sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Mãe Stella de Oxóssi

Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kayodê, nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de Azevedo Santos.
Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha de Maria Konigbagbe, africana de etnia egbá[1]. Aos nove anos de idade, Maria Konigbagbe estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil.
Sua tia, Dona Arcanja, também conhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no Gantois e de Sobalojú[2] no Opô Afonjá nos tempos de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por volta dos treze anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento não esperado, o que fez com que Dona Arcanja procura-se ajuda do oluô Pai Cosme de Oxum, o qual declarou que ela deveria ser iniciada e que seu caminho era de ialorixá. Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha do Gantois. Dona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia.[3] Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de Dezembro de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora.
Mãe Stella conta:
"Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossi dagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossi dagã era o cargo que ela ocupava no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobalojú do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossi dagã reinava como ialorixá do Axé Opô Afonjá."
Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orukó (nome) de Odé Kayodê. Mãe Stella conta que quando foi realizada sua iniciação, ela "não pensava em nada", "não tinha noção" do que estava acontecendo:
"É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser ialorixá. Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida iá, entendi isso... é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria."
Lizete Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no Gantois para Iansã, relembra:
"Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada, com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão."
Mãe Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de trinta anos.
Em 29 de junho de 1964, foi designada Kolabá[4] por Mãe Senhora. Filha dileta de sua mãe-de-santo, pouco a pouco foi aprendendo os grandes mistérios e segredos do candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma iaô - Celenita – que era filha de Ogum.
Em 19 de março de 1976, foi escolhida para ser a quinta iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, conforme consta no livro de atas do conselho religioso do próprio terreiro, a seguir:
Transcrição da ata registrada no dia 19 de março de 1976 do livro de Atas do Conselho Religioso:
Aos dezenove dias do mês de março de 1976 (hum mil novecentos e setenta e seis), presentes 136 pessoas, todas com suas assinaturas gravadas no livro de Atas do Conselho Religioso deste Axé, às 10 horas e 45 minutos, no Barracão, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário da Sociedade Civil (Obá Xorun), dirigi-me a todos os presentes, solicitando que se aproximassem da mesa onde seria realizado o jogo para a escolha da futura Iyalorixá, uma vez que antes do jogo ser iniciado, o professor Agenor Miranda, Babalaô, considerado o único Oluô no Brasil, filho espiritual da falecida Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha), irmão da também falecida Ondina Valéria Pimentel, vindo do Rio de Janeiro exclusivamente para esta cerimônia, irá fazer uma dissertação do que acontecerá em seguida. Com a segurança que lhe é peculiar, e a franqueza de sempre, ele se dirigiu aos presentes nos seguintes termos: "Não estou aqui para ser agradável a quem quer que seja, sei que muitos dos presentes já fizeram sua escolha, porém eu estou aqui para cumprir a determinação de Xangô, e advirto a todos os filhos e filhas, Obás e Ogãs, e a todos vinculados a este Axé, que vontade de Xangô é Lei, é sagrada, e sua escolha, sobre quem quer que caia, terá de ser por todos acatada e respeitada, e a filha deste Axé que for por ele escolhida não deverá se deixar levar pelo coração, e deverá, sim, agir com justiça e sabedoria, promovendo a união de todos, e acima de tudo ter pulso forte para manter a hierarquia, doa em quem doer". A hierarquia, ele repetia que tinha de ser mantida acima de tudo. Sentou-se em seguida para dar início ao jogo. Ao seu lado direito estava sentada Eutrópia de Castro (lyakêkêrê), aos eu lado esquerdo o Assobá Deoscóredes dos Santos, e em volta destes, representações do Engenho Velho, Gantois, Bate-Folha, e de diversas outras Casas da Bahia e do Rio de Janeiro, e ainda os membros do Conselho Religioso. O Professor Agenor Miranda segurou os búzios e concentrou-se. Todos os presentes conservaram um silêncio absoluto, atentos ao professor. Ele deu início à leitura, e falou EJIONILÊ, recolheu os búzios e, após uma pausa, jogou-os novamente e falou ODI, e novamente usados os búzios falou OXÉ, em seguida OSSÁ, após nova concentração usou novamente os búzios e falou EJILASEBORÁ, apresentando Oxossi, em seguida falou ÔFUN trazendo ORUKÓ de ODÉ KAIODÊ; novamente o professor usou os búzios e voltaram OSSÁ e OXÊ, os Odus de Odé Kayodê, filha do Axé a quem Xangô escolhia e determinava ser a nova Iyalorixá. O professor Agenor se dirigiu aos presentes, dizendo que se ali, naquele momento, houvesse algum Oluô, ou pessoa que sabe ler nos búzios, que se aproximasse e viesse ler e constatar o que ali estava determinado por Xangô. Em seguida, como é de praxe, o Assobá partiu um OROBÔ e pediu a Xangô confirmação do que disseram os búzios, e por duas vezes seguidas a palavra foi confirmada com ALAFIÁ. O Professor Agenor procurou saber quem atendia pelo nome de Odé Kayodê, e Stela Azevedo se apresentou e foi notificada pelo Professor Agenor ser ela a escolhida por Xangô para dirigir os destinos do Axé. Dirigindo-se a mim, solicitou que eu notificasse em voz alta o que Xangô acabara de determinar. Comuniquei aos presentes que, por determinação e vontade de Xangô, fora escolhida a filha do Axé de nome Stela Azevedo - Odé Kayodê - Kolabá, para ser a Iyalorixá a partir daquele instante. Todos os presentes acolheram minhas palavras de pé e com uma salva de palmas. Em seguida, um a um, os filhos deste Axé de Opô Afonjá, os representantes das diversas casas ali presentes, os visitantes, todos, enfim, foram cumprimentar a nova Iyalaxé, que se curvava à vontade de Xangô, e como mais nada atinente ao assunto tivesse de ser registrado, encerrei a ata feita no livro de Atas do Conselho Religioso, assinando a mesma, em Salvador, 19 de março de 1976, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário (Obá Xorun), o Presidente Carybé, senhor Hector Bernabó (Otun Obá Onasokun) e os diretores presentes, Mario M. Bastos, Deoscóredes Maximiliano dos Santos.
Quando Mãe Stella foi escolhida ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Dona Milta explicou que não conseguia aceitar o peso da responsabilidade que caía sobre os ombros da irmã:
"Corri para dona Menininha do Gantois, implorando que ela desse um jeito, mas ela, Mãe Menininha, disse: 'Isso não é comigo, isso é com os orixás, eles sabem que Stella tem força, eles a conhecem. Vi que era um poder maior e lembrei de Camões, 'Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta...' Vi que não podia fazer nada."
Em 1981, Mãe Stella visitou templos e casas de orixás em Oshogbo na Nigéria. Ela cumprimentava as pessoas, era recebida por todos e, uma vez, ao entoar um canto para Oxum, à sua voz incorporaram-se outras. Houve total entendimento e todos se emocionaram. O mesmo se deu nas cidades de Ile-Ifé e Ede. Apesar das barreiras linguísticas, fez amigos e foi homenageada. Em 1983 o professor Wande Abimbola, à época reitor da Universidade de Ile-Ifé, fez questão de realizar em Salvador, na Bahia, a II Conferência da Tradição dos Orixá e Cultura, porque sabia haver em Salvador raízes profundas da cultura iorubá.
O primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de Julho de 1983, em Salvador, quando lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova Iorque, EUA.
Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.
Em 1999, Mãe Stella conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.
Prêmios
  • Em 2001 ganhou o prêmio jornalístico Estadão na condição de fomentadora de cultura.
  • Em 2009, ao completar setenta anos de iniciação no Candomblé, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia. É detentora da comenda Maria Quitéria (Prefeitura do Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e da comenda do Ministério da Cultura.
  • Em 2010, recebeu das mãos da vereadora Olívia Santana uma placa pelo centenário do terreiro Opó Afonjá ao lado do ministro da Cultura, Juca Ferreira e do secretário estadual da Cultura, Márcio Meirelles, no Plenário da Câmara de Salvador, Bahia. (fontes: Diário Oficial do Legislativo, 15 de Julho de 2010.)
Livros de Mãe Stella de Oxóssi
  • "E Dai Aconteceu o Encanto", Maria Stella de Azevedo Santos e Cléo Martins, Salvador, 1988.
  • "Meu Tempo é Agora ", Maria Stella de Azevedo Santos. 1a Edição: Editora Oduduwa, São Paulo, 1993. 2a Edição: Vol.1. Salvador, BA: Assembléia Legislativa da Bahia, 2010.
  • "Lineamentos da Religião dos Orixás - Memória de ternura"- Cléo Martins, 2004; participação especial de Mâe Stella - Alaiandê Xirê- ISBN 8590467813.
  • "Òsósi - O Caçador de Alegrias", Mãe Stella de Òsósi, Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006
  • "Owé - Provérbios" - Salvador - 2007.
  • "Epé Laiyé- terra viva", conta a história de uma árvore que ganha pernas e vai lutar pela construção de um mundo que respeita o meio-ambiente. Em sua trajetória o personagem ganha ajuda do orixá Ossain, divindade que domina o conhecimento sobre o mundo vegetal. Salvador - 2009.
Notas
  1. O Egba é um subgrupo étnico dos iorubá da Nigéria, formado ainda pelas subdivisões: Ake, Owu, Oke Ona, Gbagura e Ibara. Cada subdivisão tem seu próprio rei. O termo Egba refere-se a boa parte dos nativos da cidade de Abeokuta, a capital do estado de Ogum. Localiza-se no sudoeste da Nigéria. Tem cerca de 751 mil habitantes. Durante o período colonial britânico, o colonizador apontou o rei de Ake como o principal governante e portanto este é conhecido como o rei da terra do Egba. Os títulos dos reis das subdivisões são: Alake da terra dos Egba, o Olowu de Owu, o Agura de Gbagura, o Oshile de Oke Ona, e o Olubara de Ibara. Vale notar que que a cidade original dos Egba se encontrava em torno da pedra Olumo, que hoje se chama Oke Ona Egba.
  2. O olheiro de Xangô.
  3. Sobre esse episódio, Mãe Menininha falaria mais tarde que "Stella era para ser daqui, mas não foi por causa de um recado mal dado."
  4. Título relacionado ao culto de Xangô

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini

O Êxtase de Santa Teresa é uma escultura de Gian Lorenzo Bernini(1598-1680) um dos maiores escultores do século XVII, representando a experiência mística de Santa Teresa de Ávila trespassada por uma seta de amor divino por um anjo, realizada para a capela do cardeal Federico Cornaro. A madre Teresa de Jesus, nascida Teresa de Cepeda y Ahumada morreu em Alba de Tormes em 4 de Outubro de 1582.
Esculpida durante o período de 1645-1652, seguindo as tendências do estilo barroco, hoje ela se encontra em um nicho em mármore e bronze dourado na Capela Cornaro, Igreja de Santa Maria della Vittoria, Roma. A beleza da obra se deve ao uso da iluminação e da fidelidade da escultura, que conferem à obra sensibilidade, pois o escultor aplicava em suas esculturas o uso de corpos alongados, gestos expressivos, expressões mais simples mas mais emocionadas.
Bernini seguia as determinações da Igreja Católica Romana, que diziam que a a arte religiosa deveria ser inteligível e realista, e servir, acima de tudo, como um estímulo emocional à religiosidade. Bernini serviu a Cidade do Vaticano durante muito tempo, criando esculturas feitas por pedido.

O Êxtase de Santa Teresa, por Jonathan Quartuccio

             A arte, sem dúvida alguma, é uma forma de expressar um sentimento, uma história ou até mesmo uma mensagem. Muitos artistas deixavam algo em oculto em suas obras, e quando paramos para observar e estudar a obra percebemos a real mensagem que o artista quis passar.
Porém, algumas obras deixam a verdade bem a mostra, sem “ocultismo”.
Uma das obras mais famosas de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) é O Êxtase de Santa Teresa. Assim que foi inaugurada essa obra, por ordem do Papa Urbano VIII, foi transferida de sua localização original. De acordo com o Papa, a obra apresentava um conteúdo “sexual” explícito, e isso não é admitido em uma Igreja.
A escultura foi para outra Igreja, escolhida pelo próprio Bernini.
Embora a escultura tenha sido executada brilhantemente, com os cuidados dos traços e feições dos personagens, não é uma obra própria para uma Igreja cristã, pois todos conseguem notar que Santa Teresa está deitada entregue a um grande orgasmo. Basta observar sue feição.
Santa Teresa era uma freira, que recebeu sua santificação quando afirmou que um anjo lhe visitou enquanto dormia. Embora, os estudiosos acreditem que a visita foi mais sexual do que espiritual. Para chegar a essa conclusão basta analisar um trecho do diário da Santa:
“... sua grande lança dourada, cheia de fogo, penetrou em mim várias vezes até minhas entranhas. Uma doçura tão extrema que desejaria que nunca cessasse.”
Podemos agora tirar as conclusões e responder se o Papa Urbano VIII realmente tinha razão ou se estava apenas delirando.

Erotismo e pornografia numa perspectiva macrossociológica

Entrevista com o professor Sebah (Sebastião Costa Andrade, Sociólogo)

O nosso entrevistado desta edição é Sebastião Costa Andrade ou, como é mais conhecido, Prof. Sebah. Ele fez Mestrado em Ciências Sociais e Doutorado em Sociologia (Universidade Federal da Paraíba). É professor titular na Universidade Estadual da Paraíba. Faz pesquisa sobre sexualidade, idoso e novas tecnologias. É poeta (Cânticos eróticos e entrelaçados. R. Janeiro: t.mais.oito, 2008); publicou seu trabalho de Mestrado O homem e a mulher no cancioneiro popular: um olhar antropológico (Ed. Manufatura, 2002) e, agora, mais recentemente, Desejos desvelados. Erotismo e pornografia numa perspectiva macrossociológica (Curitiba: Instituto Mémoria, 2009, 150p), sobre o qual ele vai nos falar nessa entrevista.
Publicação adaptada da sua tese de Doutorado em Sociologia na UFPB (2005), em Desejos desvelados. Erotismo e pornografia numa perspectiva macrossociológica, o autor coloca em foco o erotismo e a pornografia com o apoio de uma abordagem hermenêutica sobre a sexualidade, marcada que é por preconceito, mitos e tabus. Nesta sua obra, Sebastião Andrade investiga a sexualidade que contrata e que se oferece em anúncios de revistas de gênero e no cibersexo da internet, com destaque para a marginalidade, a preferência, os preconceitos e a relatividade do senso comum sobre o tema, desvelado em intimidade, privacidade e fantasia erótica partilhadas. O seu desafio foi entender o significado e as fronteiras dos atores e desses cenários na perspectiva macrossociológica. Mais do que a preocupação com um resultado ou uma análise conclusiva, o autor nos convida, com esta obra, a investigar esse universo mais ou menos escondido numa leitura muito interessante, livre de preconceitos e com caráter científico.
>> CVA - Olá Prof. Sebah, eu nem vou dizer que tive “prazer” em ler os teus livros porque a palavra prazer neste universo não é inocente rsrsrrsrs ... brincadeira à parte, certamente o tema da sexualidade interessa e ele é colocado no teu livro de forma prazerosa e científica. Conta essa façanha pra nós: falar de prazer de forma científica....
Prof. Sebah - Primeiramente quero agradecer pela gentileza e generosidade em abrir esse espaço para a realização desta entrevista, o que me honra muito. Pois é, quando nós nos aventuramos num campo de pesquisa não muito convencional, geralmente pisamos num terreno movediço. Somos muitas vezes vítimas de certas críticas maliciosas e sem rigor, mas é justamente por estar buscando o desconhecido que a dose de prazer é mais intensa. Pesquisar esse universo tão escorregadio e marcado por preconceitos e tabus foi uma experiência extremamente rica, tanto do ponto de vista acadêmico quanto pessoal. Foi um espaço bastante rico para eu poder exercitar a prática tão cara ao ofício antropológico: a relativização.
>> CVA - Sexualidade, Amor, Pornografia e Erotismo são temas tratados no teu livro. Dá pra conceituar e distinguir cada um deles?
Prof. Sebah - Esta não é uma questão fácil de responder. Esses conceitos são complexos e de sentidos e significados múltiplos. Demarcar o território do erotismo e da pornografia é uma tarefa arriscada. Vou tentar mirar apenas nos fenômenos do erotismo e pornografia, já que incluir o amor e a sexualidade demandaria muito espaço. Podemos dizer, em linhas gerais, que há alguns traços singulares entre o erotismo e a pornografia que nos possibilitam estabelecer uma diferenciação razoavelmente aceitável. Uma das diferenças mais comuns diz respeito ao "teor" mais nobre do erotismo, em contraposição com o caráter "vulgar" da pornografia. O que confere esse grau de nobreza ao erotismo é o fato dele não se vincular diretamente ao sexo, enquanto que a pornografia encontra no sexo e na sexualidade seu espaço privilegiado. Dessa forma, o erotismo estaria mais próximo do sexo implícito (portanto aceitável) e a pornografia do sexo obsceno, direto, explícito e comercializável. Porém, distinções desta natureza podem nos conduzir a práticas preconceituosas! Afinal de contas, erótico ou pornográfico, depende dos contextos histórico, cultural ou moral onde esses fenômenos estão inseridos.
>> CVA - Certamente. Existe a sexualidade feminina e a sexualidade masculina bem como seus respectivos desempenhos e valores, eu penso; no teu livro, você não as distingue quando as aborda. Isso foi intencional? E afinal elas são de fato distintas, quando se trata de pornografia e erotismo?
Prof. Sebah - Posso dizer-te que foi intencional. As sexualidades masculina e feminina são aparentemente complementares e antagônicas. Os valores que permeiam essas distintas sexualidades são construídos culturalmente, daí que homens e mulheres se relacionam distintamente com o erotismo e a pornografia. Embora seja perigoso generalizar, poderíamos dizer que a sexualidade feminina por ser mais holística e apelar para valores mais abrangentes (como o afeto, a sensibilidade, a compreensão, etc.), estaria mais próxima do erotismo; enquanto que com os homens, expressando uma sexualidade mais fragmentada, estariam mais próximos da pornografia. No entanto, não podemos ir muito longe com essas distinções. Essas fronteiras são tênues, embora em termos de tendência, minha pesquisa tenha revelado que homens dão preferência e são mais envolvidos com os apelos pornográficos do que as mulheres. Mas, volto a salientar, não devemos cair em generalizações.
>> CVA - Eu confesso que fiquei surpresa com a robustez da bibliografia da tua pesquisa sobre o tema, temos boas contribuições teóricas brasileiras, inclusive. Ainda assim, me parece que a Antropologia e a Sociologia falam muito pouco sobre erotismo e pornografia, você concorda?
Prof. Sebah - Sem dúvida, apesar de termos uma bibliografia considerável, as Ciências Sociais ainda são muito tímidas no tratamento destes temas. Acredito que os cânones acadêmicos talvez constranjam os pesquisadores em aventurarem-se por campos menos "nobres". Muitos pesquisadores preferem ficar adormecidos nos braços esplêndidos dos temas convencionais a se arriscar em temáticas mais ousadas! Mas posso assegurar uma sensação de prazer por ter realizado uma pesquisa que provoca polêmicas, desagrado e interesse.
>> CVA - É muito interessante pensar a sexualidade como um desejo de completude, uma experiência sagrada, de união e plenitude; lembrar como ritos pagãos e muito da filosofia oriental sempre associaram a sexualidade e o sagrado pela origem comum que têm e pela relação estreita que mantêm. E pensar como elas foram inteiramente apartadas e mesmo polarizadas na nossa sociedade ocidental. Devemos este distanciamento à nossa moral religiosa apenas?
Prof. Sebah - Quando imagino que a sexualidade já foi vivenciada e pensada como completude ou uma experiência sagrada, de união e plenitude, e hoje, no Ocidente, vejo como ela está associada a pecado e a moralismos, não posso deixar que pensar que, embora muitos outros fatores possam ter contribuído para a cisão, a religião (principalmente o Cristianismo) exerceu um papel, se não preponderante, decisivo!
>> CVA - A sua pesquisa mostra que muitas das pessoas que oferecem e buscam prazer em revista e na internet são casadas e declaram que são. Afinal, por que as pessoas oferecem e buscam prazer em revista e na internet? Qual é a natureza desse prazer?
Prof. Sebah - Se fôssemos uma sociedade que minimizasse as interdições no campo das práticas sexuais, talvez não precisássemos buscar vivências alternativas. Quem sabe se a monogamia não está em crise? Não sei afirmar com certeza. Quem sabe se a natureza do prazer sexual entre esses atores sociais não seja uma forma de questionamento das práticas convencionais? Quem sabe não seja uma busca ou uma forma de romper com a monotonia que, muitas vezes, se instaura no casamento?
>> CVA - Você acha que a grande quantidade de oferta de sexo e prazer nas revistas e na internet indica maior interesse do que em outros tempos? Li em matéria d’O Globo (28/06/09) um artigo que refletia exatamente o contrário: notícia de um site de gente assumidamente assexuada, que declara que não faz e não quer sexo. A assexualidade pode ser entendida como desvio ou tendência? O que você acha disso?
Prof. Sebah - Não sei se o interesse de hoje é mais intenso que noutras épocas. Talvez pela maior possibilidade de acesso à informação, tenhamos essa impressão. Quanto a esta reportagem que você cita, não posso afirmar que a assexualidade seja uma tendência ou um desvio. As pessoas e as culturas vivenciam suas sexualidades de diferentes formas e padrões. Seria arriscado chegar a algum tipo de conclusão sem cair na malha fina do etnocentrismo!
>> CVA - É verdade! Prof Sebah, em nome da CVA, agradeço e parabenizo por tua pesquisa. Gláucia.

Prof. Sebah - Querida Gláucia, eu que agradeço pela consideração e deferência.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A vida, de Picasso

Letra da Nona Sinfonia, de Beethoven

Letra da 9ª Sinfonia de Beethoven em alemão
O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern laßt uns angenehmere
anstimmen und freudenvollere.
Freude! Freude!
Freude, schöner Götterfunken
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder,
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Wem der große Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein;
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund!
Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott.
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt'gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.
Seid umschlungen, Millionen!
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Brüder, über'm Sternenzelt
Muß ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such' ihn über'm Sternenzelt!
Über Sternen muß er wohnen.
Letra da 9.ª Sinfonia de Beethoven em português
Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!

A Nona Sinfonia, de Beethoven

A sinfonia n.º 9 em ré menor, op. 125, "Coral", é a última sinfonia completa composta por Ludwig van Beethoven. Completada em 1824, a sinfonia coral mais conhecida como Nona Sinfonia é uma das obras mais conhecidas do repertório ocidental, considerada tanto ícone quanto predecessora da música romântica, e uma das grandes obras-primas de Beethoven.
A nona sinfonia de Beethoven incorpora parte do poema An die Freude ("À Alegria"), uma ode escrita por Friedrich Schiller, com o texto cantado por solistas e um coro em seu último movimento. Foi o primeiro exemplo de um compositor importante que tenha se utilizado da voz humana com o mesmo destaque que os instrumentos, numa sinfonia, criando assim uma obra de grande alcance, que deu o tom para a forma sinfônica que viria a ser adotada pelos compositores românticos.
A sinfonia n.º 9 tem um papel cultural de extrema relevância no mundo atual. Em especial, a música do último movimento, chamado informalmente de "Ode à Alegria", foi rearranjada por Herbert von Karajan para se tornar o hino da União Européia. Outra prova de sua importância na cultura atual foi o valor de 3,3 milhões de dólares atingido pela venda de um dos seus manuscritos originais, feita em 2003 pela Sotheby's, de Londres. Segundo o chefe do departamento de manuscritos da Sotheby's à época, Stephen Roe, a sinfonia "é um dos maiores feitos do homem, ao lado do Hamlet e do Rei Lear de Shakespeare".
Foi apresentada pela primeira vez em 7 de maio de 1824, no Kärntnertortheater, em Viena, na Áustria. O regente foi Michael Umlauf, diretor musical do teatro, e Beethoven - dissuadido da regência pelo estágio avançado de sua surdez - teve direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro.
Ludwig van Beethoven estava quase totalmente surdo quando compôs a sua nona sinfonia.
A Philharmonic Society of London ("Sociedade Filarmônica de Londres"), atual Royal Philharmonic Society (Real Sociedade Filarmônica), comissionou originalmente a obra, em 1817. Beethoven começou a trabalhar nela no ano seguinte, e a terminou no início de 1824, doze anos depois de sua sinfonia anterior. Seu interesse pela Ode à Alegria, no entanto, se iniciou com suas inúmeras tentativas de musicar o poema, ocorridas desde 1793.
O tema do scherzo pode ter suas origens traçadas a uma fuga escrita em 1815. A introdução para a parte vocal da sinfonia causou diversas dificuldades para Beethoven. Foi a primeira vez que se tentava utilizar um componente vocal numa sinfonia. Anton Schindler, célebre amigo de Beethoven, disse posteriormente: "Quando ele começou a trabalhar no quarto movimento, a batalha recomeçou, mais intensa do que nunca. Sua meta era a de encontrar uma maneira apropriada de introduzir a ode de Schiller. Um dia ele [Beethoven] entrou na sala gritando: 'Consegui, consegui!' E então me mostrou um caderno com as palavras cantemos a ode do imortal Schiller'". No entanto, esta introdução acabou nunca chegando à obra final, e Beethoven ainda passou muito tempo reescrevendo aquela parte até que ela atingisse a forma conhecida atualmente.
Beethoven estava ansioso para ver sua obra executada em Berlim o mais rápido possível após terminá-la. Acreditava que o gosto musical de Viena estivesse dominado por compositores italianos como Gioacchino Rossini. Quando seus amigos e patronos ouviram isso, insistiram para que ele estreasse a sinfonia em Viena.
A Nona Sinfonia foi executada pela primeira vez no dia 7 de maio de 1824, no Kärntnertortheater, juntamente com a abertura Die Weihe des Hauses ("A Consagração da Casa") e as primeiras três partes da Missa Solene. Esta era a primeira aparição do compositor sobre um palco em doze anos; a casa estava cheia. As partes para soprano e contralto da sinfonia foram executadas por duas jovens e famosas cantoras da época, Henriette Sontag e Caroline Unger.
Embora a performance tenha sido regida oficialmente por Michael Umlauf, mestre de capela do teatro, Beethoven dividiu o palco com ele. Dois anos antes, Umlauf havia presenciado a tentativa do compositor de reger um ensaio de sua ópera, Fidelio, que terminou em desastre, e desta vez pediu aos cantores e músicos que ignorassem Beethoven, então já totalmente surdo. No início de cada parte, Beethoven, sentado ao palco, dava indicações de tempo, virando as páginas de sua partitura e dando marcações à uma orquestra que não podia ouvir. O violista Josef Böhm escreveu: "O próprio Beethoven regeu a peça; isto é, ele ficou diante do atril e gesticulou furiosamente. Em certos momentos se erguia, noutros se encolhia no solo, e se movimentava como se quisesse tocar ele mesmo todos os instrumentos e cantar por todo o coro. Todos os músicos não prestaram atenção ao seu ritmo enquanto tocavam."
Alguns relatos de testemunhas sugerem que a execução da sinfonia na noite de estreia teria sido pouco apurada, devido ao pouco número de ensaios que haviam sido realizados (apenas dois com a orquestra inteira). Por outro lado, foi um grande sucesso. Enquanto a plateia aplaudia - os testemunhos não deixam claro se isto teria ocorrido no final do scherzo ou da sinfonia - Beethoven, que, em sua "regência", ainda estava atrasado em diversos compassos em relação à música que havia acabado de ser executada, continuava a reger, acompanhando a partitura. Então, a contralto Caroline Unger teria ido a ele e o virado em direção ao público, para aceitar suas exortações e aplausos. De acordo com um dos presentes, "o público recebeu o herói musical com o mais absoluto respeito e simpatia, e ouviu às suas criações maravilhosas, gigantescas, com a mais concentrada das atenções, irrompendo em jubilantes aplausos, frequentemente durante os movimentos, e, repetidamente, ao fim de cada um." Toda a plateia o aplaudiu de pé por cinco diversas vezes; lenços foram erguidos ao ar, assim como chapéus e mãos, para que Beethoven, que não podia ouvir o aplauso, pudesse ao menos vê-lo. Beethoven deixou o concerto extremamente comovido.

Apeirokalia - A Longa Marcha da Vaca para o Brejo

Por Olavo de Carvalho
Como geralmente se entende por educação superior o simples adestramento para as profissões melhores, conclui-se, com acerto, que toda pessoa normal é apta a recebê-la e que, na seleção dos candidatos, qualquer elitismo é injusto, mesmo quando não resulte de uma discriminação intencional e sim apenas de uma desigual distribuição da sorte. Mas se por essa expressão se designa a superação dos limites intelectuais do meio, o acesso a uma visão universal das coisas, a realização das mais altas qualidades espirituais humanas, então existe dentro de muitos postulantes um impedimento pessoal que, mais dia menos dias, terminará por excluí-los e por fazer com que a educação superior, no sentido forte e não administrativo do termo, continue a ser de fato e de direito um privilégio de poucos.
Esse impedimento, graças a Deus, não é de ordem econômica, social, étnica ou biológica. É um daqueles males humanos que, como o câncer e as brigas conjugais, se distribuem de maneira mais ou menos justa e eqüitativa entre classes, raças e sexos. É o único tipo de imperfeição que poderia, com justiça, ser invocado como fundamento de uma seleção elitista, mas que de fato não precisa sê-lo, pois opera essa seleção por si, de maneira tão natural e espontânea, que os excluídos não dão pela falta do que perderam e chegam mesmo a sentir-se bastante satisfeitos com seu estado, reinando entre os poucos felizes e os muitos infelizes uma perfeita harmonia, salvaguardada pela distância intransponível que os separa.
O impedimento a que me refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo. No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia e a noite.
Os gregos chamavam-no de "apeirokalia". Quer dizer simplesmente "falta de experiência das coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências, nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica, diria que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios, expressões pedantes da impotência do conhecer.
Mas é claro que as experiências interiores a que Aristóteles se refere não são fornecidas apenas pelos "ritos", no sentido técnico e estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a um influxo do alto. À música - a certas músicas - não se pode negar o poder de gerar um efeito semelhante. A simples contemplação da natureza, um acaso providencial ou mesmo, nas almas sensíveis, certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em "Crime e Castigo"), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte da caverna e da “apeirokalia”.
Porém, com mais probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos do Ser. E aí começa o problema: muitos homens jamais tiveram a experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são vítimas da "apeirokalia" - e entre eles contam-se alguns dos mais notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mun-do.
Infelizmente, o número dessas vítimas parece destinado a crescer. Já em 1918, Max Weber assinalava, como um dos traços proeminentes da época que nascia, a perda de unidade dos valores ético-religiosos, estéticos e cognitivos. O bem, o belo e a verdade afastavam-se velozmente, num movimento centrífugo, e em decorrência
"os valores mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas diretas e pessoais... Não é por acaso que hoje somente nos círculos menores e mais íntimos, em situações humanas pessoais, é que pulsa alguma coisa que corresponda ao pneuma profético, que nos tempos antigos varriam as grandes comunidades como um incêndio”.
As duas fortalezas do sublime que Weber menciona não demonstraram a ceder: a vida mística, assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente não existe mais.
Toda literatura do século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a "incomunicabilidade" dos egos, depois a supressão do próprio ego: a "dissolução do personagem". Mas, desde Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que se entende por mística é um cerebralismo de filólogos; por intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma película de borracha. Os três valores supremos já não são mais autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até o cotovelo no ânus do outro macho. A ética reduz-se a um discurso acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de uma comunidade acadêmica corrompida até a medula.
Nessas condições, é um verdadeiro milagre que um indivíduo possa escapar por instantes da redoma de chumbo da "apeirokalia", e outro milagre que, ao retornar ao pesadelo que ele denomina "vida real", esses instantes não lhe pareçam apenas um sonho, que não se deve mencionar em público.
Mas nada proíbe um escritor de dirigir-se, em suas obras, aos sobreviventes ao naufrágio espiritual do século XX, na esperança de que existam e não sejam demasiadamente poucos. Acossados pelo assédio conjunto da banalidade e da brutalidade, esses podem conservar ainda uma vaga suspeita de que em seus sonhos e esperanças ocultos há uma verdade mais certa do que em tudo que o mundo de hoje nos impõem com o rótulo de "realidade", garantido pelo aval da comunidade acadêmica e da "Food and Drug Administration". É a tais pessoas que me dirijo exclusivamente, ciente de que não se encontram com mais freqüência entre as classes letradas do que entre os pobres e os desvalidos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Da série Humanoides, de Marcelus Bob

Estilhaços

De Cátia de França

porque a vida é
tua mesa de comida é
sem toalhas comportadas
de um pedaço de chão
um leito leve de amor, porta, coração, aberto
tens a cada hora uma aurora sempre perto
porque teu tempo é
não tens espera tens um abraço a cada instante
tua vida é uma partida constante
não tens o sangue frio
frio do asfalto
teu mundo não é feito, feito só de aço
espalhas estilhaços de amor
a tua sede é calma
calma de alma verde
a tua fome é fonte de onde nasce o homem
espalhas estilhaços de amor
teu corpo não tem norte
também não tem o sul
não há nenhuma algema que segure tuas mãos
a tua estrada não tem mancha, mancha de solidão
é o céu, o sol, o som
nos dedos de tua mão

Copo vazio

De Chico Buarque

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.

É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.

Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.



Tortura

De Florbela Espanca

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!