que, portanto, o conformam enquanto um singular espaço de vida’’. É nesta conjuntura que surge a expressão ''agricultura familiar'', que emergiu no Brasil na década de 1990. Assim, a família é importante referência para o meio rural como vida social, pois a partir dela é estabelecido o sentimento de pertencimento a este espaço de vida.

As terras improdutivas, juntamente com o latifúndio inabitado, são exemplos de áreas sem vida social, onde a função residencial inexiste ou está reduzida. Mesmo nas áreas produtivas e altamente mecanizadas, onde não se utiliza muita mão-de-obra, há um ‘’deserto verde’’. Dessa forma, torna-se difícil encontrar vida social.

 A agricultura familiar ocupa um dos espaços rurais brasileiros onde há vida social local mais intensa², sendo uma contribuição do agricultor familiar na formulação de respostas à crise do modelo produtivista.

Discutindo as políticas governamentais

Uma das maiores dificuldades dos agricultores familiares é o acesso à linha de crédito, especialmente por ser ‘’a agricultura familiar uma prática periférica no processo agrícola do país’’, como afirma a coordenadora nacional da Fetrat Elisângela Araújo. Assim, o desafio de propostas como a do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) são grandes. Criado na década de 1990 e tendo como público alvo os agricultores familiares, o Pronaf tem como objetivo o acesso de crédito, e já designou financiamentos específicos para mulheres e jovens. No entanto, programas como esses são suficientes?

 Para o professor do Departamento de Sociologia da UFRGS Guilherme Radomski, a lógica produtivista acaba por excluir os agricultores endividados e também deixa de lado o grande montante de agricultores que não são os maiores produtores ou que ainda estão se estabelecendo em suas propriedades. Radomsky afirma que a saída encontrada por muitos deles é a pluriatividade do espaço rural, como o investimento no turismo rural ou ‘’bicos’’ em atividades não rurais.

O caso da reforma agrária

Os assentamentos da reforma agrária integram uma parcela de trabalhadores rurais que eram assalariados em propriedades alheias ou que foram expulsos do campo devido à mecanização. O retorno ao meio rural é uma reconstrução da vida local, já que os assentamentos se configuram como espaços que agregam famílias de diferentes localidades. Além de se adequarem à produção da nova região, os assentados têm que estabelecer uma vida social a partir dos contatos com outros assentados, assim como com o meio urbano próximo, principal centro de escoamento da produção.

O desenvolvimento a partir da pequena produção familiar tem grandes opositores, baseados especialmente no argumento do ‘’progresso do país’’. Eles acreditam que se buscaria a justiça social pagando-se o preço de uma agricultura com pouca tecnologia, ou essa atrasada. A reforma agrária, no entanto, é necessária para que o desenvolvimento econômico do país seja acompanhado por uma distribuição de renda. Apoiar a agricultura familiar não implica em conter a modernização agrícola, mas sim reorganizar o meio rural e seus recursos 4.

Mudanças importantes ocorreram para a agricultura familiar nos últimos anos, enquanto outros setores como a reforma agrária permaneceram estagnados. Enquanto o número de famílias assentadas não aumenta como os movimentos sociais desejam, a agricultura familiar foi oficialmente reconhecida pelo governo brasileiro, especialmente através do Pronaf. Com ele, os agricultores que antes eram vistos como a parte empobrecida do campo, hoje se tornam alternativas ao modelo de desenvolvimento do latifúndio.

Dada a conjuntura atual, está nas mãos dos movimentos sociais a função de pressionar o governo com a finalidade de obter encaminhamentos para a reforma agrária. Um dos sentidos da reforma agrária em nosso país é a ampliação das oportunidades de emprego no meio rural, fazendo com que diminua a pressão da oferta de mão de obra no mercado de trabalho urbano.

Para onde vamos?

Os países com maiores índices de desenvolvimento humano tem em comum a presença da agricultura familiar. Ela ''desempenhou um papel fundamental na estruturação de economias mais dinâmicas e de sociedades mais democráticas e equitativas 5.'' Além de incentivos na agricultura, é necessário o fornecimento de outros serviços igualmente encontrados no meio urbano.

Devemos tratar o rural com um novo enfoque. A multifuncionalidade e a pluriatividade são indícios de que o rural não é mais somente agrícola. As políticas públicas para seu desenvolvimento não devem ser voltadas exclusivamente para o setor da agricultura, e sim envolver uma gama maior, desde o investimento em piscicultura até a inclusão digital com acesso à internet com banda larga.

Espaços como o do FST são essenciais para que os movimentos sociais e ativistas se encontrem e discutam com unidade a agricultura familiar e a reforma agrária. O FST é o local para que haja o debate do meio rural como modo de vida. Assim, podemos pensar em reforma agrária, no fim da pobreza no campo, na promoção da democracia e no desenvolvimento social e sustentável. Esse é o mundo rural que desejamos. E ele é possível.

Júlia Schnorr
Historiadora e Mestranda em Comunicação (UFSM) – Pesquisa Juventude rural e televisão  (juliaschnorr@gmail.com)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Memória do Cangaço

MÚSICA: Escurinho, cantor paraibano, Vence Festival de músicas do Cangaço em Pernambuco.

Por Epitácio Andrade  

 O cantor e compositor pernambucano, radicado há várias décadas na Paraíba, Jonas Neto Escurinho foi o grande vencedor do II Festival de Músicas do Cangaço, realizado na noite de 28 de Abril, na Estação do Forró – Vila Ferroviária, em Serra Talhada/PE, capital do xaxado e terra natal de Lampião, o Rei do Cangaço.

Quando Escurinho chegou à tarde, para “passar o som” de “Nas Estradas de Bom Nome”, melhor música do festival, encontrou-se no museu do cangaço, com seu amigo Epitácio Andrade, contemporâneo da Universidade Federal da Paraíba, nos anos oitenta do século passado.

A performance de Escurinho defendendo a música vencedora foi  irretocável, valendo-lhe também o prêmio de melhor intérprete. Para o médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio Andrade, a letra de “Nas Estradas de Bom Nome” é um convite ao engajamento político para o enfrentamento das questões sociais.

 A segunda edição do festival musical do cangaço foi organizada pelo ponto de cultura “Cabras de Lampião”, patrocinada pela secretaria de cultura de Pernambuco, tendo mais de 90 composições inscritas, oriundas de todo país, e foram selecionadas vinte para a etapa final.

Na manhã seguinte à vitória de Escurinho, Epitácio Andrade foi parabenizá-lo na Pousada Lampião, onde estava hospedado, e lhe presentear com um exemplar de seu livro “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”.