quarta-feira, 2 de maio de 2012

Código florestal: veta Dilma

Ruralista quer veto integral ao Código Florestal

por Mario Coelho | 01/05/2012 07:00

Um dos maiores exportadores de suco de laranja do país, o deputado Nelson Marquezelli faz coro com os ambientalistas ao defender que Dilma derrube na integralidade o projeto aprovado pelo Congresso.

A bancada ambientalista ganhou um inesperado aliado na pressão para fazer a presidenta Dilma Rousseff vetar o Código Florestal, aprovado na última quarta-feira (25) pelo Congresso. O texto foi aprovado com amplo apoio dos integrantes da Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) e provocou protestos de petistas, parlamentares ambientalistas e organizações não governamentais ligadas à preservação do meio ambiente. O aliado inesperado é o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP). Um dos maiores exportadores de suco de laranja do país, integrante da bancada ruralista na Câmara, o petebista disse ao Congresso em Foco que se estivesse no lugar da presidenta Dilma Rousseff “vetava o texto inteiro”.

 “Se ela entender bem, vai vetar o Código inteiro. E vai chegar carregada na Rio + 20”, disparou Marquezelli. Para ele, Dilma deveria chamar especialistas em agricultura e em meio ambiente e, posteriormente, editar uma medida provisória ou uma portaria regulamentando a questão. Mas os motivos para o petebista pedir o veto são diferentes dos ambientalistas.

 Marquezelli questiona, por exemplo, a possibilidade de os produtores serem penalizados por terem desmatado antes da reforma do Código Florestal. Ele também critica duramente o papel dado ao Ministério Público. Para ele, os “promotores não conhecem o Brasil”. “O promotor vai propor a desapropriação da terra e prisão do produtor por não cumprir a lei. Ele não quer saber se produtor está produzindo ou não mil litros de leite por dia ou dez litros”, afirmou.

 A posição de Marquezelli é minoritária dentro da FPA. A bancada ruralista, de acordo com o deputado Moreira Mendes (PSD-RO), está satisfeita com o texto. Para os integrantes da frente, ele dá segurança jurídica aos produtores. O petebista discorda. Disse preferir as portarias do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O motivo é simples: não há punição criminal para quem desmatar e descumprir a legislação ambiental.

 Franco, Marquezelli faz uma outra avaliação sobre o Código aprovado. Como exportador de suco de laranja, entende que as novas regras são boas para os médios e grandes produtores, exatamente como argumentam os ambientalistas. Com menor área de plantio, o preço das commodities vai subir. No caso do petebista, a laranja.

 “O preço está baixo. Se eu tirar 1,8 milhão de pés de laranja [pela necessidade de reflorestamento prevista no Código], vai faltar laranja e subir o preço. Então eu não posso falar que estou sendo prejudicado. Eu estou sendo favorecido. Quem está sendo prejudicado é o país porque vai ter uma quantidade menor de suco para exportar, tanto industrial, quanto produtor vai ganhar mais”, afirmou.

Um terço dos alimentos consumidos pelos brasileiros está contaminado por agrotóxicos

  Fabíola Ortiz, Do UOL, no Rio de Janeiro

Há três anos o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de consumo de agrotóxicos no mundo. Um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado pelos agrotóxicos, segundo alerta feito pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em dossiê lançado durante o primeiro congresso mundial de nutrição que ocorre no Rio de Janeiro, o World Nutrition Rio 2012, que termina nesta terça-feira (1º).

O documento destaca que, enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o brasileiro aumentou 190%. Em 2008, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e assumiu o posto liderança, representando uma fatia de quase 20% do consumo mundial de agrotóxicos e movimentando, só em 2010, cerca de US$ 7,3 bilhões - mais que os EUA e a Europa.

A primeira parte do dossiê da Abrasco  faz um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde e na segurança alimentar. A segunda parte, com enfoque no desenvolvimento e no meio ambiente, terá seu lançamento durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e na Cúpula dos Povos na Rio+20, em junho, no Rio de Janeiro.

Segundo um dos coordenadores do estudo, Fernando Carneiro, chefe do departamento de Saúde Coletiva da UnB (Universidade de Brasília), “o dossiê é uma síntese de evidências científicas e recomendações políticas”.

“A grande mensagem do dossiê  é que o Brasil conquistou o patamar de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Queremos vincular a ciência à tomada de decisão política”, disse Carneiro ao UOL.

Soja é o que mais demanda agrotóxico

Segundo dados da Anvisa e da UFPR compilados pelo dossiê, na última safra (2º semestre de 2010 e o 1º semestre de 2011), o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos, sendo e 246 mil toneladas importadas.

Em 2011 houve um aumento de 16% no consumo que alcançou uma receita de US$ 8,5 bilhões. As lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açucar representam juntas 80% do total das vendas do setor.

Na safra de 2011 no Brasil, foram plantados 71 milhões de hectares de lavoura temporária (soja, milho, cana, algodão) e permanente (café, cítricos, frutas, eucaliptos), o que corresponde a cerca de 853 milhões de litros de agrotóxicos pulverizados nessas lavouras, principalmente de herbicidas, fungicidas e inseticidas. O consumo em média por hectare nas lavouras é de 12 litros por hectare e exposição média ambiental de 4,5 litros de agrotóxicos por habitante, segundo o IBGE (Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo o dossiê, a soja foi o cultivo que mais demandou agrotóxico - 40% do volume total de herbicidas, inseticidas, fungicidas e acaricidas. Em segundo lugar no ranking de consumo está o milho com 15%, a cana e o algodão com 10%, depois os cítricos com 7%, e o café, trigo e arroz com 3% cada.

Maior concentração em hortaliças

Já para a produção de hortaliças, em 2008, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o consumo de fungicidas atingiu uma área potencial de aproximadamente 800 mil hectares, contra 21 milhões de hectares somente na cultura da soja.

“Isso revela um quadro preocupante de concentração no uso de ingrediente ativo de 22 fungicidas por área plantada em hortaliças no Brasil, podendo chegar entre 8 a 16 vezes mais agrotóxico por hectare do que o utilizado na cultura da soja, por exemplo”, alerta o dossiê.

Numa comparação simples, o estudo estima que a concentração de uso de ingrediente ativo de fungicida em soja no Brasil, no ano de 2008, foi de 0,5 litro por hectare, bem inferior à estimativa de quatro a oito litros por hectare em hortaliças, em média. “Pode-se constatar que cerca de 20% da comercialização de ingrediente ativo de fungicida no Brasil é destinada ao uso em hortaliças”, destaca o estudo da Abrasco.

Riscos para a saúde

O dossiê revela ainda evidências científicas relacionadas aos riscos para a saúde humana da exposição aos agrotóxicos por ingestão de alimentos. Segundo Fernando Carneiro, o consumo prolongado de alimentos contaminados por agrotóxico ao longo de 20 anos pode provocar doenças como câncer, malformação congênita, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais.

Um fato alarmante foi a constatação de contaminação de agrotóxico no leite materno, afirmou. Para o cientista, não se sabe ainda ao certo as consequências para um recém-nascido ou um bebê que está em fase inicial de formação. “Uma criança é altamente vulnerável para esses compostos químicos. Isso é uma questão ética, se vamos nos acostumar com o nível de contaminação do agrotóxico”, criticou.

Parte dos agrotóxicos utilizados tem a capacidade de se dispersar no ambiente, e outra parte pode se acumular no organismo humano, inclusive no leite materno, informa o relatório. “O leite contaminado ao ser consumido pelos recém-nascidos pode provocar agravos a saúde, pois os mesmos são mais vulneráveis à exposição a agentes químicos presentes no ambiente, por suas características fisiológicas e por se alimentar, quase exclusivamente, com o leite materno até os seis meses”, destaca o estudo.

Recomendações

O dossiê da Abrasco formula 10 princípios e recomendações para evitar e reduzir o consumo de agrotóxicos nos cultivos e na alimentação do brasileiro. Carneiro defende a necessidade de se realizar uma “revolução alimentar e ecológica”.

Segundo o IBGE, cerca de 70 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança alimentar e nutricional, sendo que  90% desta população consume frutas, verduras e legumes abaixo da quantidade recomendada para uma alimentação saudável. A superação deste problema, de acordo com o dossiê, é o desenvolvimento do modelo de produção agroecológica.

Carneiro e sua equipe composta por seis pesquisadores defendem a ampliação de fontes de financiamento para pesquisas, assim como a implantação de uma Política Nacional de Agroecologia em detrimento ao financiamento público do agronegócio e o fortalecimento das políticas de aquisição de alimentos produzidos sem agrotóxicos para a alimentação escolar – atualmente a lei prevê 30% deste consumo nas escolas.

Além disso, o documento defende a proibição de agrotóxicos já banidos em outros países e que apresentam graves riscos à saúde humana e ao ambiente assim como proibir a pulverização aérea de agrotóxicos.

O cientista defende ainda a suspensão de isenções de ICMS, PIS/PASEP, COFINS e IPI concedidas aos agrotóxicos. “A tendência no Brasil é liberalizar ainda mais o uso de agrotóxico, só no Congresso Nacional existem mais de 40 projetos de lei neste sentido. Nós estamos pagando para ser envenenados”, criticou Carneiro.

Agricultura familiar é necessária para alimentar o mundo

por Júlia Schnorr

''Só sai, só sai, a reforma agrária, com a aliança camponesa e operária.'' A canção da viola embala o início da Marcha de Abertura do Fórum Social Temático (FST) em Porto Alegre. Mais de 20 mil pessoas caminham na Avenida Borges de Medeiros carregando faixas e cartazes. A música não para: ''Nossa primeira tarefa é ocupar toda terra produtiva/Nós queremos trabalhar/Nossa segunda tarefa é resistir/Entrar bem organizado/Enfrentar para não sair/Nossa terceira tarefa é produzir/No trabalho coletivo, colher muito e repartir.''

Ao longo do Fórum Social Temático, diversas foram as oportunidades para discutir agricultura familiar e reforma agrária. Na conferência de abertura do FST, José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), palestrou sobre Cooperativismo e agricultura familiar. O dirigente ressaltou que o uso de recursos hídricos e o de insumos agrícolas devem ser diminuídos com a finalidade de realizar uma agricultura com sustentabilidade.

O diretor-geral assumiu a FAO no ano passado definindo alguns desafios, como a segurança alimentar, o estímulo à produção de alimentos e o combate à pobreza. Para ele, não podemos ter desenvolvimento sustentável com pobreza no campo. Graziano da Silva afirmou ainda que as cooperativas são fundamentais, chegando a ser responsáveis por 30% da produção dos alimentos mundiais.

A agricultura familiar foi temática da atividade organizada pela Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar, a Fetraf. A seção sindical centrou suas discussões nos desafios cotidianas dos pequenos produtores, como a permanência dos jovens no campo e a dificuldade de acesso ao crédito. Celso Ludwig, coordenador da Fetraf-Sul, analisou que a queda do desemprego no Brasil é um impulso para que jovens rurais deixem o campo, o que agrega dificuldades para a agricultura familiar e a sucessão hereditária.

Ludwig lembra que para permanecer no campo, há a necessidade de se ter geração de renda, lazer, políticas públicas e acesso à internet – que já foi declarado um direito humano. Ao ponderar sobre o envelhecimento do campo e o modelo de desenvolvimento vigente, Ludwig se perguntou qual o tipo de agricultura que deseja. Sua resposta vem rápida e sem pestanejar: ‘’o campo é o lugar de um espaço de vida e prefiro uma agricultura com pessoas e não somente com máquinas. ’’

O rural como modo de vida

O meio rural¹ é um ‘’espaço suporte de relações específicas'', como parentesco e vizinhança, ''que se constroem, se reproduzem ou se redefinem sobre este mesmo espaço e que, portanto, o conformam enquanto um singular espaço de vida’’. É nesta conjuntura que surge a expressão ''agricultura familiar'', que emergiu no Brasil na década de 1990. Assim, a família é importante referência para o meio rural como vida social, pois a partir dela é estabelecido o sentimento de pertencimento a este espaço de vida.

As terras improdutivas, juntamente com o latifúndio inabitado, são exemplos de áreas sem vida social, onde a função residencial inexiste ou está reduzida. Mesmo nas áreas produtivas e altamente mecanizadas, onde não se utiliza muita mão-de-obra, há um ‘’deserto verde’’. Dessa forma, torna-se difícil encontrar vida social.

 A agricultura familiar ocupa um dos espaços rurais brasileiros onde há vida social local mais intensa², sendo uma contribuição do agricultor familiar na formulação de respostas à crise do modelo produtivista.

Discutindo as políticas governamentais

Uma das maiores dificuldades dos agricultores familiares é o acesso à linha de crédito, especialmente por ser ‘’a agricultura familiar uma prática periférica no processo agrícola do país’’, como afirma a coordenadora nacional da Fetrat Elisângela Araújo. Assim, o desafio de propostas como a do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) são grandes. Criado na década de 1990 e tendo como público alvo os agricultores familiares, o Pronaf tem como objetivo o acesso de crédito, e já designou financiamentos específicos para mulheres e jovens. No entanto, programas como esses são suficientes?

 Para o professor do Departamento de Sociologia da UFRGS Guilherme Radomski, a lógica produtivista acaba por excluir os agricultores endividados e também deixa de lado o grande montante de agricultores que não são os maiores produtores ou que ainda estão se estabelecendo em suas propriedades. Radomsky afirma que a saída encontrada por muitos deles é a pluriatividade do espaço rural, como o investimento no turismo rural ou ‘’bicos’’ em atividades não rurais.

O caso da reforma agrária

Os assentamentos da reforma agrária integram uma parcela de trabalhadores rurais que eram assalariados em propriedades alheias ou que foram expulsos do campo devido à mecanização. O retorno ao meio rural é uma reconstrução da vida local, já que os assentamentos se configuram como espaços que agregam famílias de diferentes localidades. Além de se adequarem à produção da nova região, os assentados têm que estabelecer uma vida social a partir dos contatos com outros assentados, assim como com o meio urbano próximo, principal centro de escoamento da produção.

O desenvolvimento a partir da pequena produção familiar tem grandes opositores, baseados especialmente no argumento do ‘’progresso do país’’. Eles acreditam que se buscaria a justiça social pagando-se o preço de uma agricultura com pouca tecnologia, ou essa atrasada. A reforma agrária, no entanto, é necessária para que o desenvolvimento econômico do país seja acompanhado por uma distribuição de renda. Apoiar a agricultura familiar não implica em conter a modernização agrícola, mas sim reorganizar o meio rural e seus recursos 4.

Mudanças importantes ocorreram para a agricultura familiar nos últimos anos, enquanto outros setores como a reforma agrária permaneceram estagnados. Enquanto o número de famílias assentadas não aumenta como os movimentos sociais desejam, a agricultura familiar foi oficialmente reconhecida pelo governo brasileiro, especialmente através do Pronaf. Com ele, os agricultores que antes eram vistos como a parte empobrecida do campo, hoje se tornam alternativas ao modelo de desenvolvimento do latifúndio.

Dada a conjuntura atual, está nas mãos dos movimentos sociais a função de pressionar o governo com a finalidade de obter encaminhamentos para a reforma agrária. Um dos sentidos da reforma agrária em nosso país é a ampliação das oportunidades de emprego no meio rural, fazendo com que diminua a pressão da oferta de mão de obra no mercado de trabalho urbano.

Para onde vamos?

Os países com maiores índices de desenvolvimento humano tem em comum a presença da agricultura familiar. Ela ''desempenhou um papel fundamental na estruturação de economias mais dinâmicas e de sociedades mais democráticas e equitativas 5.'' Além de incentivos na agricultura, é necessário o fornecimento de outros serviços igualmente encontrados no meio urbano.

Devemos tratar o rural com um novo enfoque. A multifuncionalidade e a pluriatividade são indícios de que o rural não é mais somente agrícola. As políticas públicas para seu desenvolvimento não devem ser voltadas exclusivamente para o setor da agricultura, e sim envolver uma gama maior, desde o investimento em piscicultura até a inclusão digital com acesso à internet com banda larga.

Espaços como o do FST são essenciais para que os movimentos sociais e ativistas se encontrem e discutam com unidade a agricultura familiar e a reforma agrária. O FST é o local para que haja o debate do meio rural como modo de vida. Assim, podemos pensar em reforma agrária, no fim da pobreza no campo, na promoção da democracia e no desenvolvimento social e sustentável. Esse é o mundo rural que desejamos. E ele é possível.

Júlia Schnorr
Historiadora e Mestranda em Comunicação (UFSM) – Pesquisa Juventude rural e televisão  (juliaschnorr@gmail.com)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Memória do Cangaço

MÚSICA: Escurinho, cantor paraibano, Vence Festival de músicas do Cangaço em Pernambuco.

Por Epitácio Andrade  

 O cantor e compositor pernambucano, radicado há várias décadas na Paraíba, Jonas Neto Escurinho foi o grande vencedor do II Festival de Músicas do Cangaço, realizado na noite de 28 de Abril, na Estação do Forró – Vila Ferroviária, em Serra Talhada/PE, capital do xaxado e terra natal de Lampião, o Rei do Cangaço.

Quando Escurinho chegou à tarde, para “passar o som” de “Nas Estradas de Bom Nome”, melhor música do festival, encontrou-se no museu do cangaço, com seu amigo Epitácio Andrade, contemporâneo da Universidade Federal da Paraíba, nos anos oitenta do século passado.

A performance de Escurinho defendendo a música vencedora foi  irretocável, valendo-lhe também o prêmio de melhor intérprete. Para o médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio Andrade, a letra de “Nas Estradas de Bom Nome” é um convite ao engajamento político para o enfrentamento das questões sociais.

 A segunda edição do festival musical do cangaço foi organizada pelo ponto de cultura “Cabras de Lampião”, patrocinada pela secretaria de cultura de Pernambuco, tendo mais de 90 composições inscritas, oriundas de todo país, e foram selecionadas vinte para a etapa final.

Na manhã seguinte à vitória de Escurinho, Epitácio Andrade foi parabenizá-lo na Pousada Lampião, onde estava hospedado, e lhe presentear com um exemplar de seu livro “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Grupo de taetro Wankabuki - invandindo a praça

TEATRO WANKABUKI INVADE FEIRA E SHOPPING NO DOMINGO

Vilhena, Rondônia.
Reflexão em três atos. Fome, violência e abuso sexual foram os temas representados pelos atores em cena

Imagine-se na feira, fazendo suas habituais compras de domingo, ou comendo um pastel, ou ainda uma tapioca, e ser surpreendido por um grupo de pessoas que ligam uma pequena caixa de som e começam a construir cenas teatrais.   Imaginou? Pois foi isso o que aconteceu no domingo, 29 de abril, por volta das 8 horas da manhã. O Grupo de Teatro Wankabuki, estendendo as atividades realizadas na IV Oficina de Teatro Cena Aberta, resolveu intervir em ambientes com grande movimentação de pessoas para mostrar um pouco do trabalho desenvolvido em sala de aula. Na ocasião, doze atores, divididos em três grupos, construíram cenas de acordo com temáticas pré-estabelecidas: fome, violência e abuso sexual.

Para a confecção das cenas foi utilizada a Teoria do Oprimido, desenvolvida pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, durante a década de 60, em plena Ditadura Militar. Dentro da proposta apresentada por Boal, foi adotado o jogo das massas de modelar, em que três dos atores de cada grupo ficavam inertes, enquanto o quarto ia moldando-os, conforme a cena desejada e que foi ensaiada durante a oficina. Apresentaram-se os artistas: Daniela Gonçalves, Danielle Bezerra da Silva, Dennis Weber, Elieldo Alves Paes, Herbert Weil, Isabela Tabalipa, Mayko Estefano, Rafael Reis, Rutileia Barbosa, Shely Lisboa, Stefhani Wolf e Valdete Sousa.

O resultado das intervenções realizadas na Feira Municipal do centro (no período matutino) e no Park Shopping Vilhena (no período noturno) foi positivo, segundo a presidente do Grupo de Teatro Wankabuki, Valdete Sousa. “Os atores em cena, alguns estreantes, reagiram bem à atividade. Ocorre muito nervosismo nas primeiras apresentações, e a consequência disso pode ser o esquecimento dos movimentos, no entanto, isso não aconteceu. Todos se saíram muito bem”, ressaltou.

Segundo Valdete, as intervenções realizadas pelo grupo têm caráter marginal. “Nós não trabalhamos por dinheiro. Fazemos arte pela arte. É claro que precisamos de um mínimo de recurso para poder montar uma apresentação, mas mesmo assim não temos atrelamentos com empresas. Isso faz com nossas intervenções, como essas que ocorreram, sejam livres, momentos em que podemos fazer denúncias através do teatro. E o caráter dessas denúncias já é explicitado no cotidiano das pessoas, quando elas assistem a uma novela, por exemplo, onde são mostradas cenas de violência, e às vezes, até de abuso sexual. Nós só reforçamos esses assuntos, claro que com uma proximidade muito maior do espectador, por que estamos no mesmo ambiente que ele”, explicou.

Quanto à reação do público presente Valdete disse ser possível qualquer coisa. “O que a gente percebeu foi muita dúvida por parte das pessoas que passavam pelos ambientes. A maioria parava e olhava, e que acredito que se perguntava o que era aquilo. Mas ninguém atacou a gente”, explicou rindo. “Esse tipo de atividade cênica é imprevisível. Todos que estão no local acabam se envolvendo de alguma forma. Acredito que na feira tivemos maior dificuldade, por ser um ambiente mais aberto, com pessoas gritando, outras buzinando para chamar a atenção para seus produtos e outras ainda trombando nos atores que estavam nos locais de maior fluxo de transeuntes. Muitos pararam, e ficaram realmente interessados naquilo que estava sendo exposto”, descreve.

Park Shopping Vilhena

Agora imagine-se no Park Shopping Vilhena, degustando um cappucino, um chopp ou qualquer outra coisa e de repente o som ambiente que, até então era dominado pelo sertanejo, é modificado e, irrompem dos alto-falantes as interpretações venais de Edith Piaf. Em seguida um grupo de indivíduos, todos vestidos de preto, entram e começam a criar cenas temáticas, sem pronunciar uma palavra sequer. Essa foi a segunda intervenção realizada pelo Grupo de Teatro Wankabuki, no domingo, 29 de abril. O horário escolhido pela trupe foi o noturno, e em ambiente fechado, executaram os movimentos realizados pela manhã, na feira municipal.

“O espaço do shopping é diferente. Porque não há tanto barulho quanto na feira. Todos estão sentados, degustando suas bebidas e comidas, mas quando veem uma movimentação fora do habitual, já ficam sobressaltados. Assim que entramos em cena, notamos o silêncio que aquela plateia fazia. No final aplaudiram a nossa apresentação”, disse Valdete.

Os atores

A concentração era o fator principal cobrado dos artistas em cena. “Achei que não conseguiria me apresentar, principalmente no shopping, onde muitas pessoas conhecidas estavam presentes. Mas o foco na atividade, fez com esquecesse por um momento que estava sendo observada, e assim pude realizar a atividade com desenvoltura”, relatou a universitária Daniela Gonçalves de Souza, 18, integrante do grupo há um ano.

Para o assistente social Rafael Reis, 25, que está no grupo há dois anos, a atividade foi impactante. “Não sabíamos a reação do público, então estávamos preparados para tudo. Achei que nem iríamos receber atenção das pessoas que estavam passando, mas não foi isso o que aconteceu. Muita gente parou para ver e no final aplaudiu”, descreveu.

O resultado da intervenção foi ótimo, segundo a estudante Isabela Tabalipa, 16, atriz no grupo há dois anos. “Achei muito legal a curiosidade com que as pessoas olhavam pra gente, ainda mais em uma situação não prevista por elas. Penso que elas acham que a gente seja um bando de loucos. E não estão totalmente erradas, né,” disse sorrindo.

Estreia

O nervosismo foi o grande obstáculo para aqueles que estavam iniciando nas artes cênicas, como apontou o estreante Elieldo Alves Paes, 22 anos. “Estava mais calmo na apresentação da manhã, mas quando soube que apresentaríamos aqui no shopping fiquei um pouco nervoso, mas depois da metade da apresentação conseguir ficar calmo”, narrou.

Frio na barriga também sentiu a universitária Danielle Bezerra da Silva, 22 anos. “Na apresentação da feira nem abri os olhos de tão nervosa que estava. Já na intervenção do shopping estava mais calma, mesmo com um monte de gente olhando pra mim, consegui abrir os olhos”, contou.

Foco foi a arma utilizada pelo locutor e produtor, Mayko Estefano, durante a performance. Acostumado com os bastidores do teatro, onde executa as funções de iluminador e sonoplasta, o acadêmico de Administração encarou a plateia pela primeira vez. “Mantive a concentração na atividade. Sabia que estava rodeado de pessoas, mas tinha um objetivo e acabei por cumpri-lo, sempre com uma sensação de tranquilidade me acompanhando”, falou.

Para o jornalista Herbert Weil, estrear com intervenções em espaços públicos e privados foi desafiador. “Isso porque o público foi escolhido pela gente, e não ao contrário, como é comum de acontecer. Então você fica ansioso, pensando o que pode acontecer durante a apresentação. Mas a atividade superou minhas expectativas. De um modo geral, achei muito pertinente a proposta da intervenção, de ter esse tom de denúncia. As performances que realizamos tiveram como objetivo mostrar que problemas existem, e que a gente deve parar para pensar neles e procurar uma solução”, descreveu.

TEXTO: ASSESSORIA

FOTOS: NAYARA PECINATO

domingo, 29 de abril de 2012

Ruir do silêncio, Pedro Pereira, Natal, RN

Ein leben für den wald und seine menschen

Zum Tode von Doroti Müller Schwade

Bernd Lobgesang


BrasilienNarchrichten


Doroti Alice Müller Schwade

Ende vergangenen Jahres verstarb plötzlich und unerwartet unsere Freundin und Mitstreiterin Doroti Müller Schwade. Doroti stammte aus Blumenau im Bundesland Santa catarina. In den siebzigern verliess sie ihre Heimat und engagierte sich in den darauffolgenden Jahren bei de Indianerschutzorganization OPAN (Operação Anchieta, heute Operação Amazônia Nativa) und beim katholischen Indianermissionsat (CIMI). Zu Beginn ihrer Tätigkeit nam sie Kontakt mit den Indianervölkern in Acre und im südlichen Teil des Bundeslandes Amazonas auf erstellte eine Übersicht úber ihre Siedlungsgebiete, ihre algemeine Lage und den Grad ihrer Gefährdung durch die nichtindianische Bevölkerung. Es war der erste Schritt für diese Ureinwohner, die damals noch abfällig als Caboclos, also Indianermischilinge, bezeichnet wurden, um sich aus der dumpfen Abhängigkeit von den Kautschuksammlern zu befrein und den Kampf um die Demarkation ihres Landes zu beginnen. Doroti gehörte zu den Gründern des CIMI Westamazonien und wurde später zu seiner Koordinatorin gewählt.

Die folgende kleine Geschichte mag ihr Engagement für die Ureinwohner erhellen: Als sie 1977 in Lábrea, einer kleinen Stadt am Ufer des Rio Purus im Bundesland Amazonas, ankam, ging sie zur Prälatur und informierte die örtliche Kirchenverwaltung über die von ihr geplante Reise zu den in der Region lebenden Indianervölkern. Frei Jesus, der heutige Bischof von Lábrea, nam sie damals in Empfang. Er merkte schnell, dass Doroti allein ins Indianergebiet reisen wollte. Vergeblich versuchte er, sie davon abzuhalten, indem er ihr die Risiken einer derartigen Reise durch den Urwald vor Augen stellte. Vergebens. Da er sie von Ihrern Plänen nicht abbringen konnte, packte Frei Jesus seine Sachen zusammen und begleitete sie auf ihrer gefährlichen Fahrt.

Dorotis arbeitsgruppe betreute die Jarawara, Paumari und Jamamadi. Die Station, die vie sie anderen Häuser der Region auf Pfählen errichtet wurde, um die saisonalen Überschwemmungen überstehen zu können, lag in einer als Estação bezeichneten Siedlung Gummizapfern und befand sich eine Tagesreise von Lábrea entfernt. Doroti untersuchte die Lebensverhältnisse der Indianer und Gummizapfer sehr genau und arbeitete darauf hin, die immensen Vorurteile zwischen beiden Bevölkerungsgruppen abzubauen und insbesondere den oft aus Nordostbrasilien stammenden Gummizapfern klarzumachen, dass sie von den Kenntnissen der Indianer über Flora und Fauna profitieren konnten. Das war nicht leicht, denn die Nordestinos gingen oft davon aus, sie allein seien die Zivilisierten und damit den „Wilden“ Indianer überlegen. Dabei ernährten sich die Gummizapfer oft schlechter als die Indigenen und vegetierten in mindestens genauso grossem sozialen Elend wie diese dahin.

1979 heiratete Doroti Egydio Schwade, den damaligen Sekretär des CIMI. Das Paar liess sich zunächst in Itacoatiara/Amazonas in der Prälatur von Dom Jorge Marskell nieder. Sie wollten den beiden Völkern Waimiri-Atroari möglichst nahe sein, denn hier sollte ihre Arbeit so schnell wie möglich beginnen. Aus diesem Grund zogen sie auch 1984 nach Presidente Figueiredo, einen Ort, der wäherend der Zeit der Militärdiktatur widerrechtlich auf dem Land der Waimiri-Atroari gegründet wurde. Von hier aus bereiteten sie ihren Aufenthalt bei den Indianern vor.

Damals gehöhrten die Waimiri-Atroari zu den gefährdetsten Indianervölkern Amazoniens. Beim Bau der Überlandstrasse BR 174, die Manaus mit Venezuela verbindet, kam es von 1968 bis 1974 zu bludigen Auseinandersetzungen zwischen den militärischen Bautrupps und den Ureinwohnern. Auf dem Höhepunkt der Konflikte bombardierte die brasilianischen Luftwaffe mehrere Dörfer der Waimiri-Atroari. Die wenige Jahre später beginnende Förderung von seltenen Bodenschätzen durch das Bergbauunternehmen Mineração Taboca und der in den Achtzigern angelegte Balbina-Stausee mit seinem Wasserkraftwerk, das laut Planungen ganz Manaus und die wachsende Freihandelszone mit Energie versorgen sollte, verringerten erheblich den Landbesitz der Waimiri-Atroari. Ihre Zahl schmolz während der Verfolgung und des Genozids auf etwa 350 Menschen zusammen. Allein während der Zeit des Strassenbaus kamen an die 2.000 Waimiri-Atroari ums leben.

Nach dem Ende der Militärdiktatur (1964-1985) nahmen Doroti und Egydio den Kontakt mit den Dörfern der Waimiri-Atroari wieder auf und wurden von mehreren Dorfgemeinschaften offiziel dazu eingeladen, Alphabetisierungskurse in der Sprache der Ureinwohner durchzuführen. Da die beiden das Idiom der Waimiri-Atroari noch nicht beherrschten, entstand ein gegenseitiger Alphbetisierungsprozess, der gerade am Anfang durch bilder und Zeichnungen in Gang kam. So blieb es nich aus, dass die Verbrechen der Militärs zur Sprache kamen. Auf den Bildern der Indianer waren nicht nur Tiere und Pflanzen des Waldes zu sehen, sondern auch Dörfer bombardierende Flugzeuge und tote Waimiri-Atroari. Die Aufdeckung und Publizierung dieser Verbrechen stiess bei den offiziellen Stellen auf direkten Widerstand, und 1886 verbot die staadliche Indianerstiftung FUNAI den Schwades den Zugang zum Reservat der Waimiri-Atroari. Zu jener Zeit wurde die staatliche Indianerpolitik noch mehr als heute von Leuten des alten Systems bestimmt, die eine Aufdeckung und Verurteilung der Verbrechen des Militärregimes unter allen Umständen verhindern wollten.

Nach der erzwungenen Rückkehr nach Presidente Figueiredo widmeten sich die Schwades anderen Themen. Sie bauten das „Kulturhaus Urubuí“ vornehmlich als Bildungsstätte für die örtliche Bevölkerung und die Studenten aus dem 100 km entfernten Manaus auf. Zusammen mit ihren fünf Kindern beschäftigten sie sich intensiv mit der Imkerei. In kostenlosen Kursen in vielen Regionen Amazoniens gaben sie ihr Wissen über die Bienenzucht an die dortige Bevölkerung weiter. Gerade in der Honigproduktion erkannten sie eine ideale Möglichkeit, den Regenwald zu nutzen und ihn vor der Zerstörung zu schützen, denn die Bienen können nur dann Honig herstellen, wenn der Wald bestehen bleibt und nicht der Brandrodung zum Opfer fällt. Doroti nahm neben ihren vielfältigen familären Aufgaben regen Anteil an der Entwicklung von Ideen, wie man die unfruchtbaren Böden Amazoniens verbessern und sie naturverträglich nutzen kann. Sie baute ihr Wissen über die Pflanzen Amazoniens immer weiter aus und wurde zur anerkannten Fachkraft für nachhaltige kleinbäuerliche Landwirtschaft unter den besonderen Bedigungen des Amazonasregenwaldes.

Doroti war eine Frau, die immer in Bewegung blieb. Trotzdem wirkte sie nie überanstrengt oder am Ende ihrer Kräfte. Mit grosser innerer Ruhe und grosser Freundlichkeit blickte sie allem und jedem entgegen. Davon zeugt auch die folgende Anekdote: Als die Schwades mit Hilfe einiger Freunde das Haus in Presidente Figueiredo bauten, gesellte sie ein Musiker zu ihnen, setzte sich auf die Veranda und spielte auf seiner Flöte. Doroti lud ihn zum gemeinsamen Essen ein, das er gerne annahm. Danach ging er, ohne dass er seinen Namen genannt hatte. Doroti blickte sich um und sagte: „Dieses Haus wurde durch diesen Besuch gesegnet. Hier wird es niemals an Essen fehlen!“

So war es auch in all den darauffolgenden Jahren. Wir, die Mitglieder der Brasilienhilfe e.V. und viele andere, genossen gerne Dorotis Gastfreundschaft: Ihre fachliche Kompetenz in allen Amazonien betreffenden Fragen und ihre Menschlichkei werden wir schmerzlich vermissen.


Mito da Caverna - Platão

Mitos científicos se perpetuam mesmo quando são desvendados

Umberto Eco

Na verdade, os neutrinos não viajam mais rápido do que a velocidade da luz. Cientistas reafirmaram isso em março, corrigindo as conclusões extraídas de um experimento em setembro passado que pareceu virar de cabeça para baixo a teoria especial da relatividade de Einstein. De acordo com reportagem da Science, o erro do outono passado pode ter sido resultado de uma conexão falha de fibra óptica entre o receptor GPS e o computador usado para calcular o tempo que os neutrinos levavam para viajar de CERN em Genebra até um laboratório na região de Gran Sasso, na Itália. Evidentemente, os cientistas tinham a intenção de replicar o experimento para tentar determinar se aquilo que não era verdade era de fato verdade. Veremos.

Fiquei surpreso ao ler que os neutrinos provavelmente não são mais velozes do que a luz, afinal, também fiquei bastante impressionado quando descobri que o espinafre não continha nem perto da quantidade de ferro que diziam antes. Durante os anos 30, os produtores de espinafre atribuíam a Popeye – e à crença popular de que ele devia sua força ao ferro do espinafre – um aumento de 33% do consumo da verdura. Esta tendência fez com que os produtores e vendedores de espinafre erguessem estátuas em homenagem a Popeye em Crystal City, Texas; Chester, Illinois; e Alma, Arkansas.

Num artigo recente na revista Query na Itália, Sergio della Sala e Stefania de Vito citaram uma tabela de valores nutricionais publicada pelo Departamento de Agricultura dos EUA, que mostra que 100 gramas de espinafre contêm 2,7 miligramas de ferro. (E este é o espinafre fresco – o enlatado, como o do Popey, tem apenas 2,3 miligramas.) Por comparação, 100 gramas de fígado de galinha contêm 11,6 miligramas de ferro. Se o Popeye engolisse fígado de galinha com a mesma voracidade com que ele devorava lata após lada de espinafre, ele poderia ter agarrado o Super-Homem pelo calcanhar e o colocado em órbita.

De acordo com uma teoria há muito estabelecida conhecida nos círculos científicos como História do Erro Decimal do Ferro no Espinafre do Popeye, ou SPIDES, na sigla em inglês, o criador do Popeye, E.C. Segar, entendeu errado a quantidade de ferro no espinafre por causa de uma vírgula colocada na casa decimal errada. Diz-se que no ano de 1870 um certo Dr. E. von Wolff publicou uma tabela na qual a vírgula da casa decimal aparecia no lugar erado – e que o erro foi retificado nos anos 30, mas Segar não sabia disso.

Entretanto, parece que até a hipótese SPIDES é falsa. Filologistas nos dizem que Segar escolheu o espinafre para alimentar seu herói dos quadrinhos não por causa de seu conteúdo de ferro, mas por causa de seu alto teor de vitamina A. Vale a pena olhar um dos inúmeros textos dedicados ao assunto – talvez o mais famoso seja "Espinafre, Ferro e Popeye", um artigo de 2010 escrito por Mike Sutton no Internet Journal of Criminology. A história pode parecer sem consequências na superfície, uma vez que está ligada a um personagem de quadrinhos. Mas é significativa, considerando o negócio multimilionário que emergiu do fato de este famoso marinheiro declarar qual era sua verdura favorita. O incidente é só um exemplo de como os mitos nascem e se perpetuam.

Outra informação: numa edição recente do jornal italiano La Repubblica (que também, incidentalmente, quase chamou os neutrinos de tartarugas), havia uma discussão sobre a necessidade de uma cultura multilíngue. Isso é óbvio, pode-se dizer, hoje em dia. Mas por muito tempo sustentou-se que para superar a Babel de línguas era necessário inventar uma linguagem universal, e muitas línguas assim foram propostas – algumas delas excelentes, como o Esperanto. Mas no final, uma língua natural – o inglês – ganhou o dia.

A ideia de desenvolver uma linguagem universal feio de outro mito de mil anos: de que nos tempos primordiais havia a língua de Adão, uma língua perfeita que foi perdida com o escândalo da Torre de Babel. Vide a busca espasmódica pela língua perdida, ou por uma que possa substitui-la.

Hoje nós sabemos que não existe nada parecido com uma língua perfeita – que as línguas se desenvolvem espontaneamente de acordo com as necessidades das pessoas, que evoluem. Mas há uma história esplêndida contada por Ibn Hazm, um pensador árabe do século 11: no início, disse ele, existia uma língua dada por Deus, mas esta língua continha todas as outras, que se separaram só depois. Então o dom de Adão era o poliglotismo, e por esse motivo, todos os homens podem entender revelações em quaisquer línguas que sejam expressas.

Este é um ótimo mito com o qual encorajar o poliglotismo – uma habilidade, incidentalmente, que será útil para perpetuar, e derrubar, mitos.

sábado, 28 de abril de 2012

Jurema - Rita Ribeiro

Centro Afro realiza curso de história da umbanda

Por Prefeitura de Araraquara

O Centro de Referência Afro Mestre Jorge realiza, a partir do próximo sábado (21), o curso “Percussão Afro e História da Umbanda”, com Reinaldo Leão. A atividade, realizada pela Prefeitura de Araraquara, por meio da Coordenadoria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial, é gratuita.

 As aulas serão realizadas aos sábados, das 14 às 18 horas, com duração de oito meses, seguindo até dezembro. Restam 20 vagas. Alessandra de Cássia Laurindo, coordenadora municipal de Promoção da Igualdade Racial, lembra que a ideia do curso surgiu na última Plenária do Orçamento Participativo, com temática Afro. “O objetivo do curso é desmistificar um imaginário preconceituoso que se tem das religiões de matrizes africanas e desenvolver uma linguagem que imponha a respeitabilidade que o segmento merece”.

De acordo com Leão, o curso visa “principalmente combater a intolerância religiosa e mostrar a amplitude e de uma cultura existente”. Ele acredita que atualmente muitas religiões de origem escrava ainda são discriminadas, por falta de informação.

A abordagem do curso vai desde os primórdios da história Afro-Brasileira. “Começa antes da escravidão do Brasil. Conto a história de um modo geral, pautando não só a história, mas a formação de cada religião, como a formação do candomblé, que é brasileiro”.

Também, a questão musical é desenvolvida, e conta com 30 atabaques cedidos especialmente para o curso. “Há uma abordagem dos cantos e toques de percussão afro. A ideia, nessa parte, é incentivar a busca do aprendizado das cantigas e dos Orixás, Congo (pretos velhos), Culto a Jurema (caboclos), Catimbó (origem européia) – entre outros”.

Ainda, outra abordagem diz respeito aos direitos e deveres dos cidadãos. “Infelizmente ainda encontramos intolerância religiosa e preconceito racial. Sou contra toda manifestação de preconceito e acredito que o ser humano merece respeito e também possuir a sua individualidade”.

Para Leão, o curso tem a ideia de aprofundar e ampliar o interesse do aluno. “O curso dá amplitude para a pessoa escolher o segmento dela e devolver. A partir da aula, a pessoa decide para onde ir, qual linha seguir”, diz referindo-

se às religiões apresentadas durante o curso. “A umbanda é um choque de diversos cultos religiosos”. Leão enfatiza que o curso “é aberto a todos, independente de cor de pele e classe social”. Ele destaca que, entre os já inscritos, há descendentes japoneses, italianos e árabes. “É muito bom reunir diversos segmentos e etnias para abordamos a temática das religiões afro”.

Na última semana o professor – que estuda Gestão de Recursos Humanos – apresentou o curso para aqueles que já estão inscritos. “Foi apresentado um pouco de história, com ênfase nos percussivos. Na próxima semana, damos um gancho novamente”, reforçou Leão.
Para inscrição basta comparecer ao Centro de Referência Afro, munido do RG. O Centro Afro está localizado na Av. Duque de Caxias, 660, no Centro. O horário de atendimento para inscrições é das 9 às 17 horas.